- Sai de perto de mim! – Esta grita, a empurrando para longe, mas Mélly insiste e a abraça solidária.
Levanto o pescoço e procuro encontrar respostas com Marcão, que caminha até nós, preocupado; ele me responde com um levantar de ombros tão confuso quanto meus olhos. É um momento constrangedor, já que nossa menina está aos prantos e chora soluçante, enterrando os olhos nos braços da amiga, ao passo que tenta afastá-la a todo custo. Aquele não era o primeiro PT que eu a via ter, mas, sem sombra de dúvidas, era o pior.
- O que você tem, Jélly? – Mélly pergunta doce, acariciando os seus cabelos castanhos.
- Por que os homens têm que ser assim?
- Porque eles são idiotas de nascença, meu amor.
- Do que ela tá falando? – Pergunto assustado.
- Não é nada. – Mélly faz sinal de silêncio e aponta para o coração. – Isso já vai passar.
- Por que meu pai tentou fazer aquilo? Ele ia me abandonar sozinha nesse mundo grotesco. Eu não posso ficar sozinha, senão eu morro.
Todos nós tentamos falar, cada um a sua maneira, que Jélly nunca vai estar sozinha, que estaremos ao lado dela em todos os momentos de sua vida e que ela não ia morrer, que não precisa se preocupar porque ela é a garota mais amável que já conhecemos, capaz de levar qualquer um à loucura com sua voz de anjo rebelde.
Ainda que a gente consiga ir para longe do vômito, não é suficiente para que sua tristeza passe, o que reflete até em suas mãos que ficam assustadoramente geladas. Para curar de alguma forma aquela ferida aberta, deixamos ela descansando a cabeça no colo de Mélly e a beijamos muito, em suas mãos, nas suas bochechas, fazemos carinho em sua barriga e vários mimos pra que ela se sinta amada.
Passado algum tempo, ela se levanta, passa o ante-braço na boca e sai andando, como se nada tivesse acontecido. Estarrecidos, continuamos sentados, vendo aquela figura se distanciar rapidamente da gente sem olhar para trás.
- Onde você vai? – Mélly grita perguntando.
- Pra casa. – Ela responde, também em um grito.
- Eu levo você!
- Não precisa!
- É melhor a gente ir atrás dela? – Desta vez, sou eu quem pergunto.
- Eu até iria, mas eu tenho compromisso daqui a pouco. – Mélly explica, com um olhar preocupado.
- Tudo bem, eu vou. Você leva o Marcão?
- Claro.
A pior hora do dia é quando temos que ir cada um para sua casa. Eu já tinha sugerido várias vezes que morássemos no mesmo lugar, só que eles não gostam muito da ideia. Após dar mais um beijo longo e demorado em Mélly, pego minha moto e vou atrás da nossa vocalista estrela, que com passadas rápidas já está longe.
- O que tá pegando, gatinha?
Jélly me ignora e continua caminhando, como se eu fosse um fantasma que não pode ser visto. Insistentemente, eu a chamo, logo desisto, já que me lembro que ela sempre foi mais teimosa do que eu.
- Que tal a gente tomar um café na padaria e eu te levo pra casa? Você ainda tem umas boas pernadas pela frente. – Novamente, não consigo resposta alguma.
A expressão em seu rosto, assim como as sobrancelhas franzidas começam a me dar pistas do porquê daquilo e algo me diz que não tem nada haver com o fato do pai dela ter tentado suicídio a algum tempo, talvez seja isso, mas o gatilho... o gatilho tem haver com algo que aconteceu agora, algo inusitado e que... é a cara de ciúmes...
- Jélly, isso é por causa de mim e da Melissa?
- O quê? Claro que não! – Ela finalmente parece despertar de sua tristeza profunda e me encara com os olhos estalados, assustada.
- Claro! Por que não pensei nisso antes? – Encosto a moto e a seguro nos ombros. – Olha, eu e a Mélly estávamos conversando justamente isso. Nós vamos mudar, não vamos foder com tudo dessa vez. Vai dar certo! Eu realmente a amo e não vou quebrar os sentimentos dela, Jélly, pode contar com isso.
Jelly fica parada, me encarando por algumas frações de segundo, então seus queixos tremem em terremoto e seu rosto se desconstrói em uma careta que jorra todas as lágrimas de uma só vez. Diante disso, eu a abraço ainda mais apertado, até que o choro cesse novamente.
Na padaria, suas feições continuam tristes e distantes, mas pelo menos ela aceitou ir comigo e o café ajuda suas bochechas a voltarem a ter cor. Em seguida, eu a levo para casa e não trocamos sequer uma palavra pelo caminho, mudez que é desfeita apenas quando paro em frente à sua casa e ela desce da moto.
- Eu fico muito feliz que as duas pessoas que eu mais amo neste mundo estejam juntas. – Ela finalmente dá um sorriso e isto me alivia um pouco, então seus dedos finos pousam sobre meu queixo e raspam minha barba por fazer e é o suficiente pra eu saber que está tudo bem. – Você vai provar que é um cara esperto se realmente não foder com tudo.
- Eu ainda preciso provar? Quem ganhou dois mil em uma noite?
- O que é dinheiro perto do amor?
- Anotou essa pra próxima música?
- Essa noite foi suficiente para compor o nosso próximo álbum.
Nisso eu tenho que concordar com Jélly, nunca vivemos uma noite tão intensa e a adrenalina de como as coisas aconteceram foi o maior dos entorpecentes, eu posso gargalhar só de lembrar que eu vendi bosta de vaca por dois mil reais, definitivamente, não é todo dia que isso acontece, somado ao fato de que eu finalmente beijei a Mélly, é a melhor de todas as noites e os dias seguintes prometem ser ainda mais inesquecíveis.
Quando viro a chave para entrar no prédio do meu apartamento, sou surpreendido por um empurrão que me joga pra dentro do corredor de entrada e outras pessoas entram junto comigo e antes que eu consiga entender o que está acontecendo, sou atingido por um soco na boca do meu estômago que me tira todo o ar. Na sequência, um chute nas minhas pernas me derruba e sou coberto de vários pontapés. Tudo o que me resta é proteger meu rosto com meus braços e esperar aquela tempestade passar, enquanto sinto minhas costelas arderem.
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Bagulho Estragado
AcciónOs quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada. Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
