Parte 01.3 - Jéssica

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Ao sair do apartamento, procuro por aquele homem misterioso, mas nem sinal. Partimos com a moto em direção à ponte da Nelson D'ávila. Eu começo a tremer, como se estivesse à noite mais fria de todos os tempos. Estamos prestes a nos tornar traficantes?

Bernardo pega seu celular e liga para Mélly, que diz estar no Habibs e nós os encontramos lá. Agradeço aos céus por isto, umas boas esfihas vão ajudar no auto-controle. Eles percebem meu estado e se preocupam com minha cor pálida, por isso puxam uma cadeira para que eu me sente.

- Ainda temos vinte minutos.

- Quem topa uma dose?

- Não dá tempo.

Deixamos nossos veículos no estacionamento do Habib's e vamos a pé até a ponte, onde ficamos sob a luz de um poste, eu fico abraçada com Mélly, que carinhosamente me empresta seu calor.

Os três mauricinhos param de carro bem na nossa frente e perguntam "Trouxe?". Bernardo faz sinal pra eles pararem o carro em um estabelecimento mais à diante. É como se ele já fizesse isso há anos, mas o conhecendo bem como eu conheço, sei que é tudo improviso.

Assim que os três compradores se aproximam, Bernardo pergunta:

- Cadê o dinheiro?

O mesmo que conversou com a gente na casa/bar tira um bolo de dinheiro do bolso e conta vinte notas de cem.

- Agora você.

Bernardo tira o tablete de dentro da jaqueta e estende para o cara, que não pega e guarda o dinheiro.

- Eu quero fumar primeiro.

- Vamos embora. – Bernardo diz virando as costas.

- Ei! – Nós olhamos pra ele de novo e aguardamos o que ele tinha a dizer. – Você quer que eu te entregue dois mil reais e não vai me deixar experimentar? Não me leve a mal, mas eu não te conheço e não quero ser feito de idiota.

A gente para e troca olhares, jogando aquele jogo.

- Certo! Você tem razão. Acho que estou sendo um pouco ríspido.

Be tira um canivete da jaqueta e todos vão pra trás intimidados, então apóia a droga no parapeito e faz um rasgo, em seguida tira de lá um pedaço e por fim entrega o tijolo nas mãos de Marcão. Enquanto ele desmancha, permanecemos em silêncio e eu fico morrendo de medo de passar alguma polícia.

- Tem seda?

Um dos caras entrega pra nós e Bernardo enrola, fazendo um belo cigarro, nisto, ele enfia a mão no bolso da jaqueta, pega seu isqueiro e acende o baseado. Dá um trago profundo e passa pra mim.

- Está sentindo o cheiro? – Nosso guitarrista metido a traficante questiona instigador e solta a fumaça pelo nariz. – Vai ser o melhor bagulho que você já fumou.

Fazemos uma roda em que eu sou a próxima e depois de tragar, passo para Mélly, que fuma e passa para Marcão, que volta em Bernardo, após uma longa bicada .

- Pronto para dar os tragos que você queria?

Os três começam a rir, já loucos de tabela, mas nós permanecemos sérios e em silêncio. O líder deles estende a mão, pedindo o cigarro para Be, que faz que não com os dedos.

- O dinheiro.

- Você venceu.

O rapaz entrega o dinheiro, Bernardo entrega o baseado e depois Marcão passa o tablete para um dos outros rapazes, eles saem fumando satisfeitos e nós saímos em direção ao Habib's dois mil reais mais ricos.

- Ei! – Ele grita chamando nossa atenção de novo. – Vocês são os Fighting and Flighting, não são?

O fato de eles nos conhecerem faz todos os meus pêlos arrepiarem de um jeito muito ruim, como em um péssimo pressentimento.

- Eu sabia! Eu sou o Jorge. O som de vocês é legal, mas a baixista... ela é fora de sério... Sensacional!

Mélly ri, balançando a cabeça em negação e continuamos nosso caminho até o estacionamento, nesta hora um carro de polícia passa por nós. Acabamos a negociação bem na hora.

- Merda! O que foi que aconteceu? – Pergunto incrédula quando chegamos no estacionamento.

Bernardo começa a rir sem parar.

- O que a gente faz agora? – Mélly também está um pouco atordoada, apesar de disfarçar isso melhor do que eu.

- Podemos fazer qualquer coisa, baby! Temos dinheiro! – Bernardo sacode as notas, como se acabasse de se tornar o homem mais rico do mundo.

- Aquilo era mesmo maconha? – Marcão pergunta com uma cara de nojo e Bernardo ri mais ainda. – Tinha cheiro de merda.

O maluco beleza deita no chão e começa a rir muito, coloca a mão na barriga e dá uma risada incessante, até seus olhos começarem a lacrimejar e parecer lhe faltar ar. Ele estende a mão para nós, enquanto não para de rir e todos nós seguramos nossos queixos.

- Cheira.

De alguma forma, a mão que Bernardo usou para dichavar o beck que ele bolou pra gente está cheia de cocô de vaca. Como?

- Ah, vai lavar isso! – Mélly o empurra.

Marcão também não aguenta e começa a rir muito.

- Mas a gente fumou.

- Tem certeza? – Bernardo então tira do bolso o baseado, joga no chão e pisa em cima com seus coturnos. – Diga não às drogas!

- Como você fez isso? – Pergunto ainda incrédula.

- Oh, qual é, vocês não entendem nada de ilusionismo.

- Aquele era o baseado que você bolou no bar, você trocou quando foi pegar o isqueiro. Foi por isso que você não me deixou fumar um pouco na sua casa e deixou o tablete nas mãos do Marcão, pra que eles não sentissem o cheiro. – Eu deduzo.

- Garota esperta!

- Quem quer torrar dinheiro?

- Eu! – Grito.

- Isso vai dar merda. – Mélly diz. – Aqueles caras conheciam a gente.

- E eles vão fazer o quê? A hora que perceberem, já vamos ter gasto tudo. Fora que pelas caras deles, é bem capaz que eles fumem a bosta da vaca.

Esta é. Definitivamente. A noite mais insana da minha vida. Eu e Bernardo vamos de moto a uns 200 km por hora e eu grito, quase soltando meu coração pela boca. Atrás de nós, tão empolgados quanto, estão Marcão e Mélly, eles buzinam insanamente, enquanto andamos a deriva pelas estradas da cidade.

Bagulho EstragadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora