Parte 3 - Doutor

7 2 0
                                        



- Doutor! Doutor! – Um garoto bate desesperado em uma porta de ferro que abre para uma movimentada rua no centro da cidade. – Doutor, você precisa me ajudar!

Após longas e pesadas batidas, a porta se abre e o homem, por trás de óculos quadrados, puxa pelo braço aquele que batia e imediatamente fecha a passagem de novo.

- Como você chegou até aqui?

O lugar parece uma espécie de garagem, mas sem carros e apenas várias prateleiras de madeira vazias e empoeiradas, como se estivesse abandonado há muito tempo.

- Eu decorei o caminho, cara. A gente precisa voltar com os testes, eu preciso de dinheiro, eles estão me cobrando! Em todo lugar que vou, eles estão me seguindo. Se eu não pagar, eles vão me matar! Você tem que me ajudar, Doutor!

- Que conversa é essa? No que você está se metendo?

- Você não vai querer saber, é muito perigoso. Eu só preciso do dinheiro e deixo você em paz, doutor. Vamos fazer um novo teste e eu simplesmente desapareço, eu prometo! – Ele faz o juramento com as duas mãos juntas apontadas para o céu, olhando tão firme nos olhos do cientista, que é impossível negar ser verdade o desespero.

- É perigoso. Da última vez, os efeitos foram danosos.

- Doutor, se eu não tiver o dinheiro, eu vou morrer.

- Fica calmo. Eu posso te pagar adiantado, você se acerta e aí a gente pode pensar em alguma coisa... um retiro de desintoxicação... e então, voltamos com os testes.

- Não! É muito dinheiro. O que você precisa é me usar de cobaia mais uma vez, fazer os ajustes necessários e vender essa droga em grande escala. – O garoto suspira e seus olhos se enchem de lágrimas, em seguida atravessa o doutor e puxa a porta de um alçapão. – É o único jeito, dotô!

- Quem são eles? Quanto de dinheiro? – O cientista questiona sem dar sequer um passo.

- Cem mil reais. Eu não posso dizer quem eles são.

- Se eu aplicar a droga em você, os riscos são incalculáveis, você pode morrer.

- Se a gente não fizer isso o mais rápido possível, eu vou morrer de qualquer jeito.

Os dois descem por uma longa escadaria, a qual o alçapão dá acesso e chegam até um laboratório, onde a assepsia contrasta com a sujeira do piso superior. Equipamentos de alta qualidade, amostras de tecidos dentro de potes de vidro cheios de formol e em uma pequena sala ao fundo, protegida por uma parede falsa, gaiolas com pequenos roedores brancos que se alimentam para manter a saúde.

Assim que chegam, o garoto deita em uma cadeira semelhante à de dentistas e se ajeita estranhamente satisfeito por estar pondo sua vida em risco em troca de uma injeção.

- Doutor, o que levou você a fazer isso? – Com uma pergunta singela, o garoto leva o cientista a acessar suas memórias do passado e deixar passar despercebido o tremor em seus olhos, dedos e os leves espasmos no pé. – Não quero passar dessa sem saber esse mistério.

Enquanto executa os procedimentos para iniciar os testes, o cientista não vê problema em revelar algumas coisas do seu passado e até ri um pouco ao se lembrar de algumas coisas.

- Eu era apenas um garoto ingressante na universidade pelo sistema de cotas, que precisava trabalhar pra pagar minhas despesas básicas e ainda ter um dos melhores desempenhos da classe.

Nada demais para alguém apaixonado pelo que faz, até surgir alguém que eu amasse ainda mais. Os cabelos encaracolados de uma estudante de artes cênicas e seu sorriso com uma pinta acima dos lábios me tirou as horas de sono e o sossego, enlouquecendo todo o hormônio que acumulei durante uma adolescência inteira intercalando entre computador, séries de ficção científica e microscópios.

Meu primeiro microscópio, eu ganhei quando tinha 5 anos e desde então, meu pai me presenteava com um melhor a cada ano, tornando fazer observações microscópicas o meu maior lazer. Plantas, sementes, insetos e amostras que eu mesmo dava: sangue, sêmen, espinhas, saliva, eram o meu mundo. Quando você desvenda o micro, compreende o universo; e a sua grandeza deixa de ser assustadora para se tornar apaixonante, pela sua gentileza de proceder de forma lógica e racional, natureza que nós herdamos e fazemos uso.

Exceto quando amamos, aí é como a multiplicação das células, que por mais que seja possível explicar cientificamente, contemplar é como um milagre, em que se pode ver aquilo que era minúsculo tomar proporções gigantescas, até que sai do controle e revela uma nova verdade.

Foi desse jeito com ela, especificamente quando me tirou as vendas que eu me apegava e me revelou que estamos limitados a estas duas circunstâncias: tempo e espaço; e a primeira demonstração disso foi minha primeira nota vermelha no semestre.

Ou eu me dedicava à mulher da minha vida, ou eu garantia minha vaga na universidade. – Disse meu professor. – E na opinião dele, a primeira opção eu poderia recuperar, a segunda, se eu perdesse, era um caminho sem volta e o desperdício do que poderia ser uma carreira brilhante.

Eu até estava disposto a realmente investir menos tempo em namoro, mas a ideia passou depois de uma tarde inteira fazendo amor.

Meu primeiro passo foi me livrar das coisas que realmente roubavam meu tempo. Eu pedi demissão daquele trabalho que me pagava três reais por hora, eu saí da bolsa-pesquisa, eu me mudei de um apartamento para o quarto da moradia estudantil, de modo que não precisaria gastar com transporte, e com uma articulação assertiva, consegui dividir o quarto com minha futura esposa. Esta jogada me permitiu um corte de gastos de 90%, embora tenha cortado minha fonte de renda em 100%. Apesar de levar uma vida simples de estudante, ainda precisava comer, vestir, ter um tempo pra lazer e agradar a mulher mais perfeita do mundo, mesmo ela estando completamente ciente do passo estratégico que estávamos dando para alcançar o sucesso em nossas vidas.

Levando tudo isso em consideração que eu tive a grande ideia. Era uma noite chuvosa, fria, a cama gritava pelo meu nome, mas eu estava travado em uma parte sobre "A Sinapse" e seu somatório espacial e temporal. Eu sabia que as sinapses podiam acontecer de forma elétrica ou química, mesmo assim, meus olhos ficaram presos em um loop eterno entre o potencial excitatório pós-sináptico e o potencial inibitório pós-sináptico, eu precisava estudar todo aquele conteúdo para a avaliação do dia seguinte e não conseguia avançar.

Minha atenção se voltava para aquele trecho por algum motivo. Quando resolvi parar para o café e refletir um pouco, quando a cafeteira elétrica terminou o seu processo, eu entendi.

Finalizei meus estudos por aquela noite e fui até o laboratório da universidade, onde iniciei minha própria pesquisa. Analisei compostos estimulantes e suas reações quando combinados.

Eu ainda precisava ir pra aula, a prova seria aplicada e eu não tinha estudado o conteúdo todo da forma como deveria. Sem muita coisa para perder, apliquei o composto que havia acabado de criar em mim e imediatamente me senti diferente, como se estivesse pronto para correr uma maratona.

Entrei na sala meia hora mais cedo do que deveria e resolvi revisar o conteúdo. O meu foco estava em um grau tão avançado, que aquele tempinho foi suficiente para revisar e ler todo o conteúdo. Durante a prova, meu desempenho foi melhor do que o esperado, alcançando a nota máxima. Naquele momento, eu pensei ser capaz de vencer o tempo, então o que seria vencer o espaço? Ao chegar em casa, amei minha mulher como gato no cio e capotei.

Eles chamam de gênios os criadores da alta tecnologia que nos tornamos dependentes cada vez mais, eles investem bilhões nesse lixo que disfarça nossas limitações físicas de tempo e espaço, tudo para tornar o ser humano um pouco menos fraco. Acontece que não somos fracos. O ser humano é a espécie mais poderosa que existe e já existiu, tendo a capacidade infinita dentro do que concebemos como real.

Bilhões, trilhões, vai saber quanto dinheiro já foi despejado na criação de máquinas, quando a maior de todas nós já nascemos possuindo: o cérebro.

Ao concluir a história, o garoto já está coberto por eletrodos que vão monitorar suas atividades fisiológicas, amarrado com fivelas para a sua própria segurança e preparado para receber a dose da nova droga em que o cientista se empenha todos os dias para alcançar a perfeição.

- Preparado?

- Sim. – O rapaz responde com um sorriso.

Bagulho EstragadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora