XIX

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Judd Birch point of view

Eu não pensei em vir até aqui.
Mentira.
Pensei o caminho inteiro.
O portão. A rua. O som dos meus próprios passos. O vento frio batendo no rosto. Cada segundo dizendo pra voltar, cada outro dizendo que, se eu não fosse agora, não iria nunca.
Quando chego à porta da casa dela, levanto a mão para bater.
Mas ela abre antes.
Verônica Baker.
Cabelo preso atrás na orelha. Olhos grandes demais. Respiração curta.
Como se tivesse corrido até ali também, mas julgando a curta distância, parecia mais fugindo da própria sanidade.
Ficamos parados.
Espelhados.
Eu: Eu...-começo.
Verônica: Eu ia...-ela diz.
Rimos. Do mesmo jeito. No mesmo tempo.
Idiotas.
Passo a mão pelo cabelo, tentando encontrar palavras que não soem como fraqueza.
Eu: Eu senti que...-paro, frustrado, para quem tinha pensado tanto, me faltavam palavras para descrever o que se passava na minha cabeça- Que aquilo não tinha acabado.
Ela não desvia o olhar.
Verônica: Não acabou.-ela sussurra, mas com uma certeza que gritava.
Pronto.
Era tudo que eu precisava.
Dou um passo à frente. Ela não recua.
A casa silenciosa, a sala semiluminada atrás dela, o mundo inteiro reduzido à distância entre nossos corpos.
Eu paro perto o suficiente para sentir o calor dela.
Perto o suficiente para ver a dúvida piscando — e desaparecendo.
Minha mão sobe devagar, como se pedisse permissão mesmo sem palavras. Toco seu queixo de leve, guiando o rosto dela até mim.
E então não tem mais quase.
Os lábios se encontram.
Primeiro suave. Testando.
Depois real. Inteiro. Necessário.
Ela segura minha camiseta.
Eu seguro sua cintura.
Nada explode.
Nada quebra.
Só... encaixa.
Quando nos afastamos, milímetros apenas, nossas testas ficam coladas. A respiração misturada. O silêncio pesado e vivo.
Eu: Boa noite, Baker.
Verônica: Boa noite, Birch.

Verônica Baker point of view

O vapor ainda dança no espelho do banheiro quando eu saio enrolada na toalha. O piso frio arrepia a sola dos meus pés, mas minha cabeça está quente demais pra notar.
O beijo.
A respiração.
O jeito que o mundo simplesmente... parou.
Abro o armário, pego minha camiseta favorita — larga, preta, com um raio rasgando o peito — e visto sem pensar muito. O cabelo ainda úmido pinga nas costas. Eu deixo.
Caminho pelo corredor até ser surpreendida pela velha vitrola do meu avô. Ela sempre esteve ali, mas dessa vez eu tinha algo para ouvir nela.
Busco o vinil do Scorpions, que estava ainda perfeitamente embrulhado sobre o meu criado mudo, e o disponho no aparelho.
Coloco a agulha com cuidado. O chiado suave antecede a guitarra.
You and I...
Eu sorrio. Sem perceber.
Cantarolo baixo enquanto me movo pela sala, descalça, ainda meio zonza. Minha mente não faz esforço algum pra resistir:
Judd encostado na parede.
O jeito que ele perguntou o que eu queria.
O beijo que não pediu permissão.
E, ainda assim, foi o mais gentil que já recebi.
Fecho os olhos por um instante. Giro no meio da sala como se estivesse em algum clipe antigo da MTV.
Até que...
POOF.
Connie surge sentada no encosto do sofá, abanando-se dramaticamente.
Connie: Finalmente!-ela exclama-Um beijo decente! Eu já tava morrendo de sede aqui!
Eu: Connie...-resmungo, parando no meio de uma pirueta.
CLIC.
Petra aparece ajustando seus óculos invisíveis, segurando uma prancheta imaginária.
Petra: Precisamos discutir os eventos recentes.-ela declara, séria- Preferencialmente antes que você faça algo emocionalmente irresponsável que interfira com o grande plano.
ZUM.
Um brilho dourado corta o ar. Sonya pousa delicadamente na mesa de centro, antenas vibrando como se estivesse recebendo sinal divino.
Sonya: O beijo aconteceu!-ela comemora, emocionada-Finalmente! Meu coração de besouro quase explodiu!
Eu cubro o rosto com as mãos.
Eu: Vocês estavam... onde esse tempo todo?
Connie: Espiando.-ela responde, cruzando as pernas- Obviamente.
Petra suspira.
Petra: Não. Observando padrões comportamentais.
Sonya junta as mãos, chamando atenção para si.
Sonya: Celebrando o florescer de algo que eu acho...-ela dá uma pausa dramática- que é amor.
Eu caminho até o sofá e me jogo nele.
Eu: Foi só um beijo.
Três pares de olhos me encaram como se eu tivesse cometido heresia.
Connie aponta pra mim.
Connie: Foi o primeiro beijo com o garoto que você pensa quando está sozinha no quarto.
Silêncio.
Eu afundo no encosto.
Eu: Ok... talvez.
Petra risca algo na prancheta.
Petra: Então precisamos estabelecer diretrizes. Expectativas. Probabilidade de dano emocional. Potencial de crescimento.
Sonya bate as asas suavemente.
Sonya: Ou... -ela diz por sua vez, com doçura- você pode só sentir. Sem calcular. Sem fugir.
A música continua tocando. A voz rouca do Scorpions preenche o apartamento.
Eu olho pro teto.
E, pela primeira vez em muito tempo, deixo meu coração falar antes da cabeça.
Eu: Eu só sei que... quando ele me beijou...-começo, tentando encontrar as palavras certas, mas as perdendo de vez com Sonya ameaçando brilhar. Mas ainda instável.
Connie: Meu Deus, Sonya!
Sonya: Eu disse! Eu disse que era am...-antes mesmo que ela terminasse a fala, Petra a interrompe, voltando-se para mim.
Petra: Quando ele te beijou... o que? Te deu pontos extras para entrar em Yale? E finalmente orgulhar seus pais?
E, assim, Sonya apaga de uma vez por todas.
Petra estala os dedos, e um rolo de imagens surge: mulheres que desapareceram em relacionamentos, que abandonaram sonhos, que viveram à sombra de alguém.
Petra: Você tem ideia de quantas mulheres perderem tudo só por se apaixonarem?
Sonya: Você não acha que está exagerando, Petra?
Connie: É, caramba! Deixa a garota gozar!
Petra: Verônica lutou muito para chegar aonde está agora e relaxar por causa de um moleque!
As três começam a discutir. Vozes sobrepostas. Caos.
Eu levanto a mão.
Eu: Chega.
Silêncio imediato.
Eu respiro fundo.
Eu: Eu ouvi vocês. Todas. Mas... hoje eu só quero dormir.
Connie pisca, surpresa.
Petra fecha a prancheta.
Sonya pousa gentilmente no meu ombro.
Sem dizer mais nada, as três desaparecem.
A música continua tocando baixinho enquanto apago as luzes. Caminho até o quarto. Me enfio sob as cobertas. O escuro me envolve.
E ali, sozinha, sem monstros, sem planos, sem projeções...
Só eu e meus pensamentos.
O que exatamente eu sinto?
E... até onde isso vale a pena?

pretty little problem | judd birchOnde histórias criam vida. Descubra agora