...Para o inferno!

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Não consigo dormir. O lençol parece quente demais e o travesseiro, áspero. Me reviro, olho o teto e a mente não para de trabalhar, mesmo que eu não esteja pensando em nada. Ou pelo menos me forçando a não pensar no que não quero. Um barulho de algo arranhando na porta me obriga a levantar e abrir a porta para o pug entrar.

— Desculpa, Pakkun. Você está com saudades né? — O pequeno invade o quarto como se fosse o dono, talvez ele seja, e já pula para a cama se aninhando no lado que eu não durmo. — Folgado como sempre.

Ele apenas me olha com a sua expressão de desinteresse. Sim, esse cachorro é quase tão expressivo quanto um humano. Mas seu rabinho dá uma leve balançada. Essa é a parte que o trai.

— Ino disse que você é um príncipe. Por que não se comporta como um comigo?

Deito ao seu lado, com o corpo totalmente virado para ele e aliso por trás da sua orelhinha. Pakkun coloca a língua para fora apreciando o carinho.

— Desculpa não ter te levado. Uma próxima viagem, você irá comigo. — Ele se levanta e chega mais próximo de mim e abaixo o meu rosto para dar um cheirinho. — Só não sei se o Kakashi estará presente.

Pakkun levanta as orelhas e abre um pouco mais os olhos. Eles se adoram. Acho que esse pulguento gosta mais do Hatake do que de mim.

— Você vai ficar comigo para sempre, né? — Sem qualquer controle, lágrimas escapam dos meus olhos e permito porque dói.

Escondo o rosto no travesseiro porque é tão difícil segurar. É como se todo o alicerce que eu vinha tentando construir tivesse rachado por dentro, e agora tudo me lembra do que eu escondo. O que fiz.

Me apaixonar nunca foi parte dos meus planos. E talvez seja por isso que agora dói tanto: porque é real. Porque sinto tudo amplificado. E porque eu fui a única que mentiu.

Me viro de costas para o mundo, viro de costas para o celular que vibra na mesa de cabeceira e para o peito que grita para responder. Pakkun suspira alto, como se entendesse tudo, e se encaixa nos meus braços. Talvez eu esteja sendo injusta com ele também. Com o seu jeitinho, está comigo. Meu corpo treme uma última vez antes de se aquietar.

Já passa das duas da manhã quando eu estico a mão e desbloqueio a tela. Há três chamadas perdidas. Uma mensagem curta:

Kakashi Hatake: Sakura, está tudo bem?

Sinto o estômago se contorcer. A culpa me engole inteira. Tento respirar fundo, escolher as palavras certas, ou as menos erradas. Digito, apago, digito de novo.

Sakura Uchiha: Desculpa não responder antes. Apaguei quando cheguei.

Anexo uma foto de mim e Pakkun deitados, com o focinho dele encostado na minha clavícula. Estou de olhos fechados. Quero que pareça uma cena doce. Verdadeira, mesmo que seja apenas uma distração.

Mando a mensagem e, por um instante, fecho os olhos e peço — não sei a quem — que ele acredite na minha verdade.

...

Desde que voltei pra casa tenho evitado olhar pro espelho. É ridículo. Como se encarar o próprio reflexo fosse confirmar que eu me entreguei mais do que devia. Que eu cruzei uma linha que prometi a mim mesma jamais ultrapassar de novo. E que convenhamos, estava fácil fazer isso. Sei que magoei algumas pessoas no caminho que não tinham nada a ver, mas nunca procurei relacionamento. Primeiro porque ninguém poderia ocupar o lugar deixado por Sasuke. Segundo porque eu estava com medo de amar novamente e sentir tudo doer. A dor da perda é como estar em um buraco escuro e nunca enxergar um rastro de luz. É sentir frio e medo da solidão e da tristeza que apenas te draga para o fundo.

Proposta IndecenteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora