cap 14

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A gente saiu do meu apartamento já rindo. Emmy tinha acabado de jogar minhas chaves pra cima, dizendo que eu era “a pessoa mais organizada bagunçada do planeta”. Eu só revirei os olhos e puxei ela pelo braço.

— Vamos logo antes que você reclame da minha geladeira também.
— Reclamar? — ela riu. — Aquilo não é geladeira, Hanna… é um museu da fome.

Eu ri alto, e a gente desceu os últimos degraus como duas adolescentes fugindo de casa.

O ar da noite em Washington estava fresco, com aquele cheiro de rua movimentada, comida, barulho de gente viva. Emmy cruzou o braço no meu e disse:

— Você precisa sair mais.
— Eu saio… às vezes.
— Trabalho não conta.
— Jura? — eu provoquei.

Caminhamos até um barzinho de luz baixa e música suave, nada muito cheio. Estava perfeito. Eu já me sentia outra pessoa só de estar ali com ela.

Aí, no meio da conversa — justo quando Emmy estava me fazendo rir falando de uma vizinha dela que confundiu detergente com xampu — alguém chamou:

— Hanna?

Virei devagar, rezando pra não ser o Miller, porque sinceramente… eu não tinha energia pra lidar com ele naquela noite. Mas relaxei quando reconheci o sorriso:

Henrique.

— Caramba — eu sorri. — Quanto tempo!
— Uau, achei que você tinha esquecido de nós, meros mortais — ele brincou.

Do lado dele, um amigo — alto, camisa preta, aquele sorriso meio tímido, meio perigoso.

— Essa é a Emmy — apresentei.
— Prazer — o amigo disse, olhando pra ela como se estivesse vendo um cometa passando.
— Prazer — Emmy respondeu, mas eu vi o micro-sorrisinho malicioso dela. Eu conheço.

Henrique colocou a mão na cintura, aquele jeito seguro que ele sempre teve.

— A gente ia entrar ali — ele apontou para o mesmo bar. — Se quiserem, junta com a gente.

Emmy nem olhou pra mim. Só apertou meu braço e respondeu:

— Acho uma ótima ideia.

Eu suspirei, rindo por dentro. Claro que ela ia topar.

Henrique chegou mais perto e falou em voz baixa, só pra mim:

— Achei que você tinha sumido da cidade.
— Só trabalhando demais — respondi.
— E… o Miller? — ele perguntou com aquele sorrisinho de quem quer cutucar.

Rolei os olhos.

— Pelo amor de Deus, Henrique. Ele continua achando que eu vou me apaixonar por ele só porque ele sabe abrir portas de carro.
— Então nada mudou — ele riu. — Bom saber.

Emmy me puxou.

— Anda, Hanna. O amigo do Henrique é bonito demais pra gente deixar escapar.

Eu dei um leve tapa no braço dela.

— Comporta-se.
— Sem promessas — ela piscou.

E assim seguimos, nós quatro entrando no bar, cada um com um brilho diferente no olhar…

Entramos no bar, e a diferença de luz fez meus olhos piscarem algumas vezes. A música estava no volume perfeito: alta o suficiente pra criar clima, mas baixa o suficiente pra conversar sem gritar.

Henrique se aproximou do balcão pra pedir as bebidas, e sem perceber eu fiquei ao lado dele, quase encostando. O cheiro dele… Deus. Aquele perfume amadeirado que eu reconheceria em qualquer lugar.

— Mesma coisa de sempre? — ele perguntou, virando um pouco o rosto pra mim.
— Você lembra? — sorri.
— Algumas coisas a gente não esquece.

A forma como ele falou me deu um arrepio leve que subiu pela minha nuca. Ele percebeu. Claro que percebeu. Henrique sempre percebe.

Quando voltamos pra mesa, Emmy já estava rindo de alguma piada do Cleber — que era ainda mais bonito de perto. Ombros largos, olhar tranquilo, sorriso fácil. Emmy estava claramente se divertindo.

Henrique colocou meu drink na minha frente e sentou ao meu lado, não em frente. Ao lado.
Tão perto que o calor do corpo dele tocou o meu braço. Uma aproximação pequena, quase inocente… mas suficiente pra mexer comigo.

Eu tentava acompanhar a conversa:

— Então, Cleber — perguntei — vocês dois se conhecem de onde?

— Faculdade — ele respondeu, sorrindo. — Henrique vivia me arrastando pra essas aventuras que ele chama de vida social.

Henrique riu.

— Você gostava!
— Eu fingia — Cleber rebateu.
Emmy gargalhou, jogando o cabelo pro lado.

Durante isso, Henrique inclinou um pouco o corpo, como se estivesse só se ajeitando no banco… mas a coxa dele tocou a minha.

Eu mantive o sorriso. Continuei conversando.
Mas o toque dele ficou ali. Firme. Quente. Quase proposital.

Minha respiração mudou só um pouquinho, e ele reparou — porque Henrique sempre repara.

— Você tá bem? — murmurou baixo, só pra mim.
— Tô — respondi, tentando parecer casual. — Só… sentindo a música.

Ele chegou um pouco mais perto.

— A música ou outra coisa?

Meu coração deu um salto.
Eu fingi que estava olhando os dois do outro lado da mesa, mas a voz dele ficou ecoando dentro de mim, junto com aquele calor que subia devagar, sem pressa.

Cleber estava elogiando Emmy por alguma história bizarra do aeroporto, e ela ria, encantada. A conversa fluía, todos falando, rindo, trocando olhares… porém, debaixo da mesa, o mundo era outro.

Henrique deixava a mão dele quase tocar a minha  perna — aquele “quase” que queima mais do que se tocasse de verdade.
E cada vez que ele subia sua mão chegando cada vez mas perto da minha verilia ate chegar, toda vez que vinha comentar algo comigo, a proximidade aumentava, lenta e calculada.

Eu mantinha o papo, sorria, respondia…
Mas minha pele inteira estava alerta, desperta, viva.

Henrique sabia.
E, pior: ele estava se divertindo com isso.

Quando Emmy perguntou algo pra mim, Henrique falou antes, com aquele sorriso torto:

— A Hanna tá ocupada… apreciando a noite.

Eu virei o rosto devagar pra ele, e ele só ergueu as sobrancelhas — insolente, provocador.

E eu… eu deixei.
Porque a sensação era boa demais pra resistir.

Por Uma Decisão Histórias para pegar e não largar. Descubra agora