Judd Birch point of view
Algumas horas antes...
O palco do auditório parece maior quando não tem ninguém assistindo.
Ou talvez seja só a paranoia de estar no centro de um lugar onde todo mundo pode me ver.
McFlynn: Duplas!-a professora anuncia, batendo palmas uma vez-Improviso rápido. Quero reação, não texto.
Já tô pensando em como desaparecer quando ela aponta.
McFlynn: Judd.
Ótimo.
McFlynn: E... Maybel.
May ergue a cabeça na hora, surpresa, o sorriso já meio torto no rosto — como se estivesse achando graça antes mesmo de saber do quê.
May: Opa!-ela levanta o punho-Isso vai ser interessante.
Eu: Fala por você.-resmungo, indo até o centro do palco.
Ela chega sem cerimônia nenhuma, se posiciona ao meu lado e sussurra:
May: Relaxa. Se der ruim, a culpa é minha.
Isso... ajuda mais do que deveria.
McFlynn: Situação:-a professora retoma a palavra-Vocês se reencontram depois de muito tempo. Tem algo não dito entre vocês. Não é romântico. Ainda.
Ainda.
Legal. Adorei o suspense.
McFlynn: Valendo.
May não perde tempo.
May: Você demorou.-ela diz, cruzando os braços. A voz muda. Fica mais baixa.-Achei que não vinha.
Não sei por que, mas aquilo bate. Não no sentido dramático. No humano.
Dou de ombros, automático.
Eu: Você sempre acha isso.
Ela dá um meio sorriso triste.
May: Porque você sempre vai embora antes.
Silêncio.
Não tô atuando. Tô reagindo. E isso é o que me assusta.
Eu: Não é verdade.-respondo, mas minha voz falha um pouco-Eu só... não fico quando parece que eu deveria.
May dá um passo à frente. Eu não recuo.
May: E quem disse que você deveria?
Não sei o que responder.
Então fico quieto.
E, de algum jeito, isso funciona.
Quando o exercício acaba, a sala inteira parece suspensa por meio segundo antes de explodir em palmas. A professora é a primeira a respirar fundo.
McFlynn: Muito bom!-ela vibra, parecendo genuinamente orgulhosa-Os dois.
May olha pra mim, surpresa de verdade agora.
McFlynn: Vocês ouviram um ao outro.-a professora continua-Isso é raro. E difícil de ensinar.
Eu já tô me preparando pro discurso padrão quando ela solta:
McFlynn: Aguardo vocês para os testes da peça do final do semestre! Romeu e Julieta, antes que alguém pergunte.
Nem elaboro as palavras, elas simplesmente escapam.
Eu: Professora, eu já avisei que vou ficar no som.
Algumas pessoas riem. Eu mantenho a cara fechada.
McFlynn: Eu lembro.-ela responde, com uma paciência de monge-Mas estou pedindo que você reconsidere, Judd, acho que seu talento ultrapassa as caixas de som. Quem sabe até o papel principal?
May vira pra mim com um sorriso malandro.
May: Vai lá, Romeu. Vive um pouco.
Eu: Cala a boca.-resmungo, revirando os olhos de forma que a faz rir.
May se inclina na minha direção.
May: Olha, se você virar ator, prometo não contar pra ninguém que você já foi antissocial.
Eu: Eu ainda sou.
May: É, mas agora com palco.
O sinal toca. A sala começa a esvaziar.
Saímos juntos, sem pressa.
May: Você manda bem.-ela diz, simples, sem exagero-Não precisa fingir que não.
Eu: Não tô fingindo.-rebato de imediato, mas nem tão honestamente assim-Só não quero problema.
May: É, teatro é problema.-ela sorri, ajeitando a mochila nas costas-Mas é um problema divertido.
Olho pra ela de canto.
Eu: Você vai fazer o teste?
May: Talvez.-ela dá de ombros-Se você fizer, eu faço. Se não... eu faço mesmo assim.
Eu: Óbvio.
Ela ri.
May: Relaxa, Birch. Seja no palco ou no som, a gente vai se ver bastante.
Não sei por que, mas isso não soa como ameaça.
Soa... confortável.
E quando a professora fala em Romeu e Julieta, pela primeira vez eu não descarto a ideia imediatamente.
Talvez só pra provar que consigo. Ou só porque não estaria sozinho tentando dessa vez.
**BEEP**
Pisco, confuso.
O som da buzina me trazendo de volta a realidade.
Eu: Tá maluco?!-rosno, mais pra mim do que pro cara no carro de trás.
O semáforo já abriu faz tempo. Piso no acelerador e sigo, o coração ainda um pouco fora do ritmo. O teatro fica pra trás junto com o resto da escola, mas a sensação estranha não vai embora.
Verônica: Você costuma viajar assim quando dirige?
Olho pro lado.
Verônica me encara, uma sobrancelha arqueada, o cinto atravessando o peito como se ela estivesse perfeitamente encaixada naquele banco de uma van velha que nunca foi feito pra alguém como ela.
Eu: Hã?
Verônica: Você ficou olhando pro nada por, tipo... vinte segundos.-ela comenta, me olhando com desconfiança-Achei que ia precisar assumir o volante.
Eu: Relaxa.-a tranquilizo-Só tava pensando.
Verônica: Isso explica o cheiro de fumaça.
Solto um meio sorriso.
Eu: Engraçadinha.-ironizo, a olhando de canto de olho.
Paramos num sinal. O reflexo do vidro mostra o rosto dela voltado pra mim.
Verônica: Você gostou da aula de teatro?-ela pergunta.
Respiro fundo.
Eu: Gostei.-admito-Não conta pra ninguém.
Verônica: Segredo de estado.
O sinal abre. Arranco devagar.
Verônica: Mas então,-ela inclina a cabeça, meio provocativa-vai manter isso em segredo por quanto tempo?
Eu: Não começa.
Verônica: Eu só tô dizendo...-vejo ela sorrir pelo canto do olho-Às vezes você parece alguém que tem medo de gostar das coisas.
Eu: Ou alguém que já gostou demais.
Ela fica quieta dessa vez.
A minha casa aparece no fim da rua. Estaciono em frente, desligo o carro.
Eu: Chegamos.-anuncio.
Ela solta o cinto, mas não sai imediatamente.
Eu: A propósito,-aproveito- não conta para minha família sobre as aulas de teatro tudo bem?
Verônica: Ãhn, claro...-ela murmura, hesitante- Não contarei para mais ninguém.
Eu travo.
Eu: Espera aí, como assim para mais ninguém?
Verônica: É... digamos que eu tenha deixado escapar para a Leah depois da aula de debate...-ela confessa, abaixando o tom de voz, receosa. Desmorono sobre o volante, cada fibra do meu corpo se recusando a descer do carro.- Ah para, não pode ser tão ruim assim...
Eu: Você realmente não sacou qual é a da minha família, né?
Ela ri, abrindo a porta.
Verônica: Ei, não fala assim deles!-ela fala, em tom de retaliação, me dando um empurrão de leve- Eles só são um pouco... intensos.
Desço do carro atrás dela.
Eu: Intensos. Sim.-resmungo, revirando os olhos.
Enquanto seguimos pra dentro, penso que talvez o problema nunca tenha sido gostar das coisas.
Talvez fosse só admitir.
Verônica Baker point of view
A tarde passa mais rápido do que eu esperava.
Entre folhas rabiscadas, números circulados e explicações que Judd dá do jeito mais torto possível — mas que, estranhamente, funcionam — o sol vai descendo sem pedir permissão.
Eu:Viu?-digo, largando o lápis sobre a mesa-Não é difícil. Só é chato.
Judd: Isso não ajuda.-ele responde, suspirando- Mas... você ajudou.
Ele sorri de canto. Aquele sorriso pequeno, quase preguiçoso, que aparece quando ele percebe que fez algo certo.
Quando guardamos as coisas, o céu já tá alaranjado. Judd pega as chaves, e eu a mochila.
Judd: Vamos, eu te levo.-ele anuncia, como se fosse óbvio.
O caminho até minha casa é tranquilo. As ruas estão mais vazias, o vento mais frio. Andamos lado a lado, nossas mãos esbarrando uma vez que outra.
Eu: Então...-comento, tentando manter o tom casual- O que vou ganhar quando você for bem na prova?
Judd: Provavelmente minha mãe fará uma faixa gigantesca com uma foto sua para colocar na varanda.
Dou risada.
Ficamos alguns segundos falando de números, de como professores complicam coisas simples, de como matemática parece odiar pessoas criativas. Até que aquele assunto começa a rodar dentro de mim outra vez. A imagem de Louis e May me olhando com aquelas caras de quem me cobravam pela investigação.
Eu: Judd... — chamo, mais baixo.
Ele não responde de imediato, mas diminui o passo. Isso já diz muita coisa.
Eu: Sobre hoje...-continuo-a discussão com o Jake.
Ele inspira fundo, como quem decide não fugir dessa vez.
Judd: Temos mesmo que falar sobre isso?-ele questiona, com a voz o mais mansa possível- Não quero brigar com você. De novo.
Eu: Eu também não.-respondo, de imediato- Eu só fiquei pensando no jeito que você falou.
Judd: Eu falei errado.
Eu: Não foi isso que pareceu.
Ele para completamente dessa vez. Eu paro também.
Judd: Verônica...-ele começa, hesitante, sem me olhar-eu não tenho prova nenhuma de nada.
Eu: Prova de quê?
Judd: De que ele vai te machucar.-ele finalmente me encara-Ou de que não vai.
Engulo seco.
Eu: Então por que dizer alguma coisa?
Ele solta uma risada curta, sem humor.
Judd: Porque ficar quieto parecia pior.
Eu: Pior pra quem?
Ele hesita.
Judd: Pra mim.
O silêncio se estica entre nós.
Eu: Você acha que eu sou tão tonta assim?-pergunto, com a voz trêmula.
Judd: Não.-ele responde rápido demais-Eu acho que você é... boa demais.
Eu: Isso não parece um problema.
Judd: É um problema quando as pessoas confundem isso com permissão.
Meu peito aperta.
Eu: Você tá falando como se eu não soubesse me cuidar.
Judd: Não tô.-ele garante, firme, mas gentil- Tô falando como alguém que sabe que, às vezes, saber não impede de se machucar.
Aproveitando que estávamos em frente a minha casa, cravo meus pés no chão, de braços cruzados, tentando me proteger de algo que nem sei definir.
Eu: Então você se preocupa comigo?
Ele desvia o olhar. A resposta vem torta.
Judd: Eu me preocuparia com qualquer pessoa que...-ele faz uma pausa quase dramática-Que importasse.
Olho pra ele, esperando que continue.
Ele não continua.
Mas chega mais perto.
Judd: Eu não quero ser o cara que fica plantando dúvida na sua cabeça...-ele diz, mais baixo- E muito menos o cara que ficou quieto depois.
Eu: Depois do quê?-franzo o cenho e ele dá de ombros.
Judd: Depois que dá errado.
Eu: Obrigada por falar.-agradeço, tentando processar todas suas palavras-Mesmo do seu jeito estranho.
Judd: Meu jeito é o único que eu tenho.
Sorrio.
Eu: Eu vou tomar cuidado.-prometo, tentando manter a firmeza- Não porque você pediu. Mas porque eu confio em você.
Isso faz algo mudar no rosto dele.
Ele se aproxima. Devagar. Como se estivesse testando o chão antes de pisar.
Judd: Eu confio em você também.-ele devolve, prendendo minha franja atrás da minha orelha com delicadeza- É por isso que isso tudo é complicado.
Nossos rostos ficam perto demais. O mundo parece diminuir ao redor.
Meu coração bate alto. O dele também — eu sei porque consigo sentir a sua respiração irregular.
Por um segundo, acho que ele vai me beijar.
Ele inclina a cabeça.
Para.
Encosta a testa na minha. Um toque leve, contido, quase cuidadoso demais.
Judd: Boa noite, Baker.-ele murmura.
Eu: Boa noite, Birch.
Ele se afasta primeiro. Sempre ele.
Entro em casa com a sensação estranha de que algo importante foi dito...
mesmo sem ter sido dito por completo.
E talvez seja assim que o Judd se importa.
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pretty little problem | judd birch
FanfictionNessa fanfic do universo de "Big Mouth", Verônica Baker é a garota mais popular da Escola Bridgeton Middle School, a típica patricinha de currículo exemplar e aparência invejável. E com o início do seu último ano escolar, tudo deveria continuar assi...
