XV

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Verônica Baker point of view

A escola parece mais barulhenta do que o normal naquela manhã.
Ou talvez seja só eu que estivesse mais sensível pelo cansaço.
Caminho pelo corredor principal ajustando a mochila no ombro, repetindo mentalmente que foi só uma noite comum: Estudo. Conversa. Um quase-beijo que não aconteceu.
Nada demais.
Só o suficiente para não me deixar dormir direito a noite.
Viro a esquina perto dos armários — e vejo.
Judd está encostado na parede, mochila largada aos pés, falando alguma coisa baixa demais pra eu ouvir. Acompanhado de Maybel está na frente dele, gesticulando como sempre, rindo de algo que ele respondeu com sarcasmo.
Meu passo desacelera sem que eu perceba.
***: Vero!
A voz me pega de surpresa.
Viro o rosto e dou de cara com Jake, cabelo ainda úmido, mochila jogada de qualquer jeito nas costas, aquele sorriso confiante que sempre aparece quando ele acha que tá no controle da situação.
Jake: Bom dia!-ele diz, se aproximando.
Eu: Bom dia.-respondo, quase automática.
Jake: Tava te procurando...-continua-A gente ficou meio... estranho ontem.
Olho por cima do ombro, quase sem querer.
Judd ainda não me viu. Maybel fala animada, tocando o braço dele como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Jake acompanha meu olhar.
Jake: Você tá ocupada agora?
Eu: Eu ia...-enrolo, pensando no que dizer- no meu armário.
Jake: Posso te acompanhar?
Eu: Uhum.-murmuro, fazendo um sinal para que ele me acompanhasse, estrategicamente a alguns passos de Judd e May.
Jake: Então, eu estive pensando...-ele hesita, menos expansivo, mais cuidadoso-que a gente podia sair hoje. Tipo... de verdade. Nada de treino, nada de pressa. Só a gente.
Fico em silêncio por um segundo.
Jake: Se você não quiser, tudo bem.-ele se antecipa, antes que eu dissesse qualquer coisa-Eu só não quero fingir que não sinto nada.
Isso me desmonta um pouco.
Respiro fundo.
Eu: Tá.-digo, me dando por convencida-A gente pode sair.
O sorriso dele volta, mas dessa vez é menor. Mais sincero.
Jake: Sério?
Eu: Sério.-confirmo, soltando um riso nasalado- Só não posso demorar muito, hoje começam minhas aulas de arte.
Jake: Sem problemas, te trago de volta pontualmente.-ele responde, erguendo a mão em juramento-Café depois da aula?
Eu: Café depois da aula.
Ele se inclina e deixa um beijo rápido na minha bochecha.
Jake: Te espero no estacionamento, tudo bem?-apenas concordo com a cabeça e Jake se afasta, satisfeito, enquanto eu fico ali, tentando reorganizar a cabeça.
***: Então...
A voz do Judd vem baixa atrás de mim.
Viro.
Ele me observa com atenção demais pra fingir desinteresse. Maybel está ao lado, agora completamente alerta.
Eu: Oi.-digo.
Judd: Você...-ele hesita-Tá tudo bem?
Assinto.
Eu: Tá.
Judd: Bom.-ele responde, mas não parece convencido.
Maybel olha de um pra outro, sorrindo como quem assiste a um episódio bom demais.
May: Uau...-ela murmura-Que clima.
Eu: May!-repreendo.
May: O quê?-ela ri- Só tô observando.
Judd cruza os braços, desconfortável, e Maybel dá dois passos para o lado, o sorriso travesso denunciando que ela percebeu tudo.
May: Vou deixar vocês...-ela canta, apontando para o próprio armário, o abrindo e se escondendo atrás da porta como se tivesse algo muito interessante ali dentro.
O sinal toca, cortando o momento antes que qualquer um de nós diga algo que não pode desdizer. Fico ali, de frente pro Judd, o corredor enchendo rápido demais de gente.
Judd: Você vai sair com ele.-ele diz, sem acusação. Só constatação.
Eu: Vou.-respondo, com menos firmeza do que eu gostaria-Sim.
Ele assente devagar.
Judd: Tá.
Silêncio.
Ele se aproxima um pouco, sem tocar. O suficiente pra eu sentir o cheiro familiar de sabonete barato e fumaça antiga.
Judd: Eu não vou te dizer o que fazer.-ele sussurra, com a voz rouca que me faz, no fundo, querer que ele me diga exatamente o que fazer-Nem agora, nem nunca.
Eu: Eu sei.-murmuro, vacilando e fechando os olhos, como se assim pudesse disfarçar o que sua proximidade me causava.
Judd: Só...-ele hesita, escolhendo cada palavra como se fosse vidro-Presta atenção no que você sente. Não no que parece certo pros outros.
Meu peito aperta.
Eu: Eu vou tentar.
Ele ergue a mão, para no meio do caminho... e abaixa de novo.
Em vez disso, encosta a testa na minha.
De leve.
Cuidadoso.
Familiar demais pra ser casual.
Meu coração dispara do mesmo jeito que na noite anterior.
Judd: Boa aula, Baker.-ele diz, a voz baixa, quase um segredo.
Eu: Boa aula, Birch.
Ele se afasta primeiro. De novo.
O corredor volta a existir. O barulho, os passos, as vozes.
Fico parada por um segundo, a mão fechando na alça da mochila, tentando entender por que aquele gesto simples pesa mais do que um convite aceito. E é a batida do armário de Maybel que me traz de volta a realidade.
May: Caramba...-ela fala, com os olhos arregalados- Que tensão, ein?
Connie: Nem me fala!-minha monstra hormonal exclama, surgindo por de trás da minha amiga, as duas claramente espionando o tempo todo pelo escaninho do armário- Por um segundo achei que vocês iriam se pegar aqui mesmo no corredor!
Reviro os olhos, ignorando ambas, já me direcionando a sala de aula.
May: Ei!-ela reclama, apressando o passo para me acompanhar- Por que você aceitou o convite do Jake?
Eu: Porque ele é gato?-respondo, como se fosse óbvio- E, como você mesma me disse,  mais fácil descobrir por ele do que pelo Judd o que está rolando.
May: E isso realmente importa?
Travo meus pés no chão, a encarando como se estivesse louca.
Eu: Como assim?
May: Ah, Vero...-ela começa, como quem pensasse na melhor maneira de dizer o que para ela devia ser nítido- Você e o Judd claramente tem um... lance. Que diferença faz essa rivalidade idiota dele e do Jake?
Eu: Lance?-repito, voltando a caminhar, passos mais firmes dessa vez- Não tem lance nenhum, Maybel.
May: Você só está mentindo para si mesma.
Eu: Ou você vendo coisas que não existem.-retruco imediatamente, mas sem um pingo de confiança- Você esqueceu de quem estamos falando? É o Judd Birch. O cara que fuma maconha embaixo da arquibancada e dorme nas aulas.
May: Certo, esse é o Judd, mas...-ela faz uma pausa, assim que entramos na sala, apontando com a cabeça para o fundão, onde Judd estava sentado, como de costume, mas dessa vez abrindo o caderno, se preparando de fato para a aula- Mas as coisas podem mudar, não?
Reflito por alguns instantes, até que a tal Cass surge na cena, sentando sobre a mesa de Judd, que a recebe com um sorriso quase malicioso, voltando a ignorar os cadernos e tudo mais ao redor.
Eu: Eu acho que não.-dito isso, me sento em meu lugar de sempre, sorrindo para Jake e Louis que debatiam alguma coisa do livro de matemática.
Jake: Ei, Vero, me ajuda na questão 8?
Eu: Claro, o que foi?-ainda que me envolvendo na questão, não pude deixar de observar o olhar de Maybel sobre mim e, em seguida Judd, que devolvia o olhar para ela, como quem compartilhassem algum segredo.
Tento me concentrar na questão 8, mas os números parecem embaralhar na página.
Eu: Aqui.-digo pra Jake, apontando o cálculo- Você esqueceu de inverter a fração.
Jake: Ah.-ele ri, encabulado- Sabia que tinha algo errado.
Antes que eu pudesse responder, o professor entra em sala e começa a falar, a sala se aquieta aos poucos, e eu finalmente abaixo o olhar pro caderno, decidida a pelo menos fingir normalidade.
Mas uma última vez, não resisto em olhar para trás. Judd olha na minha direção.
Não é um olhar longo. Não é intenso.
É só... rápido. Como se estivesse checando se eu ainda estava ali.
Dessa vez, eu quem desvio o olhar primeiro.
E odeio o quanto isso pesa.

Judd Birch point of view

O cheiro vem antes do barulho.
Maconha barata, risadas abafadas e o eco oco da arquibancada de metal rangendo acima da gente. O intervalo sempre foi assim. Meu horário oficial de não pensar em nada.
Hardin: Você puxou demais.-ele reclama, tossindo.
Travis: Mentira.-rebate- Ele que não sabe tragar.
Reviro os olhos, puxo de novo e solto a fumaça devagar, olhando pro campo como se tivesse alguma coisa interessante acontecendo ali.
Spoiler: não tem. Só os mesmos idiotas jogando uma partida de futebol.
Hardin: E aí, teatro boy,-ele provoca, irritante- vai ensaiar Shakespeare hoje?
Eu: Vai se foder.-respondo, automático.
Eles riem. Eu também. Um pouco.
É aí que eu vejo a Cass.
Ela está sentada nas arquibancadas do outro lado, afastada da muvuca, caderno apoiado no joelho, lápis se movendo rápido. Desenhando. Sempre desenhando.
Não sei por que reparo. Só reparo.
Eu: Já volto.-digo, me levantando.
Travis: Ei!-ele chama-Leva isso aí.
Ele me passa o baseado. Aceito.
Subo dois degraus, atravesso por baixo da arquibancada e me aproximo dela.
Eu: Ei.-digo, estendendo a mão.
Cass ergue o olhar, surpresa.
Cass: Ah... oi.
Ela olha pro baseado, depois pra mim. Hesita.
Cass: Eu não sei se isso é um convite ou só... confusão.-ela diz, meio seca.
Engulo em seco.
Eu: É...-coço a nuca- Foi mal por isso. Pela confusão.
Ela fecha o caderno devagar. E segura o baseado, dando um trago.
Eu: Achei que tínhamos feito as pazes.-digo, me sentando ao seu lado- Quando você me perguntou hoje na sala se eu continuaria na aula de artes.
Cass: A senhorita Wheeler pediu para eu te perguntar, já que você não apareceu em nenhuma aula ainda.-ela explica, dando de ombros.
Senhorita Wheeler é a professora de artes, e a única professora que eu genuinamente gosto. Cass e eu fazemos sua disciplina juntos todos os anos, até arrisco em dizer que somos seus favoritos também. Cada um do seu jeito. Cass era a típica garota das artes, que carregava o caderno de desenhos por todos os lados caso tivesse uma inspiração. Enquanto para mim, a arte era como um segredo, assim como a música, eu a guardava para momentos especiais que eu precisava desabafar, mas não sabia como.
Eu: Eu estive ocupado.-explico, simplesmente.
Silêncio.
Cass: Sabe Judd, não sei qual é a sua.-ela retoma a palavra-Você some, aparece, age como se nada tivesse acontecido...e eu cansei. Não curto joguinhos.
Eu: Não é joguinho.-respondo rápido demais-Eu só... não sou bom explicando as coisas.
Ela me encara, avaliando.
Cass: E você tá interessado ou só entediado?
Dessa vez, não respondo de imediato.
Antes disso, meus olhos desviam.
Do outro lado do campo, o time de lacrosse está treinando. Jake corre, levanta o braço, comemora um ponto idiota como se fosse a final do campeonato.
E lá está ela.
Verônica, encostada na grade, batendo palmas, sorrindo daquele jeito contido que ela tem quando tenta não se entregar demais.
Meu peito aperta.
Cass: Judd?
Volto pra Cass.
Eu: Desculpa.-murmuro-Me perdi.
Ela segue meu olhar, entende rápido demais.
Cass: Ah...-ela deixa escapar, com um sorrisinho curto-Entendi.
Eu: Não.-falo, mesmo sem saber exatamente o que estou negando-Não é isso.
Novamente, silêncio.
Eu: Quer...-começo, sem pensar muito-quer sair comigo antes da aula de artes?
Ela pisca, desconfiada.
Cass: O quê?
Eu: Um café.-completo-Nada demais.
Cass arqueia a sobrancelha.
Cass: Isso é você sendo direto?
Eu: É o máximo que eu consigo.-respondo, erguendo as mãos em rendição.
Ela me observa por mais um segundo, depois solta uma risada baixa.
Cass: Tá.-diz- Café.
Assinto, aliviado demais pra disfarçar.
Eu: Legal.
Nos levantamos juntos. Cass guarda o caderno na mochila.
Enquanto caminhamos em direções opostas, olho mais uma vez pro campo.
Jake está rindo.
Verônica também.
Engulo o gosto amargo que não tem nada a ver com a fumaça.
Talvez o café seja só um café.
Ou talvez seja só a única maneira que encontrei de ficar perto o suficiente pra entender o que está acontecendo — mesmo que isso signifique olhar de longe.

pretty little problem | judd birchOnde histórias criam vida. Descubra agora