Henrique
Eu tinha 14 anos quando Felicita entrou na minha vida. Uma menina magrela, com os cabelos loiros como o sol da manhã e olhos escuros que me encaravam envergonhados quando o seu pai tocou a campainha do nosso apartamento pela primeira de muitas vezes.
- Oi - um cara de meia idade com olheiras escuras cumprimentou assim que minha mãe abriu a porta, depois de levar um susto com a campainha - Hã, eu e minha filha somos seus novos vizinhos - ele se esforçou para esboçar um sorriso, enquanto tentava tirar a filha escondida de trás de si.
Depois de dois dias minha mãe veio toda animada avisar que o nosso novo vizinho - Senhor Gustavo era o nome dele - havia matriculado sua filha na mesma escola que eu estudaria esse ano. Minha mãe achou isso ótimo, pois agora eu não iria pegar o ônibus sozinho. As outras crianças do prédio - o qual as pessoas deram o carinhoso nome de Cortiço - estudavam na escola municipal, que ficava a dois quarteirões. Graças às minhas notas e ao trabalho da minha mãe, eu havia ganhado uma bolsa para estudar em uma escola particular boa, porém teria que enfrentar os ônibus todos os dias.
E foi assim. No começo eu me sentia meio incomodado, sentia como se o destino estivesse me obrigando a ser amigo daquela menina mirrada, que também não parecia nem um pouco disposta a ter uma amizade comigo.
- Qual o seu nome? - perguntei durante nossa primeira viagem de ônibus para escola. Era muito cedo e estávamos ambos com aquela cara amassada de sono.
- Fê - ela respondeu e virou a cabeça para o lado.
- Seu nome é Fê mesmo? Tipo, só Fê? - reparo depois de um momento de reflexão.
Ela revirou os olhos e eu comecei a encarar a janela, já conformado com o fato de que ela não me responderia. Foi quando, de repente, ela teve um ataque de risos e falou com um sorriso maroto no rosto:
- Só você mesmo pra achar que o meu nome é Fê. Na verdade é Felicita.
- Felicita? - o nome estranho me pegou mais de surpresa do que seu humor repentino.
- Espero que você compreenda e me chame apenas de "tipo, só Fê" - ela brincou, dando um daqueles sorrisos que parecem ter a capacidade de iluminar o céu.
E foi assim que a nossa amizade começou: em um ônibus público do Rio de Janeiro, às seis da manhã de uma segunda-feira, e com a coisa mais improvável de todas para se ter uma hora dessas em um dia desses: um sorriso.
***
Às vezes eu me assustava ao ver Selene. Não só por causa da semelhança do cabelo loiro e até do tipo físico entre ela e Fê. Mas também do jeito tão parecido de agir. Lembro de que uma das coisas que eu mais amava em Fê era o fato dela sempre me surpreender, desde seu primeiro ataque de risos até as pequenas atitudes. Já Selene, bem, se você procura por surpresas ela é a pessoa certa. Eu pelo menos não esperava acabar minha última tarde com ela tomando chá no meu sofá. Nem nos meus sonhos mais profundos eu poderia ter imaginado isso.
Mas foi o que aconteceu e ela ficou lá até a chuva melhorar, o que demorou um pouco para acontecer. Então ficamos batendo papo furado. Eu descobri que ela tinha uma irmã pequena e também que tinha problemas com o seu pai, não só pelo fato dela falar essa palavra com uma amargura óbvia, mas também porque ela não se importa nem um pouco de falar mal do velho, contando para um cara que ela mal conhecia o quão injusto ele estava sendo com ela. Mesmo assim, apesar de toda a fluidez da conversa e dos seus sorrisos típicos estarem disfarçando muito bem, durante toda a tarde eu consegui notar que ela ainda estava meio agitada, preocupada com alguma coisa.
Depois de algumas horas, o assunto acabou se perdendo. Ninguém queria puxar alguma conversa que pudesse parecer interesseira demais, mas admito que o silêncio também estava me incomodando. Selene, como uma boa pessoa inquieta e meio sem vergonha na cara, começou a andar pela sala de um lado para o outro, ora encarando a janela, ora encarando o aparelho de som incrivelmente antigo na parede da minha sala. Finalmente, ela começou a me interrogar sobre o objeto perguntando onde e quando eu tinha comprado, que músicas eu escutava, várias coisas estranhas do tipo, que eu respondi de modo curto, e depois de ignorar inúmeras negativas minhas, ela ligou o rádio que na mesma hora começou a tocar My Way, do albúm New York New York do bom e velho Frank Sinatra.
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Selene
RandomUm passado amoroso traumatizante havia feito com que Selene passasse de filha perfeita para garota má. Com sua beleza de dar inveja em qualquer uma, sua maior diversão é destruir os casais perfeitos e gastar todo dinheiro de seu pai em saltos da Cha...