Capítulo 40

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Eleanor Quinn

Uma vez me falaram que o amor doi. E eu não acreditei.

Não acreditei, porque, como algo tão lindo, tão profundo, tão imo e tão necessário pode ser doloroso? Como que as pessoas poderiam, então, aceitar amar ou receber amor se sairiam machucadas?

Mas você não sabe o peso dessa verdade até senti-la. Não sabe o quão ruim é ver que confiou na pessoa errada. Não sabe o marcada ficará seu coração com tal dor. Infelizmente, só saberá quando sentir isso, quando o mundo perfeito que você via com aquela pessoa se quebra.

Ele diz tantas palavras bonitas que eu as abraço como se fossem verdade. Elas penetram meus ouvidos antes mesmo de eu poder tapá-los. Quero tanto acreditar nelas que acabo me afundando no mar de mentiras dele enquanto penso desesperadamente que consigo nadar. Ele diz tantas palavras bonitas que consigo até sentir meu coração amolecer, querendo, de verdade, acreditar em cada letra que passa por aqueles lábios. Ele diz tantas palavras bonitas que já estou confusa de tentar parar esse sentimento criado por ti. Para ser sincera, as palavras nem eram tudo isso, mas acreditei no contrário, caindo em no mar por conta própria, afundando-me em todas as mentiras, sem tentar tapar meus ouvidos, porque, no fundo, sou apenas um coração curado esperando ser cortado mais uma vez.

De fato, sou ingênua.

Acreditei em palavras bonitas que mascaravam uma mentira feia, quase morta. Isso porque eu queria ouvi-las, sem nem me importar se fossem mentiras ou não.

A cada batida que meu pai dava na porta, eu sentia meu peito afundando. A vergonha criando uma morada em minha mente.

- Eleanor... - parou de bater e eu consegui escutar seu suspiro mesmo com a porta entre nós.

Ainda não contei a ele o que eu fiz, o que eu e Maven fizemos. Mas acho que ele já pode ter uma ideia.

Pelo menos ele é meu pai, irá me apoiar e ficar ao meu lado, mesmo que não goste muito da situação.

- Me diz que não transou com ele...

Fechei os olhos, as lágrimas escorrendo mais uma vez livremente.

A mentira estava na ponta da língua, um belo "não" soava tão atraente, mas, não era fácil dizer quanto eu queria. Não tive a coragem necessária para mentir, mesmo que eu quisesse que fosse verdade.

- Ótimo... transou com ele. Ótimo, Eleanor! - a batida veio mais forte. - Tem ideia do quanto eu lutei para te proteger daquele garoto? Do que eu fiz pra te manter longe dele e daquela família? Porra, Eleanor, ele colocou fogo na nossa casa, as lembranças da sua mãe e você simplesmente dá pra ele?

Nada, literalmente nada, nadinha, me preparou para ouvir isso.

Já ouvi muita merda na vida, muitas delas vindas do meu próprio pai, mas isso? Nunca. É como se, já não bastasse o Maven colocar o prego em meu peito, meu pai o martelasse profundamente.

Ignorei qualquer coisa que ele começou a fazer após aquelas palavras, tudo ficou abafado aos meus ouvidos.

Mas não aos meus olhos.

Eles se focaram em um pequeno frasco de remédios. Os que eu tomava para controlar a ansiedade, que me deixava sonolenta e dormindo por horas. Faz muito tempo desde a última vez que tomei um comprimido. Eu precisava disso.

Tomei o frasco da mesa de cabeceira e engoli, com a água que sempre deixo ali, não um, não dois, não três. Não sei quantos foram, mas eram mais que isso.

Queria dormir.

Talvez nem acordar de novo. Permanecer numa cama, com a mente em belos sonhos, sem ter de sofrer com a realidade.

Ele nem sabe que eu sei que foi ele quem colocou fogo na casa e, me lembrar disso, me deixa com ainda mais raiva. Me doi tanto no peito que mal respiro.

As batidas voltaram aos meus ouvidos mais altas que antes com meu nome sendo chamado.

Mas se afastaram à medida que a minha tão desejada paz começou a se fundir com minha dor. Foi se espalhando por cada membro que implorava por descanso. Não lutei contra a sensação; deitei na cama e tudo ficou distante.

O fogo finalmente se apagou e eu realmente espero que nunca mais se acenda.

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