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Verônica Baker point of view

Eu acordo cansada.
Não cansada de dormir — cansada de existir.
Minha cabeça parece ter passado a noite inteira em uma sala de reuniões corporativa, com Connie gritando metas de prazer, Petra projetando gráficos de catástrofe emocional e Sonya chorando sobre destinos românticos predestinados. Em algum momento, devo ter dormido no meio da discussão. Ou desmaiado. Difícil dizer.
Abro os olhos devagar.
O quarto está silencioso. O sol da manhã atravessa a cortina em listras claras no chão. Meu corpo ainda pesado. Minha mente... confusa demais pra organizar qualquer pensamento lógico.
Judd.
O beijo.
O jeito que ele olhou pra mim depois.
E imediatamente, Petra sussurra dentro da minha cabeça:
Perigoso.
Eu suspiro e me sento na cama.
É quando sinto o cheiro.
Café fresco.
Mas não o café automático da cafeteira programada. Café passado na hora. Manual. Controlado. Perfeito.
Do jeito que Harriet só fazia quando...
Meu estômago afunda antes mesmo que eu abra a porta do quarto.
Caminho até a cozinha.
E lá está ela.
Anelise Baker.
Minha mãe.
Sentada à mesa, postura impecável, tablet aberto ao lado da xícara de porcelana. Cabelo preso em um coque elegante demais para as sete da manhã. Blazer creme. Brincos de pérola. A personificação humana de disciplina e sucesso.
Por um segundo, penso que ainda estou sonhando.
Anelise: Bom dia, querida!-ela diz, sem levantar a voz, mas ainda assim ocupando todo o ambiente.
Eu pisco.
Eu: Mãe? Você... não estava em Singapura?
Ela sorri, pequena. Controlada.
Anelise: Estava. Cheguei agora pela manhã.
Meu cérebro tenta acompanhar.
Eu: E... por quê?
Ela toma um gole de café antes de responder, como se escolhesse cada palavra com pinça.
Anelise: Sabe, Verônica, eu e o seu pai conversamos...-ela conta, finalmente largando o tablet sobre a mesa e erguendo o olhar para mim- Você está vivendo um momento muito importante na sua vida. É seu último ano! E antes de Yale, eu quero estar presente. Mais presente. Não só em chamadas de vídeo.
Presente.
A palavra pesa mais do que deveria.
Sento à frente dela, ainda de pijama, cabelo bagunçado, tentando não parecer uma fraude genética.
Eu: Isso é... legal.-murmuro, sem muita certeza se concordava com isso.
Anelise: É necessário.-ela corrige, gentil. Mas firme.-Você trabalhou muito para chegar até aqui. Não é hora de perder foco.
Petra surge sobre a mesa, a aplaudindo em pé. Ao meu lado, Connie faz careta e Sonya murcha como uma flor esquecida.
Minha mãe me observa por um momento, antes de retomar a palavra:
Anelise: E é justamente por isso que precisamos conversar sobre distrações.
Meu maxilar tensiona quase imperceptivelmente.
Eu: Distrações?-repito, franzindo as sobrancelhas.
Anelise: Rapazes. Festas. Dramas emocionais desnecessários.-Ela diz tudo no mesmo tom com que alguém fala sobre impostos.
Eu seguro o olhar dela.
Eu: Eu não sou irresponsável.
Anelise: Eu sei.-ela responde, sincera- Por isso achei estranho quando Harriet comentou que você tem chegado mais tarde em casa ultimamente.
Harriet. Ela me paga.
Minha mãe faz uma pausa e, com dois toques no tablet, gira a tela na minha direção.
A imagem da câmera externa mostra a van pichada de Judd me deixando em casa ontem.
Por um segundo, esqueço como respirar.
Agradeço mentalmente por o ângulo não mostrar a porta. Nem nós dois.
Anelise: Sei que os garotos maus podem ser bastante atraentes na sua idade, minha filha...-ela diz, em tom maternal, quase amável- Mas não se iluda, esse garoto provavelmente vai trabalhar no McDonald's até os 40 anos.
Um nó se forma em minha garganta. É impressionante como as piores palavras da minha mãe eram sempre as próximas.
Eu: Mãe, eu não sou irresponsável.-me forço e me limito a repetir.
Anelise: Eu sei. É por isso que confio em você. Mas confiança não elimina risco. E você não chegou até aqui para se perder no último trecho.
Eu engulo em seco.
De repente, a lembrança do beijo parece pertencer a outra pessoa. Outra realidade. Um erro de continuidade no roteiro da minha vida.
Eu: Eu entendo. E você tem razão.-digo, porque é o que ela espera ouvir.
Ela sorri. Orgulhosa e satisfeita.
Anelise: Ótimo. Então vamos fazer desse ano o melhor possível.
Ela se levanta, beija minha testa, cheira a perfume caro e aeroportos internacionais, e sai da cozinha como se tivesse acabado de assinar um contrato.
E, assim, fico sozinha à mesa. Como sempre.
Petra bate palmas devagar.
Petra: Sua mãe é extraordinária. Objetiva. Estratégica.
Sonya cruza os braços, indignada.
Sonya: Ela chamou o Judd de distração sem nem conhecê-lo!
Petra: E precisa?-ela rebate-Moleque de cabelo azul e carro caindo aos pedaços. Estatística clara.
Connie se senta ao meu lado e me envolve em um abraço quente.
Connie: Ei, minha menina... você tá bem?
Dessa vez, porém, eu não desmorono. Respiro fundo e me levanto.
Eu: Não, Connie. Eu estou ótima.
Ela me encara, surpresa.
Connie: C-como assim?
Eu: Minha mãe está errada.-declaro, endireitando os ombros.
Sonya abre um sorriso luminoso.
Eu: Eu gosto do Judd!-admito-E mal posso esperar para vê-lo de novo. E isso não é um problema.
Connie: ISSO!-ela vibra.
Petra: Isso é uma variável de alto risco...-observou, franzindo a testa.
Eu: Eu ainda sou Verônica Baker.-a corto, firme-Nada vai me impedir de ir pra Yale. Nem sentimentos. Nem beijos. Nem garotos.
O silêncio interno finalmente se acomoda.
Eu deixo a xícara na pia, caminho até meu quarto e abro o armário.
Roupa impecável. Saia alinhada. Camisa branca. Laço azul.
A armadura perfeita.
Enquanto me visto, minha mente insiste em trazer de volta:
O olhar de Judd.
O calor do beijo.
A promessa no intervalo.
Eu prendo o cabelo, passo um leve brilho labial e encaro meu reflexo.
Pronta. Controlada. Inabalável.

Judd Birch point of view

Eu quase não dormi.
Não porque foi ruim.
Justamente pelo contrário.
Quando entro na escola na manhã seguinte, o corredor parece mais barulhento que o normal. Ou talvez eu só esteja prestando atenção demais em tudo. Em cada rosto. Cada passo. Cada porta abrindo.
E então eu vejo ela.
Verônica Baker, parada perto dos armários, ajeitando livros como se isso fosse uma tarefa que exigisse concentração absoluta. Cabelo ainda levemente úmido. Olheiras quase invisíveis. A mesma boca que esteve na minha horas atrás.
Walter: Ela está tão linda!-meu besouro do amor exclama, tirando as palavras da minha boca ao surgir do meu lado- Vai falar com ela, garoto!
Me aproximo sem pensar.
Walter: E não esquece o presente!-ele grita atrás de mim, me lembrando do pacote dentro da minha mochila.
Ontem a noite, assim que me despedi de Verônica, corri contra o tempo para chegar ao sebo do Roger antes que fechasse.
Eu: Espera, Roger!
Roger: Judd?-ele pergunta, visivelmente perplexo ao me ver tão tarde e sóbrio- Estava quase fechando. O que você precisa?
Eu: Aquele... aquele Romeu e Julieta...-digo, tentando recuperar o fôlego- edição especial de capa dura, você ainda tem?
Roger arqueia uma sobrancelha, e um sorriso lento se espalha no canto da boca.
Roger: Ah... aquele que sua amiga olhou naquele dia?-ele pergunta, enquanto destranca a porta da cafeteria outra vez-Tenho sim. Separei... caso um de vocês voltasse buscar.
Um de vocês.
Ele não diz qual de nós. Mas diz com aquele meio sorriso de velho fofoqueiro profissional.
Roger retorna com o livro nas mãos. Capa dura. Vermelho escuro. Letras douradas. Ridiculamente dramático. Perfeito.
Ele coloca o volume no balcão com cuidado.
Roger: Bom gosto.-comenta-E boa sorte também. Shakespeare nunca vem sem confusão.
Eu solto uma risada curta pelo nariz.
Eu: Valeu, Roger.
Pago rápido. Enfio o livro na mochila. Saio do sebo antes que ele resolva me dar conselhos amorosos baseados em tragédias do século XVI.
A rua está vazia. Fria. O vento corta minhas mãos, mas eu não ligo. Minha cabeça está em outro lugar.
Verônica segurando o livro no meio daqueles corredores estreitos.
O jeito que os olhos dela brilharam por meio segundo.
Rápido demais pra ela perceber.
Mas não pra mim.
Até porque brilharam do mesmo jeito depois do nosso beijo.
E assim, nem pensei muito. Foi uma decisão que veio da mesma forma que o beijo: impulsivo, sem cálculo, sem plano. Se Shakespeare dizia que grandes amores nascem em noites apressadas, então aquele livro parecia a única coisa no mundo capaz de guardar o que aconteceu entre nós. Um jeito silencioso de dizer que eu levei a sério. Mesmo que eu ainda não soubesse exatamente o quê.
E então o corredor da escola volta a existir ao meu redor. O barulho, as vozes, os armários batendo. O presente me puxa de volta como se o flash de memória nunca tivesse acontecido.
Ela ergue o olhar.
E por um segundo inteiro... nenhum de nós sabe o que fazer.
Não tem música.
Não tem luz dramática.
Só nós dois, parados no meio de um corredor cheio de gente que não faz ideia do que aconteceu na noite anterior.
Eu: Oi.- digo.
Verônica: Oi.-ela responde, com um sorriso tímido que fazia meu coração disparar.
Silêncio.
Ela ajeita a alça da mochila no ombro. Eu enfio as mãos nos bolsos. Parecemos duas pessoas que ensaiaram demais uma cena e esqueceram o texto na hora.
Eu abro a boca pra dizer qualquer coisa — bom dia, dormiu bem, aquilo foi real — mas não dá tempo.
***: Birch!-Cass surge do nada, com o sketchbook grudado ao peito- A Wheeler pediu pra gente organizar os materiais antes da aula. Vem?
Eu olho pra Cass.
Depois pra Verônica.
Eu: Já vou.-respondo.
Verônica parece respirar só então.
Mas antes que qualquer coisa se reorganize entre nós...
***: Vero!-Jake aparece do outro lado do corredor, energético demais pra alguém que claramente não dormiu pensando em ninguém- Está rolando uma briga no ginásio, Maybel e as garotas da torcida precisam de você!
Ela olha pra ele.
Depois pra mim.
E naquele instante eu entendo, de um jeito estranho e silencioso, que nada está resolvido. Que nada vai ser simples. Que aquele beijo não foi exatamente o fim de um conto de fadas, mas sim o começo de alguma coisa que ainda não sabemos nomear.
Verônica dá um passo em direção a Jake.
Eu dou um passo em direção a Cass.
Mas antes que o corredor nos engula por completo, eu paro.
Eu: Ei, Baker.
Ela se vira de imediato, com aqueles os olhos brilhantes.Jake já impaciente ao lado dela. Cass me observa em silêncio.
Eu: No intervalo.-digo, simples. Direto.-A gente... pode conversar?
Verônica hesita só por um segundo.
Depois assente, sorrindo.
Verônica: No intervalo.
Nada mais é dito.
Nada precisa ser.
Nos afastamos em direções opostas.
Mas, dessa vez, não parece fuga.
Parece promessa.

pretty little problem | judd birchOnde histórias criam vida. Descubra agora