XVII

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Judd Birch point of view

Cass: Você sabia que ela iria fazer essa aula?-a ouço sussurrar ao meu lado.
Eu: Não fazia ideia.-respondo, honestamente, encarando Verônica se arrastar pela sala até o meu lado. Sua expressão totalmente indecifrável, de quem ainda parecia processar estar -pela primeira vez- não sendo colocada em um pedestal. Nem pelos colegas, nem pelos professores.
Normalmente, isso me arrancaria um sorriso satisfeito. Ainda mais ali, onde eu era um dos nomes conhecidos, onde a professora falava comigo como se eu fosse uma extensão natural da sala. Mas tudo o que sinto é uma vontade estranha de puxá-la para perto e dizer que artes nem é grande coisa — mesmo sabendo que é exatamente o contrário. É a única coisa na escola que me faz ficar.
Verônica se senta ao meu lado com cuidado demais, como se o gesto pudesse chamar atenção. Apoia a mochila no chão, alisa a saia inexistente sobre o jeans, ajeita o cabelo atrás da orelha três vezes seguidas. Ansiedade pura, disfarçada de postura.
Para quebrar o gelo, empurro um lápis em sua direção, eu já tinha observado seu estojo antes, e sabia que entre os marcadores coloridos e post-its dela não havia um lápis específico para desenho.
Verônica: Oi.-ela diz baixo, sem olhar de imediato.
Eu: Oi.
A senhorita Wheeler começa a falar sobre materiais, processos, expressão. Palavras grandes, soltas no ar. Verônica encara a tela em branco em sua frente como se fosse uma prova surpresa. Coluna ereta. Lápis alinhado. Pronta para tirar dez em algo que não tem resposta certa.
A professora circula pela sala, comenta sobre trabalhos antigos, para ao lado de Cass, elogia o traço firme, a paciência. Cass agradece com um sorriso pequeno, orgulhoso. Eu sei o quanto isso importa pra ela.
Eu: Relaxa, Baker.-murmuro, quase sem perceber-Aqui ninguém reprova por errar.
Verônica vira o rosto devagar. Me encara como se eu tivesse falado outra língua.
Verônica: Tem certeza?-pergunta, em voz baixa- A professora parece disposta a me reprovar só por estar aqui.
Dou de ombros.
Eu: A senhora Wheeler não é nenhuma carrasca. No fundo, ela só odeia gente que faz tudo certinho.
Ela solta uma risada curta, nervosa demais pra ser real.
Verônica: Ótimo.-resmunga- Então eu tô ferrada.
A professora bate palmas, chamando atenção.
Senhorita Wheeler: Quero que vocês comecem com algo simples. Observação. Desenhem o que veem quando olham para alguém à frente de vocês. Não o que sabem sobre essa pessoa. O que veem.
Alguns gemidos. Outros risos. Eu já esperava por isso.
Cass me cutuca de leve com o cotovelo, divertida.
Cass: Boa sorte, Birch.
Ela se vira para desenhar alguém atrás de nós. Eu fico parado por um segundo, lápis suspenso, até perceber — tarde demais — que Verônica ainda me encara.
Verônica: Você vai...?-ela começa, hesitando.
Eu: Se você não se importar.-respondo.
Ela engole em seco, depois assente.
Verônica: Tá.
Viro o papel. Respiro fundo. Tento não pensar demais. Tento não desenhar o que sei dela: líder de torcida, aluna exemplar, garota que todos olham. Tento desenhar o que vejo agora.
Os olhos atentos demais.
A boca sempre pronta pra dizer algo inteligente, mesmo quando não sabe o que dizer.
As mãos firmes... tremendo só um pouco.
Do outro lado, sinto o peso do olhar dela em mim. Não curioso. Avaliando. Como se estivesse tentando entender quem eu sou quando não estou fazendo pose.
É estranho. Intenso. Silencioso.
O som dos lápis riscando o papel toma a sala. Um barulho baixo, contínuo, quase confortável. Eu entro no automático — linhas soltas, sombras onde fazem sentido, nenhuma preocupação em deixar bonito. Só honesto.
A senhorita Wheeler passa por trás das mesas, parando aqui e ali, comentando em voz baixa. Quando chega perto da minha, sinto antes de ouvir.
Senhorita Wheeler: Hm...-ela murmura, inclinando a cabeça.
Levanto o olhar, esperando qualquer coisa entre um comentário técnico ou um elogio contido. Ela observa meu rascunho por alguns segundos a mais do que o necessário.
Senhorita Wheeler: Você continua enxergando além da superfície, Judd.-diz, finalmente- Não perde tempo tentando impressionar. Isso é raro.
Dou de ombros, mas sinto o calor subir pelo pescoço.
Eu: Obrigado.
Senhorita Wheeler: Continue assim.-ela completa, antes de seguir adiante.
Cass me lança um sorriso orgulhoso do outro lado. Eu quase sorrio de volta... mas algo ao meu lado me chama mais atenção.
Verônica está encarando o próprio papel como se ele tivesse a traído pessoalmente.
Curioso, inclino o corpo um pouco.
O desenho é... terrível.
Linhas duras demais. Proporções estranhas. Tudo muito limpo, muito contido, como se ela tivesse tentado transformar um rosto humano numa fórmula matemática. Não parece comigo. Não parece com porra nenhuma, na verdade.
A senhorita Wheeler para ao lado dela.
Silêncio.
Verônica se endireita imediatamente, pronta para se defender ou se justificar — não sei dizer.
Verônica: Senhorita, eu posso refazer se...
Senhorita Wheeler: Não.-Wheeler a interrompe, erguendo a mão-Refazer não é o ponto.
Ela puxa uma cadeira e se senta ao lado de Verônica, algo que surpreende toda a sala.
Senhorita Wheeler: Você está desenhando como se estivesse tentando acertar.-continua, agora com uma voz mais suave, quase amigável- Como se houvesse um jeito certo de fazer isso.
Verônica engole em seco.
Verônica: Eu só... não sou muito boa em arte.
A professora inclina a cabeça, analisando o papel outra vez.
Senhorita Wheeler: Isso não é falta de talento.-diz-É excesso de controle.
Meu olhar vai de Verônica para o desenho e de volta. Ela parece menor ali, não fisicamente, mas por dentro.
Senhorita Wheeler: Arte não é sobre o que você acha que deveria fazer.-Wheeler continua-É sobre se permitir errar. Se permitir sentir. Mesmo que fique feio. Especialmente se ficar feio.
Verônica larga o lápis. Pela primeira vez na vida, a vejo ceder.
Senhorita Wheeler: Tente pensar fora da caixa.-sugere-Não desenhe o rosto. Desenhe o clima. Um traço abstrato, se quiser. Um borrão. Um detalhe só. Qualquer coisa que não venha da sua cabeça... mas de algum lugar mais fundo.
Verônica assente devagar, como se estivesse tentando decodificar aquelas palavras.
Senhorita Wheeler: Aqui, -a professora conclui, levantando-se- ninguém está esperando perfeição. Só verdade.
Verônica: Senhorita Wheeler?-ela a chama, antes que a mesma se afastasse por completo.
Senhorita Wheeler: Sim?
Verônica: Posso trocar o lápis por pincel e tinta?
Sua pergunta faz Senhorita Wheeler abrir um sorriso, curioso.
Senhorita Wheeler: Claro, senhorita Baker. Mostre a ela onde estão os materiais, Judd.

pretty little problem | judd birchOnde histórias criam vida. Descubra agora