Ao sair do apartamento, procuro por aquele homem misterioso, mas nem sinal. Partimos com a moto em direção à ponte da Nelson D'ávila. Eu começo a tremer, como se estivesse à noite mais fria de todos os tempos. Estamos prestes a nos tornar traficantes?
Bernardo pega seu celular e liga para Mélly, que diz estar no Habibs e nós os encontramos lá. Agradeço aos céus por isto, umas boas esfihas vão ajudar no auto-controle. Eles percebem meu estado e se preocupam com minha cor pálida, por isso puxam uma cadeira para que eu me sente.
- Ainda temos vinte minutos.
- Quem topa uma dose?
- Não dá tempo.
Deixamos nossos veículos no estacionamento do Habib's e vamos a pé até a ponte, onde ficamos sob a luz de um poste, eu fico abraçada com Mélly, que carinhosamente me empresta seu calor.
Os três mauricinhos param de carro bem na nossa frente e perguntam "Trouxe?". Bernardo faz sinal pra eles pararem o carro em um estabelecimento mais à diante. É como se ele já fizesse isso há anos, mas o conhecendo bem como eu conheço, sei que é tudo improviso.
Assim que os três compradores se aproximam, Bernardo pergunta:
- Cadê o dinheiro?
O mesmo que conversou com a gente na casa/bar tira um bolo de dinheiro do bolso e conta vinte notas de cem.
- Agora você.
Bernardo tira o tablete de dentro da jaqueta e estende para o cara, que não pega e guarda o dinheiro.
- Eu quero fumar primeiro.
- Vamos embora. – Bernardo diz virando as costas.
- Ei! – Nós olhamos pra ele de novo e aguardamos o que ele tinha a dizer. – Você quer que eu te entregue dois mil reais e não vai me deixar experimentar? Não me leve a mal, mas eu não te conheço e não quero ser feito de idiota.
A gente para e troca olhares, jogando aquele jogo.
- Certo! Você tem razão. Acho que estou sendo um pouco ríspido.
Be tira um canivete da jaqueta e todos vão pra trás intimidados, então apóia a droga no parapeito e faz um rasgo, em seguida tira de lá um pedaço e por fim entrega o tijolo nas mãos de Marcão. Enquanto ele desmancha, permanecemos em silêncio e eu fico morrendo de medo de passar alguma polícia.
- Tem seda?
Um dos caras entrega pra nós e Bernardo enrola, fazendo um belo cigarro, nisto, ele enfia a mão no bolso da jaqueta, pega seu isqueiro e acende o baseado. Dá um trago profundo e passa pra mim.
- Está sentindo o cheiro? – Nosso guitarrista metido a traficante questiona instigador e solta a fumaça pelo nariz. – Vai ser o melhor bagulho que você já fumou.
Fazemos uma roda em que eu sou a próxima e depois de tragar, passo para Mélly, que fuma e passa para Marcão, que volta em Bernardo, após uma longa bicada .
- Pronto para dar os tragos que você queria?
Os três começam a rir, já loucos de tabela, mas nós permanecemos sérios e em silêncio. O líder deles estende a mão, pedindo o cigarro para Be, que faz que não com os dedos.
- O dinheiro.
- Você venceu.
O rapaz entrega o dinheiro, Bernardo entrega o baseado e depois Marcão passa o tablete para um dos outros rapazes, eles saem fumando satisfeitos e nós saímos em direção ao Habib's dois mil reais mais ricos.
- Ei! – Ele grita chamando nossa atenção de novo. – Vocês são os Fighting and Flighting, não são?
O fato de eles nos conhecerem faz todos os meus pêlos arrepiarem de um jeito muito ruim, como em um péssimo pressentimento.
- Eu sabia! Eu sou o Jorge. O som de vocês é legal, mas a baixista... ela é fora de sério... Sensacional!
Mélly ri, balançando a cabeça em negação e continuamos nosso caminho até o estacionamento, nesta hora um carro de polícia passa por nós. Acabamos a negociação bem na hora.
- Merda! O que foi que aconteceu? – Pergunto incrédula quando chegamos no estacionamento.
Bernardo começa a rir sem parar.
- O que a gente faz agora? – Mélly também está um pouco atordoada, apesar de disfarçar isso melhor do que eu.
- Podemos fazer qualquer coisa, baby! Temos dinheiro! – Bernardo sacode as notas, como se acabasse de se tornar o homem mais rico do mundo.
- Aquilo era mesmo maconha? – Marcão pergunta com uma cara de nojo e Bernardo ri mais ainda. – Tinha cheiro de merda.
O maluco beleza deita no chão e começa a rir muito, coloca a mão na barriga e dá uma risada incessante, até seus olhos começarem a lacrimejar e parecer lhe faltar ar. Ele estende a mão para nós, enquanto não para de rir e todos nós seguramos nossos queixos.
- Cheira.
De alguma forma, a mão que Bernardo usou para dichavar o beck que ele bolou pra gente está cheia de cocô de vaca. Como?
- Ah, vai lavar isso! – Mélly o empurra.
Marcão também não aguenta e começa a rir muito.
- Mas a gente fumou.
- Tem certeza? – Bernardo então tira do bolso o baseado, joga no chão e pisa em cima com seus coturnos. – Diga não às drogas!
- Como você fez isso? – Pergunto ainda incrédula.
- Oh, qual é, vocês não entendem nada de ilusionismo.
- Aquele era o baseado que você bolou no bar, você trocou quando foi pegar o isqueiro. Foi por isso que você não me deixou fumar um pouco na sua casa e deixou o tablete nas mãos do Marcão, pra que eles não sentissem o cheiro. – Eu deduzo.
- Garota esperta!
- Quem quer torrar dinheiro?
- Eu! – Grito.
- Isso vai dar merda. – Mélly diz. – Aqueles caras conheciam a gente.
- E eles vão fazer o quê? A hora que perceberem, já vamos ter gasto tudo. Fora que pelas caras deles, é bem capaz que eles fumem a bosta da vaca.
Esta é. Definitivamente. A noite mais insana da minha vida. Eu e Bernardo vamos de moto a uns 200 km por hora e eu grito, quase soltando meu coração pela boca. Atrás de nós, tão empolgados quanto, estão Marcão e Mélly, eles buzinam insanamente, enquanto andamos a deriva pelas estradas da cidade.
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Bagulho Estragado
AkcjaOs quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada. Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
