Marcelo - O vizinho
Desde que vi Beatriz se mudando, fiz questão de ajudar. Ela era linda — e, para mim, aquilo parecia uma oportunidade perfeita. Talvez nossa relação pudesse ir além de vizinhos.
Ajudei com as malas, conversei, sorri. Preferi não avançar demais; deixar curiosidade costuma funcionar melhor.
Passei o resto do dia no meu apartamento. Também havia me mudado há pouco tempo. As paredes eram finas, e as gargalhadas vindas do apartamento dela ecoavam pelo corredor. As amigas também estavam lá.
No fim da tarde resolvi sair para o mercado. Foi quando a vi do lado de fora, tentando abrir a porta, nervosa.
Aproximei-me.
Peguei a chave da mão dela e tentei girar. Forcei um pouco mais do que devia — de propósito — até ouvir o estalo seco do metal quebrando dentro da fechadura.
Pronto.
Ela não poderia entrar.
— Marcelo... — a voz dela me chamou.
Sorri.
— Parece que a chave partiu. Acho melhor você entrar lá em casa enquanto resolvemos isso.
Ela hesitou, mas acabou aceitando.
Ofereci toalha, indiquei o banheiro e disse que poderia tomar banho. Ela parecia cansada demais para discutir.
Quando ouvi o chuveiro ligar, fiquei parado alguns segundos no corredor.
Era agora.
Fui até a porta do banheiro e a abri devagar.
Assim que percebeu, ela gritou e tentou me empurrar. Segurei seus braços, impedindo que escapasse.
— Calma... — tentei contê-la.
Ela se debateu com força, me arranhando. O pânico no olhar dela era evidente, mas aquilo só aumentava minha irritação.
— Para de gritar!
Ela me acertou um chute violento, e a dor me fez soltá-la.
— Você vai se arrepender! — gritei.
Ela aproveitou a brecha, pegou as roupas e saiu correndo do apartamento.
Beatriz
Consegui escapar dele depois do chute. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui vestir a roupa.
Saí correndo pelo apartamento, peguei as chaves em cima da mesa e consegui sair para a rua. Tranquei a porta por fora e larguei a chave no chão.
Corri.
Sem rumo.
Sem pensar.
Eu só queria distância.
O desespero me empurrava para frente. Eu mal respirava.
Ouvi a voz dele gritando meu nome atrás de mim.
Corri mais.
— O que eu fiz pra ele...? — repetia, quase sem voz.
De repente ouvi pneus cantando.
Um carro se aproximou.
Minhas pernas falharam.
Caí no chão.
Senti os joelhos queimarem. As lágrimas não paravam.
A porta do carro bateu e alguém se aproximou correndo.
— Beatriz... sou eu...
A voz era familiar.
Dante
Que dia infernal.
Três audiências seguidas e horas no escritório resolvendo problemas. Já passava das onze da noite quando finalmente saí.
Pensei em passar no café, mas estava fechado.
A rua estava quase vazia.
Então vi.
Uma mulher correndo, desesperada.
E um homem atrás dela, ameaçando.
Meu sangue gelou.
Peguei o telefone.
— Otávio, viu o homem correndo? Vai atrás dele agora. Eu fico com a garota.
— Quem são, senhor?
— Vai logo!
Fiz a volta com o carro.
Beatriz.
Ela caiu no meio da rua.
Parei sem nem me importar com o carro atravessado.
Corri até ela.
Ela estava tremendo, chorando, encolhida.
Ajoelhei ao lado dela.
— Beatriz, sou eu... Dante.
Ela me olhou, assustada — e então o olhar mudou.
Não era mais pânico absoluto.
Era alívio.
Levantei-a com cuidado e a coloquei no carro. Ela encostou a cabeça no meu peito e chorou ainda mais.
Liguei para Otávio.
— Pegou?
— Sim. Ele disse ser marido dela.
Franzi o cenho e olhei para Beatriz.
— Ele...?
Ela entrou em desespero.
— Não! Ele é meu vizinho... nunca foi meu marido...
Respirei fundo, controlando a raiva.
— Leva ele ao delegado Pereira.
Desliguei.
Olhei para ela novamente.
Frágil. Machucada. Tremendo.
— Você está segura agora — falei.
Ela segurou minha camisa com força.
— Ele vai me matar...
— Não vai — respondi firme.
Ela então me contou tudo.
Cada palavra aumentava minha raiva.
Quando terminou, minha decisão já estava tomada.
— Vamos ao seu apartamento. Você precisa se trocar.
Ela assentiu.
Quando chegamos ao prédio, ela ficou atrás de mim o tempo todo.
A porta do apartamento do vizinho estava aberta.
Olhei para dentro.
Uma maleta aberta. Munições sobre a mesa.
Fechei o punho.
— Filho da mãe...
Ela se aproximou.
— O que foi?
Não respondi. Apenas a mantive atrás de mim.
Meu segurança subiu as escadas naquele momento. Relaxei um pouco.
Depois consegui abrir a porta do apartamento dela.
Ela entrou devagar, olhando em volta.
— Entra... está bagunçado.
Observei o lugar. Pequeno, mas acolhedor.
Ela parecia triste.
— Vai tomar um banho. Eu espero aqui.
Quando ela passou pela luz vi os joelhos ralados e os pés machucados.
— Você precisa limpar esses ferimentos.
Ela hesitou... e segurou minha mão.
— Você pode ficar aqui... na porta? Eu não quero ficar sozinha.
Olhei para ela por um instante.
— Estou aqui.
Apontei para o sofá.
— Não vou sair.
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Cláusulas do Destino
RomanceEle vive por regras. Ela nasceu para quebrá-las. Quando Beatriz Alcântara começa a estagiar no Escritório Montenegro, descobre que seu chefe, Dante Montenegro, é arrogante, controlador... e perigosamente atraente. Apaixonar-se nunca fez parte do con...
