Capítulo 1

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 Cheguei ao estacionamento da escola faltando pouco mais de dez minutos para a batida do sinal anunciando a primeira aula do dia, os alunos que ainda restavam por ali andavam apressados para chagarem à suas salas. Ajeitei a mochila no ombro e continuei andando em direção à minha classe. Arielle que estava ao meu lado resmungava algumas coisas incompreensíveis enquanto tentava não tropeçar.

 Arielle é minha melhor e única amiga. Nós nos conhecemos desde a infância e, desde então, nossa amizade só evoluiu, não há praticamente uma coisa que uma não saiba sobre a outra. A questão é que estávamos sempre juntas, sempre que eu precisava, ela estava ali, e sempre que ela precisava, eu estava lá.

 Ela é bem diferente de mim em aparência, a não ser pela altura, que é praticamente a mesma: 1,68m. Ela tem os cabelos escuros e grandes, olhos castanhos e um corpo cheio de atributos. Eu, por outro lado, sou completamente diferente, acredito que grande parte do que há em mim herdei da minha mãe, apenas a cor dos olhos que devia ser do meu pai. Tenho o cabelo cumprido com leves cachos e ruivo, natural. Assim como a minha mãe não nasci com tantas sardas, é algo pouco visível, meus olhos são acinzentados, assim como os do meu pai.

 Minha mãe morreu em um acidente quando eu tinha seis anos de idade. Ela estava em uma casa em chamas; disseram que foi para salvar alguém, mas até hoje não descobri quem. Alguma coisa lá dentro caiu em cima dela e a prendeu. Ninguém conseguiu salvá-la, já que a casa estava tomada pelo fogo. Tenho algumas lembranças dela; mínimas, mas não deixam de ser importantes. Era algo trágico, mas saber que ela tinha morrido para salvar alguém me deixava mais tranquila. Para mim ela sempre iria ser minha heroína.

 Tinha retratos dela, e por isso sabia que éramos parecidas, tanto no cabelo e tanto na personalidade. Bom, na personalidade um pouco já que ela era bem mais divertida que eu.

 Eu e meu pai decidimos conservar um túmulo para ela no cemitério mais próximo, meu pai achou que seria melhor assim, seria uma forma de nos sentirmos mais perto dela. Eu não fui contra, gostava de visitar o túmulo dela; levar flores e ficar lá conversando como se ela pudesse me ouvir. Isso me fazia sentir que ela estava por perto olhando por mim e meu pai, e também não poderia deixar o lugar abandonado, porque apesar de a ideia ter sido do meu pai, ele só visitava o túmulo no aniversário dela. Era doloroso demais pra ele.

 Após aquele incidente, meu pai decidiu se tornar bombeiro. Na época, tinha um emprego bom e ganhava bem, mas a morte dela teve tanto efeito nele quanto em mim; ele se culpava por não ter estado lá quando ela precisou e também se sentiu melhor ao saber sobre o heroísmo dela. Com o tempo ele viu que queria ser como ela: queria salvar pessoas. Era uma forma de recompensar o que aconteceu no passado. Até hoje ele continua nessa carreira, e acredito que por causa dele muitas famílias estão vivendo felizes e agradecidas. Ele se tornou chefe dos bombeiros e o melhor amigo dele, Nicolas trabalha na polícia.

— Ei, Verônica, está me escutando? — chamou Ariel, me cutucando com o braço. — Estou falando com você há uma hora e acho que nem escutou o que eu te disse.

— Desculpe! Estava concentrada em chegar à sala de aula logo. Sabe muito bem que o Senhor Hubermann odeia atrasos.

— E por acaso sou culpada pelo nosso atraso? — perguntou ela. Fiz que sim com a cabeça, porque era verdade.

 De cem por cento dos nossos atrasos poderia dizer que noventa e nove por cento era culpa dela. Algumas vezes porque acordava atrasada, outras porque ainda estava se arrumando, e assim por diante.

 Chegamos à sala de aula do senhor Hubermann em cima da hora. Assim que nós entramos, ele já apareceu e lançou aquele olhar ameaçador que dizia "eu-sei-que-se-atrasaram-e-não-gostei-nada-disso". Ele era professor de biologia. O bom dele é que ele não era tão chato, ele pegava no pé para que os alunos se concentrassem na aula dele, mas não era aquela coisa que fazia as pessoas detestarem um professor. Havia alunos que não gostavam dele, óbvio, mas é praticamente impossível agradar todo mundo.

Broken:  Basta um verdadeiro amor para unir o que antes foi quebradoOnde histórias criam vida. Descubra agora