Beatriz Alcântara
Saí correndo da faculdade, já estava atrasada para uma entrevista de emprego.
Na semana passada passei por alguns testes, todas ficaram de retornar e nenhuma deu sequer uma ligação.
Ontem me ligaram de um escritório. Não entendi muito bem o nome, algo com Monteiro, Montego... não sei, era algo assim. Só anotei o endereço e aceitei fazer a tal entrevista.
Pagar a faculdade de Direito e ao mesmo tempo querer sair de casa, não seria muito fácil, eu sempre soube. A relação com minha madrasta, Cristiane, não é das melhores. Mas, sinceramente? Por mim, se ela morresse, não faria nem um pouco de falta. Podem acreditar: tudo o que ela puder fazer para me deixar mal, ela faz.
Meu pai é policial e está para se aposentar. Ainda assim, não larga o trabalho nem por um dia santo. Das poucas vezes que o vejo, mato um pouquinho da saudade e conto como estão as coisas na faculdade. Mesmo morando na mesma casa e dormindo separados apenas por uma parede, é quase impossível nos vermos, pois no tempo vago estou sempre estudando e, na parte da tarde, trabalho em um café localizado no centro, um tanto longe da minha casa.
Moramos em um lugar afastado da cidade, tanto que é raro recebermos visitas. Meus tios dizem que nos escondemos, minhas tias falam que moramos no meio do mato. Ok, não posso discordar, é longe sim. O engraçado é que quando o assunto é um almoço ou jantar, eles estão lá e nem reclamam da distância.
Saí em direção ao meu carro, um Uno antiguinho que ganhei do meu pai assim que tirei a carteira.
Entrei, olhei no relógio e faltava meia hora para eu chegar lá. Joguei todas as minhas coisas no banco do passageiro e fui rezando para ele não me deixar na mão.
Ultimamente, estava cheio de graça: adorava morrer e só voltar a pegar quando queria.
Parei no semáforo e olhei mais uma vez no relógio: faltavam quinze minutos. Fiquei desesperada, ansiosa. Me deu dor de barriga, dor de estômago, dor em todo lugar... acho que doíam até os fios do meu cabelo.
— Calma, Bea, vai dar tudo certo... você vai chegar... vai chegar e vai dar tudo certo — fiz minhas preces.
Quando me dei conta, já estava na frente do bendito escritório. Cheguei dez minutos atrasada. Achei uma vaga quase em frente; o estranho era ser muito perto do café onde eu trabalhava e eu nunca ter sabido desse escritório.
Desci do carro. Peguei minha bolsa, ajeitei minha saia — na altura do joelho — e a camisa rosa bebê. Arrumei o cabelo, respirei fundo e entrei.
Logo na entrada me deparei com um escritório muito bonito: recepção organizada, um lustre maravilhoso bem no meio da sala, móveis rústicos e clássicos, uma pequena estante com vários livros. Um sofá de couro ao centro. Fiquei admirada observando cada detalhe daquele lugar e me imaginando, um dia, rica, linda e loira, morando numa casa com móveis como aqueles, quando senti um leve cutucão no braço.
— Boa tarde, a senhora é a Beatriz Alcântara?
Uma senhora bem vestida e aparentemente muito simpática. Já era mais velha, devia ter uns sessenta anos.
— Sim, sou eu... um tanto atrasada também, desculpe... — disse envergonhada, sentindo minhas bochechas corarem.
— Minha filha, não se preocupe nem fique nervosa. O Dr. Dante Montenegro reclamou do seu atraso, disse que iria almoçar e que, se você chegasse, era para esperar. Ele veria se iria atendê-la.
Pronto. Já vi que o cara era um mala.
— Mas sente-se, minha filha. Aceita um chá, café ou água?
— Não, muito obrigada, senhora. Vou aguardar aqui mesmo.
Sentei no sofá. Naquele momento, eu só queria morrer e sair correndo dali.
Senti o celular vibrar na bolsa.
— Alô...
— Sua sumida, sou eu! — uma voz alegre falou do outro lado.
Dei uma risada baixa, reconhecendo o "carinho".
— Oi pra você também. Estou com saudades.
Levantei e saí da recepção para atender.
— Desculpa, amiga, estou em um escritório de advocacia. Vim fazer uma entrevista de estágio. Quero sair daquela casa logo, Deus, não aguento mais.
Conversamos por uns vinte minutos. Ela contou tudo: estava montando sua loja, iria se especializar fora do Brasil e queria que eu fosse junto. Las Vegas... claro, ela nasceu com a vida ganha e eu tenho que trabalhar para ganhar a minha.
— Beatriz, sério, qual o problema de morar comigo? — Débora reclamou.
— Quero minhas coisas, meu cantinho... conquistar tudo com meu dinheiro.
Nos despedimos entre risadas.
Foi então que vi um homem alto, de terno preto risca de giz, camisa branca e gravata azul. Cabelos negros, expressão fechada... e absurdamente bonito.
Quando ele passou ao meu lado, exalando um perfume maravilhoso, tive a impressão de que o ar ficou mais pesado.
Segui atrás dele até a recepção. O elevador se fechou e percebi que ele não tirou os olhos de mim até as portas encostarem.
Aproximei-me da mesa da Sra. Rosa.
— O Dr. Monteg... Monte...
— Dante Montenegro. Mas, para você, Dr. Dante Montenegro.
A voz surgiu atrás de mim.
Virei e dei de cara com o mesmo homem.
Respirei fundo.
— Sou Beatriz Alcântara. Muito prazer... e desculpe o desencontro mais cedo.
Ele não apertou minha mão.
— Não sou ninguém para desculpar seus atrasos. Você ainda não trabalha aqui e, pelo visto, se continuar nesse ritmo, não passa da experiência.
Quem ele pensa que é?
— Dr. Dante, Beatriz está esperando pela entrevista — Rosa interveio.
— Esteja em minha sala em dez minutos... ou melhor, eu mando chamá-la.
Sentei novamente, ansiosa.
Pouco depois:
— Beatriz, o Dr. Dante está lhe esperando. Último andar, porta única em frente ao elevador.
Subi.
Bati na porta.
— Com licença, Dr. Dante...
Ele estava atrás da mesa, de óculos, concentrado.
— Você poderia ter batido — disse ríspido.
— Eu bati...
Ele franziu a testa.
— Sente-se. Não sou bom em entrevistar estagiários e, para meu azar, hoje todos desse escritório foram para uma convenção.
Sentei-me.
E assim começou a entrevista.
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Cláusulas do Destino
RomanceEle vive por regras. Ela nasceu para quebrá-las. Quando Beatriz Alcântara começa a estagiar no Escritório Montenegro, descobre que seu chefe, Dante Montenegro, é arrogante, controlador... e perigosamente atraente. Apaixonar-se nunca fez parte do con...
