A injeção encontra as veias do garoto, e lá despeja um novo componente que vai levar informações para as suas sinapses interpretarem de uma forma bastante peculiar e agir de forma a estimular a mente e inibir o corpo.
Tudo vai bem, até que o monitor ilustra um aumento repentino nos batimentos cardíacos, subindo veloz, sem retroceder.
O Doutor aplica sedativos, mesmo assim os batimentos continuam descontrolados. O garoto começa a vomitar e os olhos viram, indicando uma overdose. Desesperado, o cientista aperta um botão, que faz com que a cadeira permaneça de lado para que a sua cobaia não venha a sufocar no próprio vômito, mas se os batimentos cardíacos não diminuírem, ele vai morrer sufocado pelo seu próprio sangue.
O monitor continua indicando aumentos no batimento cardíaco, até que após um pico de mais de 200/bpm, os números vão à zero.
Sem se dar por vencido, o doutor pega o desfibrilador e tenta ressuscitar o garoto, que não volta a dar sinal de vida, ainda que o seu semblante pareça, estranhamente, demonstrar prazer.
As fivelas são soltas e os braços derramam ao chão como se feitos de água. O cientista grita e chora, sem acreditar no que acabara de acontecer e se perguntando o porquê de não ter seguido a sua intuição, que dizia que aquilo não ia dar certo.
Sendo um homem muito empírico e de iniciativa, o doutor limpa suas lágrimas e pensa em uma solução rápida para o problema, que naquele momento, o mais urgente era: se livrar do corpo. Sua primeira tarefa é arrumar uma lona, a segunda é arrastar o corpo em cima da lona pela escadaria acima, que apesar de óbvia, é a mais difícil de todas e ao levar o corpo morto até o piso acima do alçapão, ele enrola o defunto que começa a se enrijecer.
Você salvou a vida dele, ele estava fadado a uma vida decadente, você ofereceu uma oportunidade a ele, se não fosse você, ele já estaria morto. – São frases que saltam em sua cabeça para aliviar a culpa e de alguma forma, o incentivar a seguir em frente. – Não foi sua culpa.
Esses pensamentos o fortalecem até esperar a madrugada para o terceiro passo, que é encostar o carro na frente do estabelecimento e com velocidade colocar o corpo lá dentro.
O quarto passo é o levar até uma casa abandonada e o colocar lá, junto com um isqueiro, uma colher e uma seringa, todas sujas com cocaína misturada com vodka fervida, além de algodão, torniquete e um pino cheio até a metade de pó, além de vários pinos vazios espalhados pela casa, somados a outros já existentes.
Quando se vira, um sujeito entra e o encara assustado, então puxa um canivete e range os dentes podres.
- Quem é você? O que fez com esse cara?
- Calma!
- Responde! – O sujeito grita assustado, brandindo sua lâmina.
Sabendo que naquela situação não vai ter diálogo e o risco de levar uma facada de um viciado assustado é muito grande, o doutor arranca uma arma de sua cintura e aponta.
- Solta essa faca agora ou sua cabeça vai virar história.
Imediatamente, o homem levanta os braços e deixa o canivete cair, tremendo suas mãos e pernas, pronto para correr a qualquer instante.
- Eu não quero te machucar, mas se você sair correndo, vou ser obrigado a dar um tiro nas suas costas. Entendido?
O homem faz que sim com a cabeça e se encolhe cada vez mais na parede, como se pudesse se unir a ela, ou desaparecer como um camaleão.
- Meu amigo teve uma overdose, eu não posso levar a culpa. O que posso fazer pra você não ter visto nada?
- Eu não vi nada.
- Muito bem! Pelo visto pegou o jeito rápido. Mesmo assim, eu quero te dar um presente.
O doutor tira uma nota de cinquenta, a dobra no meio, e, sem parar de apontar a arma, solta no chão perto do homem. Que se abaixa e pega a nota, sem demonstrar qualquer reação. O cientista sabe que cinquenta é pouco, mas ele sabe que é o suficiente pra comprar o silêncio momentâneo de um viciado, porque se ele tiver que falar, pode ser cinquenta, ou dez mil, ele vai falar de qualquer jeito.
- Eu também não quero mais usar nada. Meu amigo morreu e eu estou meio que perdido. – Diz, sem saber disfarçar a mentira. – Eu tenho mais dois pinos aqui e eu não vou fazer nada com eles. Você quer?
- Aham! – Responde timidamente, balançando a cabeça em sinal positivo.
O doutor joga os dois pinos, o homem pega.
- É melhor a gente sair daqui antes que mais alguém chegue. Pega o seu canivete, vira as costas e saia, eu estou logo atrás. Não tente nada.
Os dois saem da casa, o homem estranho segue o seu rumo e o doutor entra no carro e vai embora.
O segundo problema: Uma nova cobaia. Os testes precisam continuar e por mais que ele saiba que a droga precisa de ajustes, para saber o efeito real, alguém precisa experimentar. Alguém de confiança, desesperado e sem escolhas, esperando pela oportunidade dos céus para ganhar dinheiro fácil.
Ao parar no semáforo, as luzes de um caminhão do outro lado do cruzamento o iluminam e ele tem uma crise de choro e resolve abandonar tudo de vez, dobra à direita e para no primeiro bar que encontra.
- O que vai querer? – O barman pergunta, apontando o cardápio.
- Só uma água.
- Está de sacanagem? Pra esse tipo de desanimo eu recomendo um Angus Young, você vai sair daqui pulando.
- É o quê? – O cientista pergunta confuso.
- Aqui a gente brinca com os nomes dos guitarristas e coloca nos drinques. Esse, por exemplo, é uísque com curaçau blue e uma gota de pimenta. Você nunca veio aqui?
- Não, eu estava passando e entrei.
- Certo! – O homem despeja em um pequeno copo em formato de caveira o líquido de várias garrafas, como um alquimista e coloca fogo, o que deixa o drinque irrecusável. – Experimenta. Esse é por conta da casa.
- Obrigado! – O doutor agradece com um sorriso surpreso. – Como eu faço com o fogo?
- É só tampar com as mãos e quando o fogo apagar, você vira tudo de uma vez.
- Tudo de uma vez?
- Vai por mim. Angus Young, amigo!
O drinque faz com que o corpo do cientista esquente na mesma hora e ele arranca seu blazer e pede água, mas o barman, se divertindo com a presença de um nerd inadequado em seu estabelecimento minuciosamente pensado, mais uma vez nega o pedido e serve mais uma dose gratuita. "dessa vez, um Cherry Bomb, Joan Jett, pra você se apaixonar e sair dessa fossa" – diz o barman.
O líquido quente de cereja escorre pela garganta do doutor e à medida que esvazia, surge uma garota no fundo de seu copo, que parece ser a própria Joan Jett. Ele se assusta, pensando estar alucinando, mas é apenas uma garota, que ele pensa ser qualquer, que vai até o bar, pede um Jimi Hendrix, o vira sem pestanejar e pede uma cerveja, ela dá um sorriso para o nerd que a acompanha com os olhos e o cumprimenta com um aceno de cabeça e volta para a sala de onde veio.
- Viu o jeito que ela te olhou? – O barman provoca. – Cherry bomb não tem erro, meu amigo. O que está esperando? Vai lá!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Bagulho Estragado
ActionOs quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada. Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
