- Quero meu dinheiro.
Eu reconheço a voz daquele mauricinho, como se chama mesmo? Jonas? Gregor? Jorge? Jorge! Sinto vontade de rir, mas a situação não é favorável, então engulo e levanto os olhos devagar, bem a tempo de ser acertado bem no meio dos olhos.
- Você vai se arrepender. – Sem escapatória, eu blefo.
Dito isso, eles me colocam de pé, então sinto o cano de uma arma ser colocada no meu peito, na altura do coração.
- Quem vai se arrepender é você se não me der esse dinheiro.
- Ei, calma, cara! – Eu tento conversar, mas eu matei qualquer chance de diálogo desde que nos conhecemos.
- Quanto tempo você acha que vai demorar até alguém te encontrar nesse corredor, ensanguentado e sem coração?
Como um martelo, sinto meu pulso e aos poucos perco as forças da perna, apenas mantenho as mãos levantadas e procuro colaborar, tipo em um assalto, embora não tenha tanta certeza como chamar neste caso. É como diz o ditado: ladrão que rouba, ladrão...
- E aí, como vai ser?
- Eu preciso tirar.
- Eu ouvi atirar?
- Não! Calma! No banco. Vamos até o banco.
- Se você tentar alguma gracinha, pode até não ser hoje, mas agora eu sei onde você mora e mais cedo ou mais tarde você vai amanhecer com a boca cheia de formiga. Está me entendendo?
Eu entro com eles no carro e vamos até o meu banco mais próximo, estacionamos na Av. Andrômeda, um deles desce comigo, enquanto os outros esperam no carro, vou até o caixa eletrônico, onde eu saco todo o meu dinheiro e preciso usar meu cheque especial pra completar a quantia de mil e quatrocentos reais. Onde eu ia conseguir mais seiscentos? Tento solicitar um empréstimo de emergência, crédito consignado, qualquer coisa, só que nada adianta.
O guarda da agência nos observa e eu penso em pedir ajuda, aí me lembro daquela ameaça e pondero sobre viver sob o constante medo de levar uma azeitona em qualquer esquina, mesmo que eu possa fugir, mudar de apartamento, pegar a estrada com a Mélly e mudar de cidade. Aqueles caras não iriam tão longe, não eram bandidos e...
Em meio aos meus devaneios, o guarda se aproxima de nós, ouço meu coração bater em disparada, ele deve ter notado algo estranho e vai me tirar dessa, o que é melhor, sem que eu precise dizer nada, eu posso simplesmente justificar que não foi minha culpa e isso vai me dar mais prazo para ganhar o dinheiro. Porém, para minha surpresa, o homem cumprimenta aquele cara que me mantinha refém com um íntimo aperto de mão. Eu não tenho escapatória.
Voltamos para o carro e eu entrego todo o meu dinheiro. Aquele dinheiro era tudo o que eu tinha para pagar o meu aluguel e passar o mês e agora está nas mãos deste palhaço. Ainda que alguns bicos costumem surgir ao longo do mês, eu não faço ideia do que teria que fazer para suprir aquele rombo.
- Aqui não tem tudo.
- É tudo o que tenho.
- Você torrou seiscentos reais em uma noite?
Dou de ombros.
- Acha que estou brincando? – Questiona com a arma apontada para a minha cara.
- É tudo o que tenho. Sério! Se você me der algum tempo...
- Você não tem mais tempo, cara! – O mauricinho vocifera feito um demônio, chacoalhando a arma por trás dos vidros escuros do carro. – Ou me dá o dinheiro agora, ou vou espalhar seus miolos aqui mesmo.
- Calma! O que você ganha com isso?
- Satisfação!
- Satisfação? O que você é? Um maldito psicopata?
- Cara, você me deu bosta de vaca! Bosta de vaca!
Um dos amigos dele me acerta um tapão na nuca. Que vontade de devolver aquilo com um belo soco no meio dos dentes, só que é impressionante como um revólver deixa a gente manso.
- Foi só uma brincadeira.
- E toda brincadeira tem seu preço, o da sua foi dois mil reais. Além do tempo que você me tomou.
- Eu posso te dar ainda hoje esse dinheiro.
- Não quero mais seu dinheiro, pobretão. Eu quero sua vida. – Ele engatilha a arma, meus olhos se enchem de lágrimas.
- Vai chorar? Ah, qual é? Pensei que você era mais forte. Ele está chorando, gente.
Os caras começam a rir entre eles, enquanto eu seguro meu choro com todas as minhas forças. Justo no dia que eu finalmente beijo o amor da minha vida, eu a perco.
- Relaxa, irmão, eu não vou te matar não. Eu só quero o número da baixista de vocês e te deixo em paz.
Arregalo meus olhos com ódio e fecho a cara, toda a lágrima que escorria é substituída por uma fúria profunda que começa a pressionar meus ouvidos em uma urgência por atitude.
- Qual é o problema? Ah, já entendi, ela é a sua namorada. Acertei? – Ele volta a rir com ainda mais força. – Isto é hilário! Você não tem opção, garotão, ou me dá ou eu vou pessoalmente pegar. Sem você no caminho vai ficar fácil.
Tomado pela valentia, decido que prefiro ir pra cova a entregar meu amor nas mãos de um tremendo filho da puta, então cuspo o pior cuspe que tenho em seu rosto e aquela baba escorre pela sua testa. Eles voltam a me bater e eu já descontrolado começo a revidar, até que eles me imobilizam e eu urro feito um animal enjaulado.
No bolso da minha jaqueta o meu celular começa a vibrar e o toque, um sino clássico, ressoa pelo carro. Eu torço pra que não seja Mélly, em vão, porque é justamente ela. O palhaço pega o aparelho e vira a tela escrito "Mélly" e pergunta, sabendo a resposta.
- É ela, não é? Quer falar alguma coisa? – Então atende a chamada e coloca no viva voz.
- Bernardo? – Mélly pergunta, estranhando a falta de resposta. – Alô? Você está me ouvindo? Alô? Deve ter dormido...
Ela desliga a chamada, provavelmente pensou que caiu na caixa postal, ou algo do tipo. O infeliz anota o número dela em seu próprio celular, isto feito, ele aponta a arma para minha cara e aperta o gatilho. Fecho meus olhos com toda a força e minha testa é atingida, no entanto, minha alma permanece no corpo.
Os três desgraçados começam a rir muito, então o líder tira o pente da arma, me mostrando várias bolinhas amarelas como munição, o tempo todo era uma arma de brinquedo.
- Quem é o esperto agora? - Ao ter esta revelação, sou chutado para fora do carro e permaneço na grama por um tempo, digerindo aquilo.
Estou feito um caco e desnorteado, não sei o que fazer, nem pra onde ir, quero apenas me deitar em posição fetal e chorar baixinho.
Eu perdi todo o dinheiro que tinha para pagar o meu aluguel e ainda dei de lambuja o número...não quero nem pensar nisso...ainda que ela possa trocar o chip, o que eu vou dizer? Não há nada a ser feito.
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Bagulho Estragado
AksiOs quatro membros da banda de rock alternativo Fighting and Flighting só queriam descansar após uma exaustiva semana em seus empregos que detestam, mas acabam no meio de uma negociação de drogas arriscada. Em meio a isso, sentimentos ocultos se reve...
