7. Alguma coisa nossa

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"Ralei meu coração num ralador de pia e escorri lágrimas, variei por dias."

– Liniker e os Caramelows

O caminho de volta para casa foi silencioso por culpa da minha introspecção. As palavras de Manuela ecoavam na minha cabeça num loop infinito e quase demoníaco que eu não conseguia interromper, por isso Cássio se manteve calado após o décimo "o que houve?" não respondido.


Quando atravesso a porta de casa, vou direto à geladeira e abro uma das cinco garrafas de vodca que havia sobrevivido da sexta-amaldiçoada. Sinto a necessidade de embebedar-me, pois, no momento, não sou capaz de encarar a realidade.

— Não, mana! – Cássio toma a garrafa da minha mão e eu sinto uma raiva incomum, uma vontade de soca-lo, porém, perceber isso, me faz ver o quão absurdo seria cometer tal ato. Ele é meu melhor amigo. E, por incrível que pareça, contenho o impulso. Respiro fundo.

— Por que não? – Digo com os dentes e os punhos cerrados, mas ele não parece sentir medo. E eu sinto medo por isso.

— Porque não é saudável. – Ele vai mesmo se valer de um argumento tão medíocre? Reviro os olhos dando um sorriso de descrença. — Não falo nesse sentido. – Ele parece ofendido e eu me esforço para não rir. — Falo no sentido de que criar uma dependência para fugir dos seus problemas não vai resolvê-los, pelo contrário, só vai te dar mais uma ou várias preocupações. – Ele coloca a garrafa na geladeira e a fecha, voltando a me encarar e a raiva se mantem por algum tempo no meu corpo, mas logo se esvai.

Vou à sala sem esbarrar nele e sento no sofá.

— Vai jantar? – Percebo o tom triste em sua voz e isso me quebra um pouco, mas logo escuto o som da faca batendo na tábua de cortar.

— Vou sim. – E eu penso em levantar para ajuda-lo, mas aproveito para analisar nossa casa, nosso cubículo. Sempre faço isso quando preciso me distrair. Desta vez, percebo as nossas personalidades em harmonia na forma como decoramos e organizamos tudo, o que acaba fazendo com que as nossas peculiaridades se ocultem, transformando a estética do ambiente em algo único. O cubículo nos dá boas vindas com uma sala comum, um tapete de arco-íris ao pé da porta e ao seu lado esquerdo, uma mesinha comum onde deixávamos as chaves. A sala possui um sofá com dois lugares, uma estante em preto e branco onde fica a televisão, alguns livros e CDs, tudo bem limpo, sem muita informação, já que a bagunça está escondida. E seguindo em frente, passando entre o sofá e a estante, acha-se a cozinha.

— Posso ajudar? – Pergunto após levantar e ficar próximo a ele. Cássio não fala nada, mas movimenta a cabeça positivamente e eu sei que ele está magoado.


Depois da janta, arrumamos a casa e cada um foi para o seu quarto.

O silêncio que estamos alimentando está me incomodando muito e lembrar que um dia eu jurei a mim mesmo não estabelecer relações vazias, como meus pais fizeram comigo, me faz ter forças para parar de dar comida a esse monstrinho chamado "desentendimento".

— A gente pode conversar? – Pergunta Cássio no momento em que eu estou prestes a sair do meu quarto para ir lhe fazer a mesma pergunta. Apesar do sorriso, meu semblante exala preocupação.

— Claro. – Ele passa pela porta e se senta na minha cama, e eu faço o mesmo, estabelecendo contato visual logo em seguida.

— Desculpa ser tão chato contigo...

— Não. – Eu o interrompo. — Você não tem que me pedir desculpas, o errado aqui sou eu. Me desculpa, mana? – Seus olhos marejam e eu não consigo evitar fazer o mesmo. Nos abraçamos imediatamente.

Como superar o EX [EM PAUSA]Onde histórias criam vida. Descubra agora