Um corredor mais escuro ainda nos forçou a andar mais.
Somente com a lanterna, corremos tempo o bastante para temos certeza que os mantos corcunda não tivessem nos seguindo.
Não havia caminhos alternativos, só breu e água pingando.
Por último, sem pestanejar, subimos uma velha escada enferrujada e pulamos de um alçapão.
No próximo segundo, a passagem estava trancada com um pedaço de madeira.
- Meu Deus. - Suspirei, aliviado.
Guardei a arma na cintura.
- Jack, eu não tive tempo de mostrar. - Kay puxou algo do bolso do sobretudo, com a respiração cansada. - Eu encontrei isso no corredor enquanto você lutava com aquelas coisas. Foi o que tropecei antes.
Um círculo de algum tipo de metal com um triângulo e com algumas letras estranhas gravadas.
Parecia algum tipo de amuleto.
- O que é? - Peguei e conferi.
Estava gelado.
- Eu não sei. - Kay sentou-se para descansar. - Deve ser algo da Ordem.
- Eu já...
E então uma dor de cabeça desconfortável e que pareciam agulhas me acertou.
Rolei no chão e coloquei as mãos na cabeça.
O amuleto pareceu pegar fogo e eu o larguei, caindo estrondoso no chão.
Kay o pegou e devolveu ao bolso.
- Melhor eu levar. - Sua mão tocou meu ombro. - Tudo bem?
Levou um tempo até conseguir abrir os olhos.
- Eu vou melhorar. - Levantei. - Melhor a gente continuar.
Estávamos num tipo de loja.
A porta da frente estava aberta e um silêncio perturbador parecia vir do corredor.
Pelo que dava pra perceber, era um tipo de padaria.
Todos os pães e bolos estavam mofados e cheiro era horrível, então o desejo de sair era imediato.
- Uma chave. - Disse Kay. - E tem uma nota.
- Onde? - A segui até uma das mesas, onde descansava um bolo de aniversário carcomido por vermes.
Uma chave dourada com os dizeres Vestal Gigastore.
- Aonde será que fica isso? - Perguntei.
- Deve ter um mapa. Se tem outras lojas, devemos estar num tipo de Shopping. - Kay olhou em volta.
Nada.
- Vem, vamos nas outras lojas. - Eu disse, tirando a arma da cintura.* * *
As primeiras lojas decepcionaram, mas o bom é que encontramos alguns kits de primeiros-socorros.
Kay enfaixou os estragos feitos pelo esqueleto gigante e eu procurei alguns documentos que ajudassem.
Era provável que Mercy estava fazendo isso, mas ainda era meio impossível acreditar.
Quando abri uma caixa registradora numa loja de eletrônicos, havia um papel dobrado; um desenho infantil e rabiscado de uma bruxinha voando em uma vassoura com os dizeres: "SOU EU".
Não o levei comigo, só saímos da loja e continuamos no corredor assustador e maligno do Shopping.
Cruzamos muitos corredores procurando uma escada, mas parecia que ela não existia.
Corredores pareciam dar em mais corredores.
Ao cruzar outro pela vigésima vez, algo formou-se na sombra.
Apontei a lanterna.
- Olá? - Eu disse.
Um choro fino surgiu e reconheci um corpo humanoide com cabelos longos.
Estava abraçado com alguém - que era quem chorava.
- Finalmente. - Kay sorriu. - Senhor, eu sou uma oficial, pode se acalmar. Estamos procurando uma saída e...
Quem quer que estivesse abraçando, a pessoa a deixou cair.
O peito estava aberto de modo selvagem, jorrando sangue no chão cheio de fuligem.
O ser de cabelos enormes não abriu somente dois braços, mas quatro.
Não sei como não havia percebido os traços do corpo bizarro antes.
O monstro virou-se, revelando um rosto com simplesmente um nariz.
Os olhos estavam nas palmas das mãos, chorando um líquido preto pegajoso.
Uma boca sedenta abria e fechava em seu peito.
O ser farejou o ar.
- Corre! - Disse, para Kay.
Saímos em disparada pelo corredor de onde viemos.
Passamos da loja de eletrônicos e...
Aquele corredor não existia.
Imaginava, como os mantos, que a criatura já havia sumido, mas ela apareceu subitamente, grudando com suas mãos nas paredes.
Não arrisquei tentar atirar.
Contornamos um complexo de lojas de produtos de limpeza e encontramos barricadas em alguns corredores, como se um terremoto tivesse derrubado aquelas pedras ali.
Muitos corredores também apareceram, mas parecia que o monstro que nos guiava, e não nós o despistávamos.
Após minutos de perseguição, a praça de alimentação se abriu como se tivesse escondida até o momento.
Me joguei debaixo de uma mesa, mas Kay continuou correndo.
O monstro passou direto, pisando na mesa e pulou.
Puxei a arma, engatilhei e...
POW!
Errei.
A criatura se voltou para mim, mas agora, em minha frente, foi mais fácil acertar.
Um, dois, três tiros.
O monstro caiu no chão.
Peguei uma cadeira, a levantei acima da cabeça e o joguei em cima dele.
O chutei até parar de ver seu peito mover-se.
Estava morto.
- Jack! - Kay correu até mim.
- Estou bem. - Me sentei, cansado. - Só estou exausto. Meu Deus...
- Não seria melhor descansar então? Você não pode se cansar desse jeito. - Kay disse, com a mão em meu ombro.
- Eu estou bem. - Eu levantei. - Vamos procurar a Gigastore.
- Eu vi uma escada. - Kay apontou sorrindo para o lado do restaurante Happy Burguer.
Espere...
Havia alguém lá.
- Mercy! - Gritei, agora com raiva.
Deixei a lanterna para Kay pegar, mas não soltei a arma.
Ia resolver isso naquele momento.
Voei pela porta do restaurante, mas não havia nada lá.
Procurei no interior, mas somente na cozinha encontrei uma única foto.
Estava em cima de um fogão, onde uma única luz iluminava.
Era uma garotinha com rosto indiferente e estranhamente triste, tentando não olhar para a câmera.
- Eu conheço essa menina. - Disse Kay. - Em 1999, uma policial de Brahams desapareceu nessa cidade. A polícia seguiu algumas pistas que levaram à mãe dela. Dalila... Algo assim.
Achei melhor levar a foto comigo, então a tirei da moldura.
Havia um pequeno texto atrás."PELO DEUS AMARELO E PELO DEUS SUPREMO QUE VEM DOS CÉUS, ALIMENTO E FAÇO DE MINHA FILHA A LUZ QUE NOS GUIARÁ.
Ó DEUS, ALIMENTE-A COM TUA FORÇA E DEIXE-A VIVA PARA QUE POSSA SERVI-LO EM SEU PROPÓSITO MAIS IMPORTANTE.
POTENTIAE DOMINI SEMPER SPIRANT, DAHLIA."- Eu não entendi, de novo. - Disse Kay.
- Deve ser algum tipo de feitiçaria. - Eu disse, observando os dizeres. - Alguém parecia querer deixar essa menina viva. Tem DAHLIA no final da oração, mas não sei se é a mesma que estava envolvida nesse caso de 99 como você falou.
- Você deduz muito, Jack. - Kay sorriu. - Se sairmos vivos daqui, talvez possa virar um detetive também.
Eu sorri.
- Talvez. - Guardei a foto. - Deve ter algo na história dessa garota, e eu preciso descobrir.
Houve um minuto de silêncio enquanto pensava.
- Se estivermos perto da loja de antiguidades, tem um bairro ao sul daqui que tem uma igreja. - Kay comentou. - Não que eu tenha mexido em documentos oficiais pra incrementar minha investigação, mas ouvi falar que a mãe dela era religiosa.
- Ótimo. - Eu disse. - Já sabemos aonde ir.
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Silent Hill : Sacrifício
HorrorQuem nunca sentiu aquele profundo sentimento de carência amorosa ? Quem nunca faria qualquer coisa por alguém ? Jack Fallacibus enfrenta a perda da esposa, Mercy, para outro homem. Nessa fase de loucura, acaba partindo atrás da amada e seu amante...