cap 11

3 0 0
                                        

___________________Miler_____________________

O sol da manhã entrava pelas janelas do hotel, iluminando o café fumegante e o aroma de pães frescos que preenchia o ar. Sentei-me à mesa, a bandeja de café na frente, e Senayd estava ao meu lado. Não precisávamos de mais ninguém — a conversa seria apenas entre nós.

— Esse café é forte demais — disse ela, mexendo na xícara com o olhar divertido. — Quase me acorda mais que o próprio sol.

— Forte como eu gosto — respondi, tentando soar casual, mas não conseguindo esconder um sorriso. — Sempre ajuda a começar o dia.

Ela riu, e aquele som parecia quebrar a tensão que ainda pairava sobre nós depois da noite anterior. Por alguns instantes, foi apenas café, a luz da manhã e risadas contidas.

— Você sempre acorda tão cedo quando viaja? — perguntou ela, olhando para mim com curiosidade.

— Depende do hotel — respondi, mexendo no pão —. Mas hoje cedo eu só queria escapar da cama por um momento. O quarto parecia menor do que realmente era.

Ela sorriu, inclinando-se levemente para frente.

— Eu também. E acabei pensando que a cidade lá fora é mais bonita do que imaginava.

Falamos então sobre detalhes pequenos, quase banais: o cheiro do café, o vento que entrava pela janela aberta, o brilho da cidade refletido nas vidraças. Por alguns minutos, parecia que podíamos ser apenas duas pessoas conhecendo o lugar, sem passado complicado, sem pressões externas.

Mas, quando o silêncio tomou espaço por alguns segundos, e eu estava prestes a tomar outro gole, a memória da noite anterior invadiu meu peito como um choque. O beijo, o toque, tudo voltou. E minha voz falhou quando tentei falar:

— Hanna… — comecei, hesitante, tentando manter a calma — Senayd …

O nome escapou antes que eu pudesse controlar. Ela ergueu a cabeça, surpresa, olhos arregalados. O clima leve que tínhamos construído se dissolveu instantaneamente.

— Miller… — disse ela, baixo, firme

Engoli em seco, sentindo o calor subir pelo pescoço e o peito apertar. — Desculpe… nao consegui manter o controle antes, eu queria que a minha situação fosse outra, eu mim importo com você.

O sorriso que havíamos compartilhado se apagou. Ficamos em silêncio, cada um lidando com a tensão que se espalhava entre nós. A manhã clara, o café, as risadas, tudo parecia distante agora. Era apenas nós dois, frente a frente, conscientes de que a linha que cruzamos na noite anterior ainda existia — mais real e perigosa do que qualquer café da manhã poderia disfarçar.

O avião já estava em altitude de cruzeiro. Eu mantinha os olhos fixos na janela, tentando ignorar a turbulência dentro de mim, que era bem pior do que qualquer sacudida da aeronave. Ao meu lado, Hanna folheava uma revista qualquer, mas eu sabia que ela não estava realmente lendo.

Meu celular vibrou no bolso. Mensagem do meu pai. Um lembrete, como sempre. Apertei os dentes, digitei rápido e murmurei sem perceber:

— O casamento vai acontecer do jeito que o senhor quer.

Fechei os olhos logo depois, mas era tarde. Senti o peso do olhar de Hanna sobre mim. Lentamente, virei a cabeça. Ela não parecia surpresa. Nem assustada. Apenas… firme.

— Então é isso, — disse em voz baixa, quase num sussurro para não chamar atenção de quem estivesse perto. — Eu já imaginava.

Meu coração disparou. — Não é o que você está pensando.

Ela inclinou o rosto, com um meio sorriso sem humor.

— Não, Miller… é exatamente o que eu estou pensando. Você me usou antes, quando quis fazer a Ágata se sentir mal, me usou na quela festa E agora… isso aqui, — ela fez um gesto quase imperceptível entre nós dois — não passa de um deslize.

A palavra me atingiu como um soco. Deslize.

— Hanna… — tentei falar, mas a raiva me engoliu. Eu não suportava a ideia de que ela tivesse razão, e ao mesmo tempo, não podia desmentir. — Você não entende nada! Esse casamento é o que vai garantir que você não seja engolida por tudo isso. É pro seu bem!

Ela arqueou a sobrancelha, serena de um jeito que me desarmava mais do que qualquer lágrima. — Pro meu bem? Ou pro orgulho do seu pai?

Não consegui responder. Apenas desviei o olhar para a janela, fingindo interesse nas nuvens que passavam.

Mas por dentro… eu sabia que tinha acabado de perder mais uma parte dela.

Saímos do avião e atravessamos o portão de desembarque. Mal tive tempo de respirar antes de Ágata se aproximar com aquele sorriso calculado, provocador.

Sem pedir licença, ela avançou e me beijou. Um beijo audacioso, feito para me testar e, claro, para que Hanna visse. Não senti nada — nenhum calor, nenhuma vontade de corresponder. Só frustração, raiva e impotência.

Afastei-a pelo ombro com força, a voz baixa e gelada:

— Que diabos você pensa que está fazendo? — disse, cada palavra cortando o ar entre nós. — Não me toque de novo.

Ela recuou, ainda com aquele sorriso provocador, piscando como se soubesse que tinha me irritado.

Hanna estava parada alguns passos atrás, observando em silêncio. Eu podia sentir o olhar dela, mas não olhei para ela. Naquele momento, minha atenção estava toda focada em conter Ágata, em não ceder, em não me deixar manipular.

Foi só quando me virei para seguir em direção à saída que percebi: Hanna não estava mais lá. Ela simplesmente se afastou, desapareceu na multidão, silenciosa, sem me esperar, sem que eu sequer percebesse.

O aperto no peito veio junto com a frustração que já sentia. Primeiro Ágata, agora a ausência de Hanna. Eu estava cercado de forças que não podia controlar, e cada passo para fora do aeroporto me lembrava do vazio que ela deixou.

Ágata ainda sorria, triunfante e provocadora, mas eu não podia ceder. Não podia permitir que ela pensasse que tinha poder sobre mim. Segui em frente, com a sensação amarga de que tinha perdido algo mais importante do que podia suportar admitir.

Por Uma Decisão Histórias para pegar e não largar. Descubra agora