Eu ouvia vozes... Vozes distantes, e o que diziam era indecifrável para mim.
Eu não sei o que acontece quando morremos, mas acredito que no tempo em que estive inconsciente após entrar na mansão, eu cheguei bem próximo deste estado, seja ele qual for.Meus olhos demoraram para se acostumar com o ambiente mais claro. De certa forma, ainda era escuro, mas uma claridade próxima já era muito mais intensa do que eu tinha conseguido a pouco tempo com uma lanterna fraca.
Eu estava deitado em um colchão que forrava uma prancha de madeira ligada à parede por duas correntes. Uma cama improvisada no canto de um cativeiro. As paredes de pedra, rústicas e úmidas se estendiam até uma única grade, trancada por um enorme cadeado ligado a uma corrente. Percebi que havia um corredor, e a iluminação que vinha dele era quente e bruxuleante.
Levantei lentamente. Minha cabeça doía, mas minha mão direita queimava, e eu estava sem minha luva. Só quando arrumei forças suficientes para me aproximar da porta da cela, pude ver que o corredor era iluminado por duas tochas presas nas paredes, mas não havia ninguém a vista. Aproveitei para olhar a mancha em minha mão, e quase desmaiei novamente.
Toda a pele da minha mão até alguns pontos próximos ao pulso estava negra. A mancha havia se espalhado e as pequenas veias que ela soltava agora pareciam rodear meu braço acima.
Tentei me manter calmo e colocar as ideias no lugar. De certa forma, eu tinha certeza de que ainda estava na mansão, não sabia em que ponto dela exatamente, mas tinha certeza de que estava dentro dela.
Tentei me lembrar do que ocorreu antes, mas tudo que vinha na minha cabeça eram os quartos com bonecos. O que era aquilo? Que tipo de bizarrice havia acontecido nesse lugar?
Minha mente começou a devagar, e eu vomitei novamente. Estava com uma fome destruidora e meu estômago estava vazio.
O gosto amargo do enjôo tornou a dor de cabeça ainda pior.
Imagino que fiquei quase uma hora sentado no chão da cela dessa forma agoniante quando ouvi o barulho de uma porta abrindo. Me arrastei imediatamente para longe da cela e me escondi em um canto mais escuro, não muito longe da grade da minha porta.
Ouvi barulhos de passos, mas eram mais de uma pessoa. Sussurravam um com o outro no mesmo ritmo apressado com que caminhavam. Percebi suas sombras passarem pela luz que se projetava no chão, através da minha grade na porta. Eles seguiram o corredor e ao longe ouvi barulhos de metais chacoalhando, o que deduzi serem chaves. Uma porta foi aberta e quando as sombras voltaram a passar no corredor, reparei que carregavam alguém desacordado.
Com medo, mas sentindo a necessidade, resolvi espiar brevemente para ver oque poderia ser tudo aquilo. Apenas um vislumbre de duas pessoas com mantos escuros carregando um rapaz loiro foram mais do que suficientes pra mim. Quando ouvi a porta se fechar, comecei a chorar.
Eu sabia que era o Troy. E se ele estava aqui, com certeza haviam pego Anna também.
Comecei a tremer e a ânsia voltou. Eu vomitava saliva enquanto chorava aos soluços, caído no chão de pedra da minha cela.
Algo estava muito errado. Nós havíamos sido sequestrados.
A mansão realmente existia, então Willburn Elderwood não era apenas um maluco.
Comecei a delirar. E se ele estivesse lá? E se ele fosse nosso captor?
Impossível ou não, eu já estava delirando de fome, de sede e de medo. Só conseguia pensar em Susan. Ela teria conseguido escapar? Conseguiria encontrar ajuda?
E se eles a pegassem?
E se Alan a pegasse?
Meu Deus... Alan...
Eu passei horas em agonia e choro, sem ter noção nenhuma de tempo naquele cativeiro abissal.
Desmaiei e acordei diversas vezes, só para ver um corredor iluminado por tochas, e minha vida obscurecida pela culpa.
Era tudo culpa minha...Após acordar mais uma vez no chão, com a garganta seca e o estômago doendo, meus olhos se arregalaram.
Do lado de dentro da cela, bem na minha frente, uma bandeja com carne bem passada, uma jarra de água com gelo, alguns vegetais frescos e uma maçã bem vermelha, tudo havia sido deixado alí dentro. Comi praticamente deitado. A carne era a melhor parte. Costela, logo percebi, bem firme e temperada. Bebi toda a água em alguns intervalos e fiquei mastigando o gelo.
Enquanto eu comia a maçã, sentado na cama improvisada, minha mente começou a trabalhar melhor e mais confiante, e uma curiosidade mórbida nasceu em cima de meus sequestradores.
O que viria a seguir?
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Raízes Despertas
HorrorUm grupo de amigos em busca de diversão e tranquilidade em um parque ambiental. Talvez a calmaria desperte interesses incomuns entre o grupo ou desperte coisas mais frodundas quanto as raízes no solo.