Capítulo 17 - Uma aluna aplicada

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Uma aluna aplicada

Julianna abriu os olhos assustada. Seu corpo todo tremia e o suor encharcava sua nuca escorrendo pelas costas. O coração disparado e a respiração ofegante lhe impediam de emitir qualquer som além de gemidos. Com muito esforço conseguiu erguer-se da cama e sentar-se, fechando os olhos novamente. Aos poucos foi se acalmando e retomando o controle sobre si mesma. Esticou o braço e tateou a parede, no entanto, ao tocá-la, lembrou-se de onde estava e apenas verbalizou suavemente: – Luz. – e o ambiente tornou-se claro, como se o Sol entrasse pelas janelas inexistentes de seu minúsculo quarto.

- Não entendo... estou morta, mas sinto-me mais viva do que nunca. Meu coração bate e meus pulmões parecem funcionar normalmente. Tenho fome, sede e sono. Sem falar destes pesadelos que me assombram diariamente. – ela olhou para o teto e perguntou sem saber exatamente para quem – Onde está o descanso eterno?

Então, chutou para fora da cama o lençol que estava aos seus pés e olhou em volta. Desde que se separara de Zogham fora levada para um pequeno dormitório individual. Não podia precisar há quanto tempo estava ali, pois ainda não estava familiarizada com o calendário usado na Colônia Provisória, o mesmo do Portal de Anaya, que tinha duração bem diferente do da Terra, apesar de ser dividido em dias, semanas, meses e anos também. Sua mesinha de cabeceira estava repleta de livros, assim como toda a extensão da parede contrária à cama.

Sua co-Orientadora, Myrthila Granjem, ocupava o quarto ao lado. A mulher aparentava ter uns 100 anos, mas tinha os olhos acesos e uma energia de dar inveja. Era ela quem lhe trazia comida, água e roupas limpas. Falava com voz mansa, mas era implacável com os estudos. Se passava uma lição, exigia a comprovação de que aquele conhecimento havia sido internalizado, caso contrário, aplicava punições disfarçadas.

- Minha fofinha, você não sabe que dia é hoje? Mas já está com este calendário há uma semana! Ah, que pena! Eu esperava que você pudesse fazer o passeio turístico pela colônia no próximo dia 49, mas só depois de aprender a ver as horas e contar os dias.

- Não é que eu não saiba que dia é hoje, eu apenas não consigo fazer a conversão.

Mas Myrthila Granjem sempre dava às costas depois de fazer uma cobrança. Saía balançando a cabeça negativamente, deixando Julianna sentir-se a mais burra das criaturas.

- Mas se ela pensa que eu vou desistir, está muito enganada!

Julianna ajoelhou-se na cama e pegou o calendário que estava pendurado na parede ao lado dela. Segurou-o com os braços estendidos e recitou o nome dos meses em voz alta:

- Bali, Mali, Tala, Geli, Nila, Tula, Sila, Gala, Rela, Pala, Vula, Zela, Xali e Fuli. Muito bem, são 14 meses e eu sei que estamos em Sila. Todos os meses têm 55 dias e cada mês tem, aproximadamente, oito semanas. A semana é igual à da Terra, com sete dias. Os dias da semana são Lumo, Ĉielo, Tero, Akvo, Vivo, Esti e Paco. Já as horas...

Ela pendurou o calendário de volta e pegou um objeto sobre uma das várias pilhas de livros espalhadas pelo quarto. Examinou-o detalhadamente, soltando um longo suspiro. – Este é o relógio mais estranho que eu já vi em minha vida. Eu nunca vou aprender a ver as horas neste lugar! – E jogou-o em cima da cama. Com o impacto, o objeto quicou em direção ao chão. Julianna soltou um grito abafado, atirando-se em direção a ele, amparando-o antes que batesse no solo.

- Ufa! Foi por pouco. Era só o que faltava, ter que admitir que quebrei o relógio em um momento de raiva. Raiva da minha incompetência!

Ela se acomodou no chão, encostada à cama e verificou se ele ainda estava funcionando. Percebendo que ainda fazia o tradicional barulhinho de tic-tac, continuou a analisá-lo. A peça era composta por várias partes, sobrepostas e encaixadas entre si. O centro possuía um cilindro verde, no topo do qual podia-se ler 4,74b, indicando o ano em que estavam no Portal de Anaya. Lembrou-se que ficou estupefata ao descobrir que isso equivalia há dez bilhões de anos terrestres.

O Portal de Anaya - Livro 1 - A OrigemOnde histórias criam vida. Descubra agora