Parte 3.2 - Doutor

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A injeção encontra as veias do garoto, e lá despeja um novo componente que vai levar informações para as suas sinapses interpretarem de uma forma bastante peculiar e agir de forma a estimular a mente e inibir o corpo.

Tudo vai bem, até que o monitor ilustra um aumento repentino nos batimentos cardíacos, subindo veloz, sem retroceder.

O Doutor aplica sedativos, mesmo assim os batimentos continuam descontrolados. O garoto começa a vomitar e os olhos viram, indicando uma overdose. Desesperado, o cientista aperta um botão, que faz com que a cadeira permaneça de lado para que a sua cobaia não venha a sufocar no próprio vômito, mas se os batimentos cardíacos não diminuírem, ele vai morrer sufocado pelo seu próprio sangue.

O monitor continua indicando aumentos no batimento cardíaco, até que após um pico de mais de 200/bpm, os números vão à zero.

Sem se dar por vencido, o doutor pega o desfibrilador e tenta ressuscitar o garoto, que não volta a dar sinal de vida, ainda que o seu semblante pareça, estranhamente, demonstrar prazer.

As fivelas são soltas e os braços derramam ao chão como se feitos de água. O cientista grita e chora, sem acreditar no que acabara de acontecer e se perguntando o porquê de não ter seguido a sua intuição, que dizia que aquilo não ia dar certo.

Sendo um homem muito empírico e de iniciativa, o doutor limpa suas lágrimas e pensa em uma solução rápida para o problema, que naquele momento, o mais urgente era: se livrar do corpo. Sua primeira tarefa é arrumar uma lona, a segunda é arrastar o corpo em cima da lona pela escadaria acima, que apesar de óbvia, é a mais difícil de todas e ao levar o corpo morto até o piso acima do alçapão, ele enrola o defunto que começa a se enrijecer.

Você salvou a vida dele, ele estava fadado a uma vida decadente, você ofereceu uma oportunidade a ele, se não fosse você, ele já estaria morto. – São frases que saltam em sua cabeça para aliviar a culpa e de alguma forma, o incentivar a seguir em frente. – Não foi sua culpa.

Esses pensamentos o fortalecem até esperar a madrugada para o terceiro passo, que é encostar o carro na frente do estabelecimento e com velocidade colocar o corpo lá dentro.

O quarto passo é o levar até uma casa abandonada e o colocar lá, junto com um isqueiro, uma colher e uma seringa, todas sujas com cocaína misturada com vodka fervida, além de algodão, torniquete e um pino cheio até a metade de pó, além de vários pinos vazios espalhados pela casa, somados a outros já existentes.

Quando se vira, um sujeito entra e o encara assustado, então puxa um canivete e range os dentes podres.

- Quem é você? O que fez com esse cara?

- Calma!

- Responde! – O sujeito grita assustado, brandindo sua lâmina.

Sabendo que naquela situação não vai ter diálogo e o risco de levar uma facada de um viciado assustado é muito grande, o doutor arranca uma arma de sua cintura e aponta.

- Solta essa faca agora ou sua cabeça vai virar história.

Imediatamente, o homem levanta os braços e deixa o canivete cair, tremendo suas mãos e pernas, pronto para correr a qualquer instante.

- Eu não quero te machucar, mas se você sair correndo, vou ser obrigado a dar um tiro nas suas costas. Entendido?

O homem faz que sim com a cabeça e se encolhe cada vez mais na parede, como se pudesse se unir a ela, ou desaparecer como um camaleão.

- Meu amigo teve uma overdose, eu não posso levar a culpa. O que posso fazer pra você não ter visto nada?

- Eu não vi nada.

- Muito bem! Pelo visto pegou o jeito rápido. Mesmo assim, eu quero te dar um presente.

O doutor tira uma nota de cinquenta, a dobra no meio, e, sem parar de apontar a arma, solta no chão perto do homem. Que se abaixa e pega a nota, sem demonstrar qualquer reação. O cientista sabe que cinquenta é pouco, mas ele sabe que é o suficiente pra comprar o silêncio momentâneo de um viciado, porque se ele tiver que falar, pode ser cinquenta, ou dez mil, ele vai falar de qualquer jeito.

- Eu também não quero mais usar nada. Meu amigo morreu e eu estou meio que perdido. – Diz, sem saber disfarçar a mentira. – Eu tenho mais dois pinos aqui e eu não vou fazer nada com eles. Você quer?

- Aham! – Responde timidamente, balançando a cabeça em sinal positivo.

O doutor joga os dois pinos, o homem pega.

- É melhor a gente sair daqui antes que mais alguém chegue. Pega o seu canivete, vira as costas e saia, eu estou logo atrás. Não tente nada.

Os dois saem da casa, o homem estranho segue o seu rumo e o doutor entra no carro e vai embora.

O segundo problema: Uma nova cobaia. Os testes precisam continuar e por mais que ele saiba que a droga precisa de ajustes, para saber o efeito real, alguém precisa experimentar. Alguém de confiança, desesperado e sem escolhas, esperando pela oportunidade dos céus para ganhar dinheiro fácil.

Ao parar no semáforo, as luzes de um caminhão do outro lado do cruzamento o iluminam e ele tem uma crise de choro e resolve abandonar tudo de vez, dobra à direita e para no primeiro bar que encontra.

- O que vai querer? – O barman pergunta, apontando o cardápio.

- Só uma água.

- Está de sacanagem? Pra esse tipo de desanimo eu recomendo um Angus Young, você vai sair daqui pulando.

- É o quê? – O cientista pergunta confuso.

- Aqui a gente brinca com os nomes dos guitarristas e coloca nos drinques. Esse, por exemplo, é uísque com curaçau blue e uma gota de pimenta. Você nunca veio aqui?

- Não, eu estava passando e entrei.

- Certo! – O homem despeja em um pequeno copo em formato de caveira o líquido de várias garrafas, como um alquimista e coloca fogo, o que deixa o drinque irrecusável. – Experimenta. Esse é por conta da casa.

- Obrigado! – O doutor agradece com um sorriso surpreso. – Como eu faço com o fogo?

- É só tampar com as mãos e quando o fogo apagar, você vira tudo de uma vez.

- Tudo de uma vez?

- Vai por mim. Angus Young, amigo!

O drinque faz com que o corpo do cientista esquente na mesma hora e ele arranca seu blazer e pede água, mas o barman, se divertindo com a presença de um nerd inadequado em seu estabelecimento minuciosamente pensado, mais uma vez nega o pedido e serve mais uma dose gratuita. "dessa vez, um Cherry Bomb, Joan Jett, pra você se apaixonar e sair dessa fossa" – diz o barman.

O líquido quente de cereja escorre pela garganta do doutor e à medida que esvazia, surge uma garota no fundo de seu copo, que parece ser a própria Joan Jett. Ele se assusta, pensando estar alucinando, mas é apenas uma garota, que ele pensa ser qualquer, que vai até o bar, pede um Jimi Hendrix, o vira sem pestanejar e pede uma cerveja, ela dá um sorriso para o nerd que a acompanha com os olhos e o cumprimenta com um aceno de cabeça e volta para a sala de onde veio.

- Viu o jeito que ela te olhou? – O barman provoca. – Cherry bomb não tem erro, meu amigo. O que está esperando? Vai lá!

Bagulho EstragadoOnde histórias criam vida. Descubra agora