Coriane Narrando...
O silêncio paira entre nós por alguns segundos depois da minha provocação. Damon ainda me encara, mas agora seus olhos não têm mais aquele brilho de deboche — estão frios, quase cortantes.
Ele desvia o olhar, passa a mão pelos cabelos e finge se interessar pelo jogo que Lewis e Sawyer estão jogando. Eu sorrio de canto. Sempre gostei de tirar ele do sério, talvez porque seja a única forma de lembrar que ele ainda sente alguma coisa.
– Vai querer uma cerveja ou continua na vibe fitness? – Ambrose pergunta, já abrindo uma lata.
– Pode ser. – Respondo, sentando mais confortável no sofá.
Ele me entrega a lata gelada e eu tomo um gole, sentindo o amargor familiar escorrer pela garganta. Era como se aquele gosto me lembrasse que ainda estava viva, mesmo que por dentro eu me sentisse meio morta.
Lewis e Sawyer continuam brigando pelo controle, Damon parece distante, e Ambrose faz piadas sem graça tentando preencher o ar pesado que insiste em voltar sempre que o riso morre.
– Vocês perceberam que tudo anda meio... estranho? – Pergunto, quebrando o silêncio. – Tipo, como se o mundo tivesse parado e ninguém tivesse notado.
– Isso se chama depressão, amor. – Sawyer diz, sem olhar pra mim.
Reviro os olhos. – Engraçadinho.
– Ele tem um ponto. – Damon diz, finalmente voltando a falar. – Desde que voltamos da montanha, tudo parece... suspenso. Como se a gente tivesse deixado algo lá.
Ninguém responde. Só o som dos botões sendo apertados e o estalo ocasional da lata de cerveja sendo amassada.
– A gente deixou algo lá, sim. – Digo por fim. – A gente mesmo.
Lewis pausa o jogo e se vira pra mim. – Que papo é esse, Coriane?
– Papo real. – Digo, encarando o chão. – Desde que voltamos, eu não durmo direito. Sonho com coisas que não sei se aconteceram ou se são invenções da minha cabeça. Às vezes acho que ainda estou lá.
Sawyer solta um assobio baixo. – Cara, que sinistro.
– Não é sinistro. É só a verdade. – Respondo firme. – Vocês fingem que nada mudou, mas olha pra gente. Olha pra você, Sawyer, com essas piadas que ninguém ri. Pro Damon, que tá se escondendo atrás desse sorriso de merda. E pro Ambrose... – olho pra ele, que desvia o olhar – ...que nem sabe mais quem é quando o silêncio chega.
O ar na sala fica denso.
– Tá, chega. – Damon se levanta de repente. – Ninguém quer falar sobre o que aconteceu lá, Coriane.
– Mas devia. – Digo, me levantando também. – Fingir que nada aconteceu não vai apagar o que a gente viu.
Ele se aproxima, o olhar carregado. – E o que você viu, Coriane?
Ficamos frente a frente, o som do vento lá fora batendo nas janelas. Por um segundo, é como se eu ainda estivesse naquela montanha, o cheiro de terra molhada e sangue misturado, o eco dos gritos...
– Você sabe o que eu vi. – Sussurro.
Os meninos ficam em silêncio. Damon dá um passo pra trás, desviando o olhar, e eu percebo que ele lembra também.
– É melhor você ir pra casa. – Ele diz, baixo.
– Não volto pra lá. – Respondo firme. – Prefiro dormir na rua do que sob o mesmo teto que aquele homem.
Damon suspira, passa a mão pelo rosto e solta um "merda" entre os dentes.
– Fica aqui então. – Diz por fim. – No quarto de hóspedes.
Concordo com um aceno. O clima está pesado demais pra qualquer resposta mais longa.
Subo as escadas com passos lentos, sentindo o peso do olhar deles em mim. Quando entro no quarto, fecho a porta e respiro fundo.
O silêncio da casa é cortado por uma lembrança — o som de vidro se quebrando, de água borbulhando, e o grito abafado da minha mãe.
Deito na cama, puxo o cobertor e encaro o teto.
Às vezes acho que ainda estou naquele banheiro, presa entre o reflexo quebrado e o grito que nunca saiu da minha garganta.
Mas algo dentro de mim diz que o pior ainda está por vir.
E que, dessa vez, ninguém vai sair ileso.
»»»
Acordei no meio da noite com um barulho seco vindo do andar de baixo. Por um instante, achei que fosse só o vento batendo nas janelas — Hill Valey sempre parecia sussurrar quando todos dormiam. Mas logo ouvi outro som.
Vidro. Quebrando.
Meu coração disparou.
Levantei devagar, tentando não fazer barulho, e fui até a porta. Damon tinha insistido pra eu dormir ali, mas agora o quarto parecia um tipo de armadilha — cada sombra um vulto, cada ruído um alerta.
Desci as escadas em silêncio. A sala estava mergulhada em meia-luz, a TV desligada refletia meu rosto pálido e o luar atravessava as janelas como lâminas.
Foi quando vi: na porta de vidro que dava pro quintal, alguém tinha deixado algo. Um envelope preso com fita adesiva.
Meu estômago se revirou.
Me aproximei com cuidado, abrindo a porta devagar. O vento frio da montanha me cortou o rosto, e o silêncio da noite me envolveu. Peguei o envelope. Sem remetente. Sem nome. Só uma única palavra escrita em vermelho:
"HERANÇA."
Abri com mãos trêmulas. Dentro, uma foto antiga — parecia tirada em algum baile de formatura, talvez nos anos 90. Reconheci três rostos de imediato: o pai do Damon, o do Ambrose e o meu. Todos jovens. Todos sorrindo.
Atrás da foto, uma frase escrita à mão:
"Os pecados dos pais recaem sobre os filhos."
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
– Que diabos... – murmurei.
– Coriane? – A voz rouca de Damon me fez pular.
Ele estava na escada, o cabelo bagunçado e o olhar tenso.
– Tinha alguém lá fora. – Falei rápido, mostrando o envelope.
Ele desceu num salto, pegou a foto e franziu o cenho.
– Onde você achou isso?
– Preso na porta.
Ambrose apareceu logo atrás dele, sonolento. – Que horas são?
– Hora de acordar. – Damon respondeu sério, mostrando a foto.
Ambrose se aproximou, pegou a imagem e a virou nas mãos. Quando leu o que estava escrito atrás, sua expressão mudou.
– Isso é uma ameaça.
– Ou um aviso. – Corrigi. – De alguém que sabe mais do que devia.
Por um segundo, ninguém falou nada. Só o barulho do vento lá fora e o bater insistente de uma janela que não fechava direito.
– Acha que tem a ver com... o que aconteceu na montanha? – Ambrose perguntou, hesitante.
Damon não respondeu.
Mas eu sabia. Tinha tudo a ver.
E o pior era a sensação de que isso não era o começo — era só a continuação de algo que começou há muito tempo, antes mesmo de a gente nascer.
Porque os fantasmas de Hill Valey não nasciam do nada.
Eles eram herdados.
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The Delinquents
Teen FictionVocê já se perguntou quantos segredos escondidos á em uma cidade pequena? Eu também não ligava muito pra essas coisas, mas depois daquele dia eu tive certeza, tive certeza de que minha vida não era perfeita e que tudo era apenas uma ilusão. Mais po...
