Ali nos dividimos. Eu vou na garupa da moto de Bernardo, enquanto Mélly e Marcão vão até a ponte. Não conversamos durante o caminho até a casa dele, apenas os ventos rápidos estimulam minha imaginação que cria tiroteios à Hollywood; também ensaio o que dizer e como agir ao levar a droga aos compradores.
- Jélly. – Ele chama minha atenção. – Você pode me apertar um pouco mais devagar?
Minha distração realmente me fez apertar o Be cada vez mais forte, então faço questão de apertar ainda mais pela reclamação. Onde já se viu?
- Obrigado! – Ele ironiza simulando uma falta de ar.
Assim que descemos da moto, um homem esquisito se aproxima da gente, ele levanta suas mãos para nós e diz:
- Abandonem suas vidas de pecado e assumam uma vida de servidão. Existem olhos sobre vocês, eu posso enxergar muitos olhos, mas saibam que nenhum desses olhos quer o bem de vocês, o único que quer o bem de vocês é aquele que estende a mão e só quer amor em troca, aquele que...
- Tá, tá... já entendi. – Bernardo corta arrogante. – Toma. É tudo que tenho.
- Deus lhe pague!
- Ele me paga todos os dias.
- Principalmente o olhar que se esconde por trás de vidros. – O homem misterioso prossegue insistente. – Você ainda não o conheceu, mas vai em breve. Tome cuidado!
- Certo, senhor profeta! Sabe se vai chover? Com licença, tenho que resolver umas coisas e...
- O amor de vocês é lindo, mas só vai sobreviver se você também acreditar que é possível e lutar por isso.
- Licença!
Bernardo entra rápido, me puxa pelo braço e fecha a porta dando tchau.
- O que será que ele quis dizer com olhos por trás de vidros?
- Sei lá! Ele deve ser louco de pedra.
Ele mora em um apartamento com uma entrada bem simples, sem portaria, apenas um longo corredor onde já começa o primeiro andar de moradores. Subimos alguns lances de escada até chegar ao dele.
Dentro do apartamento, uma pequena e peculiar bagunça enfeita um forte cheiro de tabaco, além de algumas roupas espalhadas, que por pouco não fazem com que eu me perca na bagunça, mas ele encontra o tablete antes disso e me mostra, contente, como se já estivesse com os dois mil reais em mãos.
- Caramba, Bernardo! Você tem mesmo...
- Eu não brinco com essas coisas.
- Não vai me dizer que agora você está...
- Claro que não! É que da última vez... lembra?
- Que você deu um soco no nariz daquele pivete?
- É... eu fiquei pensando que as coisas poderiam acabar diferente.
- Isso pode dar cadeia.
- Não. Não pode.
- Como assim?
- Não pode, oras. Não vai.
- Então vamos resolver isso logo. Que tal a gente fumar um tequinho?
- Não. Negócios primeiro.
Começo a rir descontroladamente. Posso me acostumar com esta vida, mesmo sabendo que ela é sem mérito e arriscada. Bernardo sempre torna as coisas mais divertidas, por mais sombrias e grotescas que sejam.
- O que foi?
- Aquele cara pensou que eu era sua namorada.
- Só por que ele disse do nosso amor? – Bernardo questiona com um olhar estranho. – Nós nos amamos, não amamos?
- Claro, é que...
- Eu te amo. E não sei o que seria da minha vida sem você e todas aquelas coisas clichês que dizem, mas que são puras e verdadeiras.
Bernardo diz essas coisas e eu paraliso, ao passo que meu coração dispara enlouquecido. Eu não sei o que tá rolando com meu corpo. A respiração fica fraca, bem fraca, até que ele se aproxima e beija minha testa.
- Você lembra o que ele disse? Você também precisa acreditar. – Então ri. - Vamos?
- Vamos. – Respondo, sentindo a voz sair fraquinha.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Bagulho Estragado
ActionOs quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada. Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
