XVIII

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Verônica Baker point of view

Judd: Ela gostou! Tô te falando!
Eu: Judd, ela odiou.
Judd: Mas ela disse que você conseguiu capturar a minha essência!
Eu: De maneira esquisita e excêntrica.
Judd: Eu sou esquisito e excêntrico!-ele argumenta, me fazendo finalmente rir- Viu só? Te deixei sem argumentos. Sabe, acho que vou entrar para o clube de debates, levo jeito pra coisa.
Eu: Não! Por favor!-exclamo, dramática- O mundo já está quase em colapso comigo fazendo artes, não vamos piorar as coisas.
Judd: Como você é exagerada, Baker.-ele resmunga, revirando os olhos, mas divertido.
A aula de artes passou papudo depois da humilhação que Senhorita Wheeler me submeteu ao analisar minha primeira tentativa de transformar Judd em um desenho. Admito que ela estava certa, para aquele troço estar ruim teria que melhorar muito, até mesmo minha obsessão cega por estar sempre certa reconhecia isso. Então, diante da sua insistência para eu pensar menos e agir mais, por mais que isso me parecesse ridículo e sem noção, decidi dançar conforme a música e seguir sua sugestão em tentar algo abstrato. Afinal, não teria como ela julgar algo abstrato, pensei eu.
Mas eu estava, mais uma vez, completamente errada.
Como se não bastasse minhas habilidades artísticas limitadas, analisar Judd também não foi uma tarefa fácil. Ainda mais com ele me olhando o tempo inteiro, estudando cada traço e movimento que eu fazia. Sabia que ele estava apenas cumprindo uma tarefa, mas seu olhar constante sobre mim era uma desconcertante. Mas seus movimentos firmes no papel me inspiraram a pintar: pinceladas bagunçadas e desconexas com cores escuras, e detalhes em azul como seu cabelo para representar os poucos momentos que ele se permitia ser visto de fato, como ali, bem na minha frente.
E de certa forma, fazia sentido para mim.
Eu: Isso não é justo, ela nem julgou o seu!
Judd: Eu te disse que ainda não terminei.-ele retruca, me fazendo revirar os olhos, detestava esse mistério todo que ele estava criando sobre o seu trabalho, mas mais uma vez ele ignora meus protestos, retomando a palavra- Quer saber? Dane-se o que a Senhorita Wheeler acha, eu gostei.
Eu: Não precisa me consolar, Judd.
Judd: E quem está tentando te consolar? Me dá isso aqui.-ele diz, tomando a tela de minhas mãos- Posso ficar? Meu quarto precisa de um quadro mesmo.
O sorriso foi inevitável.
Eu: Claro que pode.
Judd: Isso, gosto de te ver assim.-ele murmura, quase sorrindo também, segurando a tela em frente ao corpo- Fala sério, ficou a minha cara.

Eu: Tá, você já está forçando a barra

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Eu: Tá, você já está forçando a barra.-digo, divertida. Rimos em uníssono, até o som de passos apressados no corredor atrair nossos olhares.
Era Cass. Ela surge no corredor como se já estivesse ali o tempo todo. Não olha para mim. Nem por acidente. O foco dela vai direto para Judd: natural, automático. Como se fosse o lugar certo.
Cass: Então esse é o tal quadro?-ela pergunta, inclinando a cabeça para o lado.
Judd ergue a tela, animado.
Judd: É! A Verô...
Cass: Hm.-ela interrompe, observando por dois segundos, no máximo- Bem... abstrato.
Não é elogio. Também não é crítica. É pior. É desinteresse.
Cass dá de ombros e já muda de assunto, ainda falando com ele.
Cass: A gente vai passar na lanchonete com o pessoal.-diz, casual- Você vem?
Ela não me olha. Não pergunta para nós. Não inclui ninguém além dele. É claro demais para ser um erro.
Judd hesita. Sinto o silêncio pesar, como se algo estivesse sendo decidido ali.
Judd: Acho que não.-ele responde, por fim- Vou direto pra casa hoje.
Cass arqueia uma sobrancelha, surpresa leve, quase debochada.
Cass: Sério?
Judd: É.
Ela sorri, tranquila demais para alguém que acabou de ouvir um não.
Cass: Que pena.-diz, ainda para ele- Bom, se mudar de ideia, sabe onde encontrar a gente.
Só então ela se afasta, sem um último olhar, sem despedida, como se eu nunca tivesse estado ali.
O corredor parece maior depois que ela vai embora.
Eu: Tá né.
Judd me encara, confuso.
Judd: O quê?
Eu: Nada.-respondo rápido demais.
Voltamos a andar. Ele ajusta a tela contra o corpo.
Judd: Você vai a pé?
Eu: Ia.
Ele para de andar.
Judd: Posso te dar carona.
Olho para ele, surpresa.
Eu: Não precisa.
Judd: Eu sei.-ele diz, simples- Mas eu quero.
Há algo firme ali. Decidido. Não é reação. É escolha.
Eu: Tá.-cedo.
Ele sorri de lado, curto.
Judd: Melhor assim. Não confio em deixar essa obra-prima sozinha comigo por muito tempo.
Eu bufo uma risada.
Enquanto seguimos para o estacionamento, entendo finalmente:
Cass não precisou me atacar.
Ela só precisou agir como se eu não importasse.
E, de algum jeito, isso doeu mais.
O trajeto começa em silêncio. Judd dirige com uma mão no volante, a outra segurando a tela apoiada no banco de trás, como se fosse algo importante demais para largar.
O rádio está ligado, mas baixo demais para preencher qualquer coisa.
Judd: A Cass foi meio... estranha agora.-ele comenta, como quem só pensa alto.
Olho pela janela.
Eu: Estranha como?
Ele demora a responder.
Judd: Sei lá.-dá de ombros- Estranha. Ela não sempre é assim.
Estranha. Engulo o comentário que sobe.
Eu: Nem reparei.
Judd franze a testa, finalmente me olhando rápido demais para quem diz não ter pensado no assunto.
Judd: Sério?
O carro para no sinal. O silêncio cresce.
Eu: É. Da mesma forma que ela nem reparou no quadro.
Ele abre a boca, fecha. Só agora parece conectar os pontos. Isso não era sobre o quadro.
Judd: Ah.
Só isso. Ah.
O sinal abre. Ele continua dirigindo, mais devagar agora.
Judd: Eu achei que ela estava só sendo... ela.
Eu: Eu sei.
E eu realmente sei. É isso que incomoda.
Mais alguns metros.
Judd: Ela chamou só eu, né?
Não respondo. Não preciso.
Judd solta o ar, frustrado consigo mesmo.
Judd: Droga.
Ele passa a mão pelo cabelo, incomodado.
Judd: Eu não percebi na hora.
Eu: Percebeu agora.
Ele assente.
Judd: Não foi legal.
A frase é simples demais para tudo que carrega.
Eu: Não.-concordo- Não foi.
O carro desacelera perto da minha rua.
Judd: Eu não quis te deixar de fora.
Eu: Eu sei.-repito, mas dessa vez soa diferente.
Ele estaciona. O motor ainda ligado.
Judd: Eu devia ter falado alguma coisa.
Eu: Talvez.-dou de ombros- Ou talvez não.
Ele me encara, sério de um jeito que não usa muito.
Judd: Eu escolhi não ir.
Essa parte ecoa.
Eu: Eu notei.-dou de ombros- Já passou tempo o suficiente com ela hoje, não é?
Ele franze a testa.
Judd: Como assim?
Eu: A cafeteria.-digo, ainda olhando para frente- Você e a Cass chegaram cedo.
O silêncio que vem não é defensivo. É cuidadoso.
Judd: Você viu.-ele murmura, desligando o carro.
Eu: Vi.
Ele passa a mão pelo volante, pensativo.
Judd: Não foi nada demais.-ele garante, mas ainda sem me olhar.
Eu: Se você diz.-resmungo, mas agora minha voz não soa tão segura- Eu também estava lá. Com o Jake.
Isso faz Judd virar o rosto para mim de vez.
Judd: Eu vi vocês.
Eu: Então estamos quites.
Ele solta uma risada curta, sem humor.
Judd: Engraçado como não parece.
Eu: Pra mim também não.-concordo, cruzando os braços.
Judd respira fundo.
Judd: Com a Cass é... fácil.-ele diz, escolhendo as palavras- Ela fala, ri, faz tudo parecer leve.
Meu peito aperta, mas mantenho o tom neutro.
Eu: O Jake também é assim. Seguro. Previsível.
Judd: E isso é bom?
A pergunta sai antes que ele consiga se segurar.
Eu: É confortável.
Judd assente devagar.
Judd: Confortável é diferente de...-ele para, frustrado- sei lá.
Eu: Diferente de quê?
Ele me encara, finalmente sincero.
Judd: De você.
A palavra fica suspensa entre nós.
Eu: Eu não sou confortável.
Judd: Não.-concorda- E isso é o problema.
Eu: Ou a parte boa.
Ele sorri de lado, confuso.
Judd: Eu não devia pensar nisso.
Eu: Nem eu.
Mas pensamos.
O silêncio agora é denso, carregado de coisas que nenhum de nós nomeia.
Judd: Às vezes eu sinto que tô sempre atrasado.-ele murmura- Quando percebo, já fiz besteira.
Eu: Pelo menos você percebeu.-reconheço, descruzando os braços e baixando a guarda.
Judd: Tarde demais?
Eu olho para ele. Estamos perto. Perto demais.
Eu: Não sei.
Ele se inclina um pouco, quase imperceptível. Não é uma decisão. É um impulso.
Judd: Verônica...
Meu nome soa baixo, diferente.
Eu sinto a respiração dele, quente, próxima. Meu coração acelera. Não me afasto. Também não avanço.
Por um segundo, o mundo cabe naquele espaço mínimo entre nós.
Então eu respiro fundo.
Eu: Judd... a gente não devia.
Ele fecha os olhos por um instante, como se concordasse contra a própria vontade.
Judd: Eu sei.
Ainda assim, ele não se afasta de imediato.
Ficamos ali, presos nesse quase, até que eu finalmente me movo, abrindo a porta.
O ar frio da noite entra como um choque.
Eu: Boa noite.-disparo, antes que fizesse algo que pudesse me arrepender.
Judd: Boa noite.-ele rebate, desviando o olhar.
Saio do carro com as pernas estranhamente leves e pesadas ao mesmo tempo.
Entro em casa rápido demais, como se fugir fosse uma opção. Fecho a porta atrás de mim com mais força do que pretendia e fico ali, encostada nela, sem acender a luz.
Meu coração ainda está acelerado.
Minhas mãos tremem levemente.
Fecho os olhos.
O quase beijo se repete na minha cabeça em looping: a respiração dele, meu nome dito baixo demais, o espaço mínimo entre nós. Aperto os lábios, frustrada comigo mesma.
Isso é idiota.
Confuso.
Complicado.
Passo a mão pelo rosto, tentando organizar pensamentos que não querem ser organizados. Cass. Jake. Judd. A aula. O carro. Tudo misturado em um nó que aperta mais quanto mais eu tento desfazer.
Eu: Droga...-murmuro para o vazio.
Empurro o corpo para longe da porta, dou dois passos pelo corredor... e paro.
O silêncio da casa não ajuda. Só amplifica.
E então percebo: não é confusão o que pulsa no peito agora.
É vontade.
Viro de repente, a decisão vindo antes da lógica. Seguro a maçaneta com força, como se tivesse medo de desistir se demorasse mais um segundo.
Abro a porta e...
Dou de cara com Judd.
Ele está ali, a mão erguida, a poucos centímetros de bater. Congelado no meio do movimento, como se o universo tivesse nos sincronizado de propósito.
Por um segundo, nenhum de nós fala.
Ele pisca primeiro.
Judd: Eu...-ele começa, mas para.
Eu engulo em seco.
Eu: Eu ia...
Rimos ao mesmo tempo. Um riso curto, nervoso, incrédulo.
Judd: Eu senti que...-ele passa a mão pelo cabelo, frustrado-isso não tinha acabado.
Meu coração dispara.
Eu: Não acabou.
O silêncio que se instala agora é diferente de todos os outros. Não é desconfortável. Não é confuso.
É inevitável.
Judd dá um passo à frente.
E dessa vez, eu não recuo.

pretty little problem | judd birchOnde histórias criam vida. Descubra agora