À caminho da grande confusão

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Rafael olhava em direção ao corredor com certa preocupação. Estava um silêncio absoluto.

— Eles estão se beijando – sussurrei.

Rafael assentiu preocupado.

— Não sei – falou –, mas de alguma forma... isso não parece certo.

— Por quê não?

— Porque Yuri não é o tipo de cara que leva alguém a sério. – completou.

***

Assim que ele parou de me beijar, respirei surpresa – apesar de ter sido pega desprevenida, o beijo foi maravilhoso, o desejo era evidente, foi meigo e ardente, foi... foi o melhor beijo de todos.

— Será que sou o único que chegou à conclusão de que esse foi o melhor beijo que já dei? – perguntou ele, surpreso, no entanto não hesitou em me beijar novamente. — Bem, você beija... – dizia ele entre beijos. — Super bem.

Ele continuou a me beijar por longos minutos, não foi a falta de ar que nos parou, foi Alice e Rafael.

— A privacidade acabou, então? – minha voz se elevou. — Alice, esse não é o quarto de hóspedes?

— Não fui eu quem deu a ideia. Pelo menos não em vir aqui. – disse ela.

— Bem, eu quem quis vir porque quero falar com Yuri, se não for incômodo – emendou Rafael. Ele gesticulou para que Yuri fosse na frente, e foram em direção à sala.

Eu e Alice trocamos olhares e, sem uma palavra, fomos imediatamente atrás deles. Ficamos na parede superior do corredor, ouvindo a conversa.
A expressão deles eram indecifráveis e eles estavam sussurrando. O que dificultava nossos planos de ouvir a conversa.

— Falei que podia ficar com qualquer menina, menos a Lari – irritou-se com Yuri, o mesmo revirou os olhos. — Não consegue ter juízo nem uma vez na vida?

— Você não manda em mim – rebateu Yuri, levantando a cabeça. — Não vou magoar a Lari. Ela é incrível e eu realmente quero conhecê-la melhor.

— Ele quer me conhecer melhor – sussurrei. — Ele parece sincero.

— Shh – disse Alice. Ela chegou um pouco mais perto, e eu fiquei aonde estava, mas do meu lugar ouvi a voz do Yuri se elevando:

— "Ninguém é perfeito, mas podemos nos esforçar para sermos pessoas melhores."

Ele estava recitando algo, e bem alto.

— Seja como for, já que está disposto a mudar por ela, eu fico feliz – insinuou Rafael. — Mas se apenas ousar machucar a amiga da garota que eu amo... – ele hesitou. — Yuri, você é meu melhor amigo, mas se machucar ela, vai se arrepender de ter me conhecido.

Eu levei a mão até a boca. Pelo semblante de Yuri, Rafael nunca o ameaçara antes.

Nesse momento Alice entrou na cômodo e eu entrei atras dela.
Os dois se viraram surpresos. O clima ficou tenso e nós quatros ficamos em silêncio por um minuto.

— Rafael – Alice começou, parecendo muito confusa.

— Me desculpe – Rafael disse sem jeito. — Não queria ter gritado no seu apartamento.

Alice coçou o queixo pensativa.

— Não entendi a ameaça ao Yuri. – Alice estava tensa demais, como nunca vi. Até eu empalideci.

— Alice, é que...

— Yuri, estou falando com o Rafael. Não te chamei na conversa ainda. Apenas não gostei do modo como o Rafael falou. Ele falou como se a deficiência da Lari fosse um motivo para você apenas querer brincar e se divertir com minha amiga. É mesmo que ele a machucasse, por que com ela não? Todos podemos nos machucar na vida, mas ela é deficiente e não pode levar uma vida comum com os mesmo dramas e problemas que temos? Ela por acaso virou uma criança pela condição atual que se encontra? Então deficientes físicos têm problemas mentais, que eles precisam ser isentos da desilusão e afins? Se ela andasse, não teria problema ele machucar ela, então? Porque me lembro de ter ouvido você falar "todas as meninas, menos a Lari.". Eles podem namorar, ou não. Ela pode se machucar, ou não. Mas o que importa? Nada será o fim do mundo, só os deixe fazer o que quiserem. Eu odeio pessoas que sentem penas, parece inferioridade. Você cursa psicologia e comete uma idiotice dessa?!

Yuri estava parado de boca aberta, Rafael estava parado como estátua, ambos olhavam pra Alice. Sem palavras. Até eu demorei alguns minutos para processar tudo. Alice encarava Rafael friamente.

— Alice – sussurrou Yuri, se aproximando dela cautelosamente, com certo medo. Eu me lembrei de Pedro, de alguns minutos antes de eu ser atropelada, do desespero que senti ao vê-lo com aquela menina; com a intimidade que ela o abraçou por trás: eles pareciam satisfeitos um com o outro, de um jeito que eu nunca me senti com ele, e nem ele comigo, talvez não era pra ser. Se tinha aprendido algo é que se um relacionamento não deu certo, ficar chorando não ia mudar nada.

— Alice – disse Yuri. — Você precisa se acalmar... ele não fez por mau, só quer proteger a Lari e você.

Rafael também chegou mais perto.

— Alice...

Ele estava com olhos suplicantes.
A feição furiosa foi deixando o rosto de Alice, e vi um sorriso suave surgir no lugar.

Yuri olhou dela para Rafael, para mim e se agachou na minha frente.

— Sua amiga – disse ele, a voz calma — te ama incondicionalmente...

Quando olhei pra Alice e Rafael eles estavam abraçados. Porém ela se esquivou dele rápido e disse:

— Não quero ninguém com pena da Lari. – ela gesticulou para Yuri — Isso vale pra você também.

Rafael assentiu e entrelaçou a mão na dela.

Alice foi até a mesa da sala e pegou a chave, Rafael a ficou observando, curioso. Ela foi até a porta e a abriu, então gesticulou para que seguíssemos ela, com certeza ela tinha algo em mente e ninguém fazia ideia do que era. "Não invente de ir ao shopping, Alice", eu implorei mentalmente. Quando todos nós estávamos no elevador, Rafael passou o braço pela cintura de Alice e Yuri se posicionou atrás de mim, para empurrar a cadeira.
Eu bati na mão dele para que ele soltasse.

— Lari, por favor – sussurrou. — Deixe-me fazer isso. Por favor, meu amor. Eu faço porque quero. Eu me sinto bem sendo útil.

— Deixe ele fazer isso ou ele vai te encher o saco – disse Rafael rindo. – Você se acostuma, vai por mim...

— Ok Yuri – falei, me esforçando pra não rir, segurando a mão dele, que me olhava com ternura.

Rafael e Alice conversavam entre si, sussurrando. Assim que as portas do elevador se abriram, vimos as pessoas que menos queríamos ver. Quando Alice reparou, apertou a mão de Rafael mais forte, seus olhos semicerraram.

Me dê amorOnde histórias criam vida. Descubra agora