Parte 01.2 - Jéssica

8 5 1
                                        


Ali nos dividimos. Eu vou na garupa da moto de Bernardo, enquanto Mélly e Marcão vão até a ponte. Não conversamos durante o caminho até a casa dele, apenas os ventos rápidos estimulam minha imaginação que cria tiroteios à Hollywood; também ensaio o que dizer e como agir ao levar a droga aos compradores.

- Jélly. – Ele chama minha atenção. – Você pode me apertar um pouco mais devagar?

Minha distração realmente me fez apertar o Be cada vez mais forte, então faço questão de apertar ainda mais pela reclamação. Onde já se viu?

- Obrigado! – Ele ironiza simulando uma falta de ar.

Assim que descemos da moto, um homem esquisito se aproxima da gente, ele levanta suas mãos para nós e diz:

- Abandonem suas vidas de pecado e assumam uma vida de servidão. Existem olhos sobre vocês, eu posso enxergar muitos olhos, mas saibam que nenhum desses olhos quer o bem de vocês, o único que quer o bem de vocês é aquele que estende a mão e só quer amor em troca, aquele que...

- Tá, tá... já entendi. – Bernardo corta arrogante. – Toma. É tudo que tenho.

- Deus lhe pague!

- Ele me paga todos os dias.

- Principalmente o olhar que se esconde por trás de vidros. – O homem misterioso prossegue insistente. – Você ainda não o conheceu, mas vai em breve. Tome cuidado!

- Certo, senhor profeta! Sabe se vai chover? Com licença, tenho que resolver umas coisas e...

- O amor de vocês é lindo, mas só vai sobreviver se você também acreditar que é possível e lutar por isso.

- Licença!

Bernardo entra rápido, me puxa pelo braço e fecha a porta dando tchau.

- O que será que ele quis dizer com olhos por trás de vidros?

- Sei lá! Ele deve ser louco de pedra.

Ele mora em um apartamento com uma entrada bem simples, sem portaria, apenas um longo corredor onde já começa o primeiro andar de moradores. Subimos alguns lances de escada até chegar ao dele.

Dentro do apartamento, uma pequena e peculiar bagunça enfeita um forte cheiro de tabaco, além de algumas roupas espalhadas, que por pouco não fazem com que eu me perca na bagunça, mas ele encontra o tablete antes disso e me mostra, contente, como se já estivesse com os dois mil reais em mãos.

- Caramba, Bernardo! Você tem mesmo...

- Eu não brinco com essas coisas.

- Não vai me dizer que agora você está...

- Claro que não! É que da última vez... lembra?

- Que você deu um soco no nariz daquele pivete?

- É... eu fiquei pensando que as coisas poderiam acabar diferente.

- Isso pode dar cadeia.

- Não. Não pode.

- Como assim?

- Não pode, oras. Não vai.

- Então vamos resolver isso logo. Que tal a gente fumar um tequinho?

- Não. Negócios primeiro.

Começo a rir descontroladamente. Posso me acostumar com esta vida, mesmo sabendo que ela é sem mérito e arriscada. Bernardo sempre torna as coisas mais divertidas, por mais sombrias e grotescas que sejam.

- O que foi?

- Aquele cara pensou que eu era sua namorada.

- Só por que ele disse do nosso amor? – Bernardo questiona com um olhar estranho. – Nós nos amamos, não amamos?

- Claro, é que...

- Eu te amo. E não sei o que seria da minha vida sem você e todas aquelas coisas clichês que dizem, mas que são puras e verdadeiras.

Bernardo diz essas coisas e eu paraliso, ao passo que meu coração dispara enlouquecido. Eu não sei o que tá rolando com meu corpo. A respiração fica fraca, bem fraca, até que ele se aproxima e beija minha testa.

- Você lembra o que ele disse? Você também precisa acreditar. – Então ri. - Vamos?

- Vamos. – Respondo, sentindo a voz sair fraquinha.

Bagulho EstragadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora