Regras, conseguem ser bastante injustas

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É simplesmente perfeito estar a voar com o Carlos... Desde aquele primeiro dia em que voámos juntos que se tornou regular, praticamente sempre que passamos tempos juntos voamos até à praia e passamos lá algum tempo a falar, a brincar um com o outro ou por vezes simplesmente abraçados sem falar a olhar para o mar. Há medida que o tempo passa eu sinto que algo cresce entre nós, e tenho a sensação de que não é apenas amizade. Eu sinto-me mais do que bem na presença dele, na verdade as melhores horas do meu dia é quando estou com ele, apesar de saber que ele anda sempre por perto, é diferente quando posso mesmo estar com ele. Além disso há algo nele que mexe comigo, mas de uma maneira que eu não tinha sentido antes. De alguma forma eu sinto que ele também sente algo por mim, mas não sei porquê é como se por alguma razão ele se contivesse, por vezes parece que vai fazer alguma coisa mas depois algo no olhar dele muda e recua. Aliás, lembro-me bem do dia em que me tinha apercebido verdadeiramente desta situação: Tinha sido há cerca de duas semanas, estávamos os dois na praia, como habitual. Eu comecei a picá-lo, a dizer que ele nunca seria capaz de me fazer mal e ele começou a fazer-me cócegas. Rebolávamos na areia, ríamos e de repente paramos a olhar nos olhos um do outro, a cinco centímetros um do outro. A minha respiração estava acelerada, a atracão que sentia por ele naquele momento era inevitável, mas não avancei, queria que fosse ele a tomar o primeiro passo. Vi nos seu olhos que queria, mas de repente, aqueles olhos azuis escureceram, ele sussurrou "Não posso...", suspirou e afastou-se.

Ainda hoje não percebo porque disse aquilo. Vamos novamente à praia, estamos no ar e a vista é perfeita como sempre. Sinto-me feliz ali com o Carlos.

- Nê, preciso de falar contigo, por isso vamos dar uma volta maior, pois preciso de usar o escudo de som... - diz-me ele ao ouvido - Há pessoas que não podem ouvir o que te vou dizer.

- Pessoas que estão a cima de ti e não te deixam responder às minhas perguntas? - pergunto-lhe.

- Exacto, os mestres. - faz uma pausa - Lembraste, há duas semanas quando quase nos beijamos?

A sensação de atracção voltou a percorrer o meu corpo.

- Lembro-me perfeitamente - sussurei.

- Então também te lembras do que disse... Pequena, não pode acontecer...

- Porquê? - pergunto-lhe com a garganta apertada.

- Porque existem regras Nê! - a voz dele tem um tom exasperado, mas eu sei que não é comigo - Não nós é permitido ter relações desse género com vocês!

Percebo o que ele me está a dizer. As regras ditam que quem revela o gene não pode ter relações amorosas connosco, humanos banais, não se podiam apaixonar sequer, e eu sabia que os mestres nunca abririam exceções... Sabia pelo próprio Carlos que se alguém cometesse uma infracção os mestres não era nada compreensivos, e essa seria uma infracção imperdoável, pois para eles a sua "raça" era superior aos mero humanos. Isto tudo a mim não me faz qualquer sentido, mas nunca me arriscaria a ver o Carlos penalizado por minha causa.

- Pequena não fiques assim calada por favor... - sinto uma pontada de angústia na sua voz. Ele podia perfeitamente entrar na minha mente e saber os que estava a pensar mas não quer tirar-me a minha privacidade.

- Nada disso... Apenas quero saber se são apenas os mestres que te impedem...

- O que tu queres saber é se eu sinto algo por ti...

- Sim... - confesso, e sinto-me corar...

- Nê, deu para perceber que sim naquele dia...

Ficamos os dois calados... Ele gosta de mim, eu dele, mas não podemos estar juntos. Nem em segredo, pois os mestres arranjavam sempre maneira de saber... A não ser que...

- Mas se usares o escudo eles não nos vêem! - digo animada pois acho que tive uma excelente ideia.

- Não pequena... Eles conseguem ver-nos... Dependendo das forças e experiencia de cada um de nós existem escudos mais ou menos fortes, e isto acontece com todas as habilidades... O meu escudo auditivo é o mais forte... E é por isso que posso estar a ter esta conversa contigo, no entanto apenas o posso usar com uma desculpa, e a que eu aranjei é a de estarmos a voar, para que ninguém te ouça caso te assustes e grites... Tenho sempre de arranjar uma desculpa para tudo o que faço contigo fora do normal... No entanto, o meu escudo visual é dos mais fracos e apenas impede os humanos de nos verem...

Vamos até à praia, calados, não havia mais nada que pudéssemos dizer, a situação já é frustrante o suficiente. E assim passamos o resto da tarde, abraçados na praia, em silêncio. Não podemos dizer as palavras que desejamos, pelo que transmitimos o que sentimos neste silêncio...

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