Os quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada.
Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
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Uma coruja sobrevoa os gramados mal cortados e cobertos por uma fina camada de orvalho, ela pousa sobre uma pata e permanece imóvel em sua elegância, vira sua cabeça em 180 graus, de modo a se gabar pela sua incrível capacidade de enxergar tudo. Novamente, o pássaro alça vôo, intimidador com suas enormes asas, em uma rapinagem veloz ela dá um rasante e pega algo que solta um grito estridente e sôfrego.
Ainda na praça do Istoril, eu e Mélly nos beijamos encostados em seu carro, enquanto Marcão e Jélly terminam as bebidas sentados na escadaria do anfiteatro.
Eu mal posso acreditar. Se estes beijos não estivessem acontecendo agora, eu diria que é um sonho. Toda esta loucura, simplesmente pra ter coragem de demonstrar minha paixão que já estava fervendo há muito tempo. Embora gostaria que isso tivesse se realizado antes, não haveria dia melhor para ter acontecido do que este, onde extrapolamos os limites da legalidade de uma vez por todas e escrevemos esta história na memória para todo o sempre.
Diante disso, o tempo para, enquanto acaricio o rosto de Mélly, mergulho ao fundo daquela piscina de mel que são seus olhos e lá permaneço, segurando o ar, me afogando de amor ao som de uma balada romântica que toca no carro. Para minha surpresa, naquele instante, aquela garota rock'n'roll fica com os olhos marejados, então permite que caia um fluxo incessante de lágrimas negras.
Insisto em perguntar o porquê, mas ela se recusa, por isso, eu a abraço o mais forte que posso e beijo sua cabeça milhões de vezes.
Eu já sabia que a casca dura de Mélly era só disfarce, ainda sim me surpreendo quando sinto o peso do seu corpo minguar em meus braços como em uma embriaguez excessiva e me assusto com seu choro soluçante.
- Eu não quero que a gente acabe. – Ela sussurra, ainda enfraquecida, me deixando confuso.
- Nós estamos apenas começando, gatinha! – Digo acariciando seus cabelos, tentando acalmá-la.
- Eu não quero que a gente acabe nunca!
- Nós não vamos acabar.
- Trabalhei duro pra ficar bem longe do amor, entrei nos becos mais escuros e caí nas sarjetas mais profundas, quem diria que seria justo neste lugar que ele me encontraria. – Mélly devaneia, enquanto limpa as lágrimas que escorreram em seu rosto, ficando apenas pistas em uma maquiagem borrada. – É melhor a gente acabar aqui mesmo.
- Não fala merda. – Desaprovo, realmente ferido. – Você acabou de dizer que não quer que a gente acabe.
- Você é muito louco, Bernardo.
- É uma loucura canalizada e proposital, exatamente como esta sua rispidez. – Ironizo, e em seguida chego meu corpo junto ao dela, segurando seu queixo com minha mão direita. – Eu te conheço melhor do que você pensa me conhecer, Mélly.
- Não me venha com esta conversa de sedutor barato. – Ela volta a chorar. – Nós somos muito loucos, Be.
- Diga que não me ama e eu nunca mais toco nesse assunto. – Lanço o desafio, receoso.
- Eu te amo, Bernardo. – Se declara depois de um silencioso suspense.
- Então o que acha de nos amarmos eternamente?
Ela flecha meus sentimentos com seu sorriso e volta a me beijar, para interromper mais uma vez, desta vez mais animada e segura, para dizer mais uma porção de coisas.
- Precisamos de mudança.
- Você pode se mudar lá pra casa.
- É sério, Bernardo, se estiver sendo cem por cento sincero, você sabe que temos que mudar. Não tem como dar certo com esse estilo de vida que a gente leva. Não vamos durar nem um mês, igual a outros casais que já vimos não darem certo por viverem na loucura.
- Está dizendo da banda?
- Talvez a banda seja a única coisa bonita no meio desse lodo. – Mélly suspira e pega minhas mãos e leva até seu peito, em uma preparação para dizer algo assustador. – Estou dizendo da bebedeira, da erva, das festas malucas e imprevisíveis.
- Trocar isso tudo por amar você eternamente? Deixa eu pensar... Claro!
- E a cocaína?
- Você tem aí?
- Eu estou falando sério, Be!
- Você quer dizer... largar tudo? TUDO?
- Largar tudo, Bernardo. Vai ser difícil, mas a gente consegue juntos.
- Tendo você ao meu lado, eu não preciso de mais nada, Melissa.
- Os apelidos podem continuar.
- Não, dona Melissa, se vamos mudar, tem que ser pra valer.
Esta brincadeira nos faz rir juntos, entusiasmados pelos votos de uma nova vida, enquanto o tambor do meu coração jorra sangue aos meus pensamentos, que me acusam de não ser verdadeiro e eu insisto comigo mesmo que posso tornar a promessa real.
Os gritos de Jélly interrompem nossos beijos intercalados e a garota vem cambaleando em nossa direção extremamente bêbada, ao se aproximar, dizendo uma porção de coisas que não consigo entender, ela tropeça, mas permanece em pé com as mãos nos joelhos, então fica parada por um tempo com os olhos fixos no chão e em espasmos galopantes, ela gorfa tudo o que bebeu durante a noite toda. Agora fica o mistério de como ela conseguiu ficar nesse estado tão rápido, uma vez que há alguns minutos atrás ela parecia tão bem.
- Jélly!? – Mélly corre pra ajudar a amiga a permanecer de pé.