Final

10 2 2
                                        



Sem graça, o Doutor ri. Não é o tipo de homem que dá em cima de garotas em bar, mas o Angus Young, combinado com a Joan Jett, dão a ele a atitude necessária. Então ele se levanta e parte em direção àquele cômodo, mas ao entrar, vê que ela não está sozinha.

Em um sofá estão esparramados a garota do drinque do Jimi Hendrix, mais uma garota e dois caras. Sem saber, o cientista está diante dos Fighting and Flighting, Jélly, Mélly, Bernardo e Marcão.

Ele dá meia volta, desanimado, quando três homens passam por ele, entram lá e rapidamente uma discussão se instaura, chamando sua atenção e quando ele se dá conta, eles estão em uma negociação de drogas. Assim que eles encerram a conversa, o cientista caminha até o bar, deixa uma nota de cinquenta, agradece e vai até o lado de fora, onde fica aguardando os quatro roqueiros que vendiam maconha.

Em sua mente, algo o diz que ali estaria sua nova cobaia. Ele já sabia que eram loucos por dinheiro, só restava saber se eram confiáveis e sem outra escolha.

Aqueles jovens se reúnem a pouco mais de cinco metros de seu carro, sem o notarem escondido por trás dos vidros de seus óculos e a leve penumbra feita pelo teto de seu próprio carro, então eles se dividem. Ele escolhe seguir a garota que sorriu para ele no balcão do bar, que vai na garupa da moto do jovem, que ele julga esquisito.

Discretamente, ele os segue até um prédio, depois ao Habibs, onde consegue escutar que eles vão se encontrar com os clientes na ponte da Nelson d'Ávila, por isso, imediatamente ele se encaminha até lá e os aguarda em uma penumbra no fim da ponte, onde é suficientemente possível os observar sem ser visto.

Ele vê os clientes chegarem e como se por obra do destino, param o carro próximo ao Doutor, que continua oculto.

A negociação começa, eles agem como se não houvesse qualquer risco e simplesmente experimentam a droga e chacoalham o dinheiro ao vento. Feita a negociação, os três compradores voltam para o carro.

Logo, o doutor aguarda que aqueles três saiam dali, para que volte a stalkear os traficantes, mas é surpreendido por berros vindos de dentro do carro. Os três rapazes saem do carro abanando em frente ao nariz e xingam aos quatro ventos, enquanto fumam um baseado.

- Ei! – o doutor grita pra eles. – A polícia.

Nisso, um carro da polícia está atravessando a ponte e rapidamente os três escondem o baseado.

- Obrigado, cara! – Um deles agradece, com os olhos arregalados. – De onde você saiu?

- Eu estava aqui o tempo todo. O que tá pegando?

- Não é da sua conta. Vamos embora.

- Eu posso ajudar. Eu sei onde ele mora.

- O quê?

- É. Eu sei onde aquele cara mora. – O cientista revela, se referindo a Bernardo. – Agora me diga o que foi que ele fez e se eu achar que realmente é uma coisa grave, eu te passo o endereço.

- Ele me vendeu bosta no lugar de maconha. É suficiente?

O Doutor não consegue segurar um sorriso irônico.

- Está rindo do quê?

- Eu vou dizer, mas só se fizerem o que eu disser. – Os três rapazes concordam, apesar de desconfiados. – Vocês vão de manhã ficar de tocaia na frente da casa dele, podem bater, mas não o matem, nem quebrem nada. Eu preciso dele vivo. Então vocês usem essa arma, - os três se afastam e pedem pra ele se acalmar. – fiquem tranquilos, é de brinquedo. Usem essa arma pra arrancar todo o dinheiro dele. Quanto ele te deve?

- Ele me vendeu por dois mil reais, se for pra não quebrar nada, fica muito mais caro que isso. – O cara do meio, com os olhos cerrados, diz muito sério.

- Independente do quanto ele te dê, eu pago a diferença.

- Quem é você?

- Não importa.

- Você é o produtor deles e quer dar uma lição, não é?

O Doutor dá de ombros e o rapaz acredita na mentira que ele mesmo criou.

Em seguida, ele não vê nem sinal dos quatro e começa a vaguear pelas ruas da cidade com seu carro, como se a qualquer momento pudesse encontrá-los, de repente, um carro e uma moto em alta velocidade o ultrapassam e ele reconhece os cabelos da Cherry Bomb aos ventos na garupa da moto. Ele os segue até o EXTRA.

Para não ser notado, ele mantêm uma certa distância, mas acaba os perdendo de vista dentro do supermercado. Ele os procura pelos corredores, olhando um por um, quando em dado momento, tromba com Mélly, que perde o equilíbrio e cai nos braços de Bernardo, que sorri e começa a beijá-la.

O cientista se afasta imediatamente para não ser notado.

Aquela noite maluca continua girando e os quatro partem pelas ruas da cidade, distribuindo comida, dinheiro e cobertores, sem notar que, mantendo uma distância de alguns metros, um homem perigoso os segue e fantasia o futuro com um deles, Bernardo, que se destaca como a pessoa mais insana e espontânea que ele já viu, se tornando o alvo perfeito para o trabalho que poderia oferecer.

O dia amanhece, eles estão em uma praça e o cientista, estimulado pela curiosidade, permanece aceso, observando com um binóculo cada passo daqueles quatro. Finalmente, eles vão embora. Bernardo vai para casa e leva uma bela surra ao tentar entrar em seu apartamento e na sequência é sequestrado até um banco, onde o obrigam a dar todo o seu dinheiro, tudo conforme o plano do Doutor.

- Quanto ele deu? – O cientista pergunta.

- Mil.

- A verdade.

- Mil e quinhentos.

O Doutor paga a dívida, dando mais quinhentos reais para Jorge.

Em frente ao apartamento de Bernardo, o Doutor aguarda pacientemente. Apenas quando anoitece o guitarrista aparece, caminhando em direção a um bar, sem perceber que alguém o segue para testemunhar seu fracasso frente a rodadas de sinuca e tentativas frustradas de fechar novos shows.

Depois de uma longa noite, o jovem guitarrista vai até o banheiro, e é seguido pelo homem que se tornou sua sombra. No momento em que entra, o cientista vê Bernardo se olhando no espelho, lavando o rosto, então aproveita para entrar primeiro na cabine do banheiro. Lá, ele deixa no chão uma carteira sem documentos com a quantia de dois mil reais e lava suas mãos na pia ao lado da de Bernardo.

O jovem guitarrista entra na cabine, encontra a carteira, pergunta se é a carteira do cientista, sem o reconhecer das diversas outras vezes que se cruzaram e ao receber a resposta negativa, segue em direção ao balcão, disposto a deixar a carteira com o dinheiro lá.

Doutor assiste Bernardo caminhar lentamente até o caixa, pagar a conta com o dinheiro que acabara de achar e ir embora depressa com o restante em seu bolso.

- Você ainda vai me dar muito dinheiro. – O cientista sussurra.

Bernardo volta para seu prédio, chama pelo sindico e paga o aluguel de seu apartamento, antes que em um ímpeto ele gaste todo aquele dinheiro em um piscar de olhos. Com a dívida paga, ele fica mais tranquilo para desfrutar do restante, então liga para Mélly, que atende depois de três toques.

- Vai fazer alguma coisa hoje, gatinha? – Ele pergunta sorridente.

E a noite está só começando...

Bagulho EstragadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora