CAPÍTULO 5 - A noite em que tudo mudou

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Marcelo - O vizinho

Desde que vi Beatriz se mudando, fiz questão de ajudar. Ela era linda — e, para mim, aquilo parecia uma oportunidade perfeita. Talvez nossa relação pudesse ir além de vizinhos.

Ajudei com as malas, conversei, sorri. Preferi não avançar demais; deixar curiosidade costuma funcionar melhor.

Passei o resto do dia no meu apartamento. Também havia me mudado há pouco tempo. As paredes eram finas, e as gargalhadas vindas do apartamento dela ecoavam pelo corredor. As amigas também estavam lá.

No fim da tarde resolvi sair para o mercado. Foi quando a vi do lado de fora, tentando abrir a porta, nervosa.

Aproximei-me.

Peguei a chave da mão dela e tentei girar. Forcei um pouco mais do que devia — de propósito — até ouvir o estalo seco do metal quebrando dentro da fechadura.
Pronto.
Ela não poderia entrar.

— Marcelo... — a voz dela me chamou.

Sorri.

— Parece que a chave partiu. Acho melhor você entrar lá em casa enquanto resolvemos isso.

Ela hesitou, mas acabou aceitando.
Ofereci toalha, indiquei o banheiro e disse que poderia tomar banho. Ela parecia cansada demais para discutir.
Quando ouvi o chuveiro ligar, fiquei parado alguns segundos no corredor.
Era agora.
Fui até a porta do banheiro e a abri devagar.
Assim que percebeu, ela gritou e tentou me empurrar. Segurei seus braços, impedindo que escapasse.

— Calma... — tentei contê-la.
Ela se debateu com força, me arranhando. O pânico no olhar dela era evidente, mas aquilo só aumentava minha irritação.

— Para de gritar!

Ela me acertou um chute violento, e a dor me fez soltá-la.
— Você vai se arrepender! — gritei.

Ela aproveitou a brecha, pegou as roupas e saiu correndo do apartamento.

Beatriz

Consegui escapar dele depois do chute. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui vestir a roupa.

Saí correndo pelo apartamento, peguei as chaves em cima da mesa e consegui sair para a rua. Tranquei a porta por fora e larguei a chave no chão.

Corri.
Sem rumo.
Sem pensar.
Eu só queria distância.

O desespero me empurrava para frente. Eu mal respirava.

Ouvi a voz dele gritando meu nome atrás de mim.
Corri mais.

— O que eu fiz pra ele...? — repetia, quase sem voz.

De repente ouvi pneus cantando.
Um carro se aproximou.
Minhas pernas falharam.
Caí no chão.
Senti os joelhos queimarem. As lágrimas não paravam.
A porta do carro bateu e alguém se aproximou correndo.

— Beatriz... sou eu...
A voz era familiar.

Dante

Que dia infernal.
Três audiências seguidas e horas no escritório resolvendo problemas. Já passava das onze da noite quando finalmente saí.
Pensei em passar no café, mas estava fechado.
A rua estava quase vazia.
Então vi.
Uma mulher correndo, desesperada.
E um homem atrás dela, ameaçando.
Meu sangue gelou.
Peguei o telefone.

— Otávio, viu o homem correndo? Vai atrás dele agora. Eu fico com a garota.

— Quem são, senhor?

— Vai logo!

Fiz a volta com o carro.
Beatriz.
Ela caiu no meio da rua.
Parei sem nem me importar com o carro atravessado.
Corri até ela.
Ela estava tremendo, chorando, encolhida.
Ajoelhei ao lado dela.

— Beatriz, sou eu... Dante.

Ela me olhou, assustada — e então o olhar mudou.
Não era mais pânico absoluto.
Era alívio.
Levantei-a com cuidado e a coloquei no carro. Ela encostou a cabeça no meu peito e chorou ainda mais.
Liguei para Otávio.

— Pegou?

— Sim. Ele disse ser marido dela.

Franzi o cenho e olhei para Beatriz.

— Ele...?

Ela entrou em desespero.

— Não! Ele é meu vizinho... nunca foi meu marido...
Respirei fundo, controlando a raiva.

— Leva ele ao delegado Pereira.

Desliguei.
Olhei para ela novamente.
Frágil. Machucada. Tremendo.

— Você está segura agora — falei.

Ela segurou minha camisa com força.

— Ele vai me matar...

— Não vai — respondi firme.

Ela então me contou tudo.
Cada palavra aumentava minha raiva.
Quando terminou, minha decisão já estava tomada.

— Vamos ao seu apartamento. Você precisa se trocar.

Ela assentiu.

Quando chegamos ao prédio, ela ficou atrás de mim o tempo todo.

A porta do apartamento do vizinho estava aberta.
Olhei para dentro.
Uma maleta aberta. Munições sobre a mesa.
Fechei o punho.

— Filho da mãe...

Ela se aproximou.
— O que foi?

Não respondi. Apenas a mantive atrás de mim.
Meu segurança subiu as escadas naquele momento. Relaxei um pouco.

Depois consegui abrir a porta do apartamento dela.
Ela entrou devagar, olhando em volta.

— Entra... está bagunçado.

Observei o lugar. Pequeno, mas acolhedor.
Ela parecia triste.

— Vai tomar um banho. Eu espero aqui.
Quando ela passou pela luz vi os joelhos ralados e os pés machucados.

— Você precisa limpar esses ferimentos.
Ela hesitou... e segurou minha mão.

— Você pode ficar aqui... na porta? Eu não quero ficar sozinha.

Olhei para ela por um instante.

— Estou aqui.
Apontei para o sofá.

— Não vou sair.

Cláusulas do DestinoOnde histórias criam vida. Descubra agora