Vinnie Hacker, um professor estagiário, arrumou um emprego um tanto complicado. Será que dar aulas de matemática pra Jade Monroe seria tão difícil? Uma garota extremamente rica, tóxica e narcisista, que tem tudo em suas mãos na hora que bem desejar...
Encaro a parede a minha frente desde que subi nessa cama. Bryan dorme ao meu lado como uma pedra. Seus olhinhos inchados, e seu rosto vermelho de chorar a noite inteira. Agora ele está seguro, longe de qualquer perigo, mas minha mente ainda está em alerta, e fico com raiva de mim mesma por isso. Por que não estava em alerta quando ele andava pela rua sozinho vendendo doces? Por que não estava em alerta quando ele lutava pra sobreviver? Por que não estive em alerta antes do pai dele morrer?
─ Bom dia. ─ Vinnie entra no quarto com um café da manhã lindo nas mãos, esse momento seria perfeito se não fosse tais circunstâncias.
─ Bom dia. ─ Respondi em voz baixa, para não acordar o pequeno. Vinnie deixa a bandeja em uma pequena mesa ao nosso lado e posiciona o dedo no rosto do garoto, acariciando-o.
─ Também está com medo de quando ele acordar? ─ Ele pergunta enquanto passo por um transe e por um momento, eu não respondo. ─ Ei. ─ Tocou em minha perna. ─ Temos que ser forte pra ele.
─ Eu sei. ─ Respondi em um susurro.
• • •
Era quase meio-dia, eu praticamente o obriguei a ir trabalhar porque ele não queria me deixar sozinha. E ele praticamente me obrigou a ficar aqui porque queria ficar perto e ajudar Bryan junto comigo. Ele ainda dorme intensamente e sinceramente, não quero que acorde agora porque não quero o ver chorar.
Estou na cozinha ajeitando uns documentos da cafeteira enquanto espero o almoço ficar pronto. Levanto do balcão quando escuto batidas na porta.
─ O que está fazendo aqui? ─ Franzi a testa quando vi meu pai.
─ Um passarinho me contou que você talvez poderia estar aqui. Posso entrar?
─ Pode. ─ Digo mesmo a casa não sendo minha.
─ Então quer dizer que em menos de um mês do término de Hacker, você voltou com ele? ─ Eu reviro os olhos com o seu tom irônico.
─ Primeiro, nós não estamos juntos. ─ Minto. ─ E segundo, não é da sua conta a minha vida amorosa.
─ Tá fazendo o quê aqui então?
─ Não te interessa, pai.
─ Jade? ─ Uma vozinha me chamou logo após eu terminar a frase. Me viro.
─ Oi, Meu amor! ─ O pego no colo. ─ Está com fome?
─ Sim. ─ Ele coça o rosto marcado do travesseiro. Enquanto eu o coloco no balcão ao lado dos documentos, meu pai me encara totalmente confuso.
─ Quem é esse garoto? ─ Sua frase sai delicada como um cavalo.
─ Esse é o Bryan. É uma longa história, te conto depois. ─ Digo rápido, afim de mudar o assunto.
─ Posso contar enquanto você termina esse molho. ─ O pequeno diz. ─ Eu vendia biscoitos da sorte e ela me ajudou. O Vinnie também ele me deu um tênis. Esse daqui. ─ Ele levantou o pé. ─ Eu morava com meu pai mas ele morreu ontem, quando a chuva levou nossa casa. ─ Quando ele terminou de falar, nós dois estávamos de boca aberta. Eu desligo o fogão.
─ Você está bem? ─ Acaricio seu rosto. Ele acentiu. Parecia triste mas, é como se já tivesse acostumado com isso, como se já esperasse a morte do pai. Entrego um prato de espaguete e o vejo comer como nunca. Deixo um copo de suco ao seu lado e puxo meu pai para o corredor.
─ Isso é muita informação pra minha cabeça mas... ─ Meu pai disse meio atordoado. ─ Você não vai adotar uma criança agora não é? ─ Ele diz com o tom mais impiedoso do mundo.
─ Não. ─ Respondi firme, mesmo sentindo meu peito apertar. ─ Eu não vou fazer nada agora. Mas também não vou virar as costas pra ele. ─ Meu pai passou a mão no rosto, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.
─ Jade, isso não é um cachorro que você encontrou na rua. É uma criança. Uma responsabilidade gigantesca.
─ Eu sei disso! ─ Minha voz saiu mais alta do que eu gostaria, e imediatamente olhei na direção da cozinha, com medo de Bryan escutar. Baixei o tom. ─ Eu sei... melhor do que você imagina. ─ Ele suspirou.
─ E o Vinnie? Vai brincar de família com você também? ─ Engoli seco.
─ Ele só está ajudando.
─ Ajudando ou se metendo ainda mais na sua vida? ─ Antes que eu pudesse responder, escutamos o som de talheres batendo no prato e uma risadinha baixa. Espiei pela porta: Bryan comia o espaguete como se fosse a melhor coisa que já tivesse provado na vida. E naquele instante... tudo ficou claro.
─ Olha pra ele. ─ Falei mais baixo, quase cansada. ─ Ele não tem ninguém, pai. Ninguém. ─ Meu pai ficou em silêncio. A porta da frente se abriu.
─ Jade? ─ A voz de Vinnie ecoou pela casa. Senti meu coração acelerar por um motivo completamente diferente agora.
Ele apareceu no corredor, ainda com a roupa do trabalho, os olhos cansados, mas quando viu Bryan na cozinha, seu rosto suavizou. Depois seus olhos encontraram os meus... e por um segundo, o mundo ficou quieto.
─ Oi. ─ Ele disse, mais baixo.
─ Oi.
Meu pai cruzou os braços.
─ Não sabia que estavam juntos. ─ O clima mudou na hora. Vinnie, sério, disse:
─ Com todo respeito, sr. Piter, estamos com um problema maior agora.
─ Ótimo. Então talvez você possa me explicar por que minha filha está prestes a assumir uma responsabilidade que não é dela.
Antes que Vinnie respondesse, Bryan apareceu na porta da cozinha, ainda segurando o garfo.
─ Não briga com ela. ─ Disse ele, com a voz pequena. ─ Ela só quis me ajudar. ─ Aquilo cortou o ar.
─ É melhor você ir, pai. ─ Digo aquilo já de saco cheio dele sempre se intrometer na minha vida. E ele foi. Quando a porta se bate, meu pulmão se enche de ar. Vinnie pega Bryan no colo e conta algo sobre o trabalho para mudar de assunto, não sei o que é porque estou ocupada demais tentando entender os papéis em sua mão com a logo de um laboratório de análises clínicas.
─ Estava fazendo exames? ─ Pergunto. Ele põe Bryan no chão e balança a cabeça negativamente.
─ Não é meu. ─ Não sinto verdade, mas pergunto:
─ De quem é?
─ Você faz muitas perguntas, sabia? ─ Ele deu um beijo em meus lábios e disse: ─ Vou tomar um banho.
• • •
Assisto o pôr do sol pelo vidro da cafeteria. Preciso abri-lá o quanto antes mas com tudo isso acontecendo fica meio difícil. Já organizei o cardápio e a decoração. Só preciso de algumas pessoas pra trabalhar comigo. Enquanto espero uma delas para uma entrevista, bato os dedos na madeira da mesa com a ansiedade á mil. Uma luz forte desvia meu olhar do notebook até lá fora. Era um carro. Estaciona e quando desce uma mulher em direção à porta da cafeteria, eu tiro os óculos, me levantando.
Ao me aproximar, vejo quem eu menos queria agora: Josie.
─ Oi, podemos conversar? ─ Ela abre um sorriso quando abro a porta. ─ Tenho algumas informações que você vai amar saber.
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