Prefácio

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A escuridão da noite fria de Solaire mantinha os dois viajantes escondidos sob capuzes pretos ainda mais anônimos. O menor era obrigado a ficar mudo a viagem toda; ele quase saltitava tentando acompanhar o outro, que se sustentava com a nodosa mão envelhecida no cajado de madeira.

Das casas da cidadela, somente uma estaria com as velas acesas ainda àquela hora, era justamente para lá que seguiam. Se perguntassem ao velho, ele não teria uma boa razão para fazer o que estava prestes a fazer, certamente iriam denunciá-lo para os conselheiros reais. O que resguardava sua consciência era que atendia a um pedido direto do rei, o mais justo a quem já teve a graça de servir. Nesse momento sua sabedoria dizia-lhe que provavelmente a realeza havia se corrompido pela magia da paternidade e precisava corrigir os seus erros. "Os homens se transformam quando tem suas crias," ─ acreditava.

A caminhada da lealdade termina quando ele bate o cajado na porta. Três vezes foram o suficiente para que a mulher amargurada de olhos chorosos os deixasse entrar. O velho apagou as velas, e tirou o capuz.

─ Sacerdote?

─ Você nunca me viu, nunca estive aqui e a criança nunca existiu, ─ Tirou o capuz de seu acompanhante. A mulher o abraçou sem conseguir conter os soluços dentro de si.

─ Por que?

─ Esta é a única salvação para todos nós. Ela não deve ser vista por mais ninguém, vocês não devem ficar em Solaire. Por favor, vão agora e não voltem. Nunca mais, ─ O velho se virou para porta, sem se despedir.

─ Ir para onde? Eu não tenho lugar nenhum... nem ninguém.

─Deixe fluir a outra mulher que existe dentro de você. É hora de sucumbir a Evaque foi a vida toda... Acredite, a criança a guiará.

Malakoi Desviado - *DEGUSTAÇÃOOnde histórias criam vida. Descubra agora