Sem dúvida, Tarot era maior que Solaire. As construções em volta do castelo eram típicas de um povo em desenvolvimento. As poucas casas que resistiram à guerra tinham uma arquitetura robusta, eram adornadas com símbolos e runas que representavam a fé nas antigas crenças pagãs e que, agora, para a caravana de reconhecimento, não faziam nenhum sentido.
Cavalgavam por um chão que apresentava o tom preto, com um sangue velho, o que causava uma sensação de vazio em Eirian que percebia que o cheiro fétido do ar já não ardia suas narinas como antes. Lá, ao longe, jazia o castelo de Tarot, agora com bandeiras roxas que se estendiam da janela ao chão despidas da grandeza que representaram um dia, exibindo em seu lugar as marcas do fogo que aniquilaram toda a cidade.
Prenderam os cavalos próximos à entrada principal do castelo e seguiram a pé. Corvos esvoaçavam e se chocavam contra a porta, assustados com o grupo. O ar gélido denunciava que nenhuma pessoa permanecia ali, entre os cadáveres e as velhas mobílias. Ressoava apenas o eco das vozes estrangeiras.
─ Pelo estado desse salão principal, não conseguiremos salvar muita coisa daqui, ─ observou Vicar ao notar que a destruição no salão real.
─ Alguma mobília eu diria, gosto delas. Tem algo mais que somente a madeira, ─ teorizou Eirian.
─ Sim, tem os brasões deles, ─ Valentin indicou o óbvio, como de costume.
─ Vicar, vamos formar uma equipe para recuperar a mobília e, é claro, remover os brasões.
─ As coisas mais importantes com certeza estão lá em cima, ─ Valentin apontou a escadaria, que se dividia em duas, e dava acesso às extremidades do castelo.
─ Também não acho que joias e objetos de valor ficaram aqui, ─ complementou Vicar com seu tom de superioridade.
─ Valentin, me acompanhe pela direita. Vicar, vá com os guardas pela esquerda. Tomem nota de tudo que valha nossa atenção.
Eirian seguia na frente, passavam por vários aposentos e não paravam em nenhum. Ele queria chegar ao quarto mais alto, da torre, aquele que teria a melhor vista da cidade e certamente poderia ser o aposento real.
Valentin seguia logo atrás, observando o jovem líder e refletindo sobre os instantes que quase acabaram com a vida de Eirian. Relembrava a cena, tentando reviver o toque das mãos do rapaz nos seus braços. Suspirou forte. Precisava tirar estas besteiras da cabeça. Tomou a decisão: depois que saíssem de Tarot, deixaria o posto.
─ O último a chegar é um comedor de bosta, ─ Eirian desafiou Valentin.
─ Eu não vou correr, ─ o guarda recusou.
─ Vamos, faça um esforço. Sorria um pouco, Valentin! Vem!
─ Você vai perder.
─ Não vou. Suas calças ainda estão molhadas. Devia tê-las deixado no cavalo com sua camisa para secar.
─ Eu posso tirá-las.
─ Aí eu não teria chances.
─ Mas, com certeza, sairia na frente, antes que eu desamarrasse a bota! ─ Riram juntos.
O sorriso de Valentin quase que instantaneamente desapareceu quando ele disparou corredor adentro. Eirian o seguiu, mas não conseguiu alcançá-lo a tempo. Quando chegou no último quarto, o guarda parou contemplando o interior. Quando Eirian o alcançou, seus olhos acompanharam a visão estática de Valentin. Boquiaberto o príncipe hesitou para se aproximar, mas quando tomou coragem, perguntou:
─ Aquela... Aquela é a rainha?
─ Sim. A barriga dela ainda está grande, ─ respondeu Valentin, ─ Olhando-a desse jeito, foi uma crueldade o que fizeram com ela.
─ O que fizeram com ela? Está grande por que está podre há muito tempo, certo?
─ Não, meu príncipe. Ela estava grávida. Veja aqui, ─ Valentin apontou o ferimento do lado direito ─ Acredito que foi o primeiro golpe. Fazê-la sofrer primeiro com a morte do filho. Acho que estava com uns 8 meses, o bebê deve ter morrido na hora.
─ Isso é doentio, ─ Eirian estava pálido, ─ Mas ela não morreu somente com esse ferimento. O que é esta bagunça aqui embaixo? Por que amarraram ela?
─ Ela era a rainha pagã, de um dos reinos mais odiados pelo seu pai. Os soldados mais motivados violaram-na até a morte para comemorar sua vitória. Isso tudo enquanto ele assistia.., ─ Valentin apontou para o corpo do rei, ainda amarrado na cadeira numa posição vantajosa para assistir o fim de sua esposa.
─ Eu não consigo aplaudir esse reino, por mais que seja meu lar.
─ O povo também não, meu príncipe, principalmente as mulheres. Quando a notícia se espalhou, houve revolta. Talvez não tenha chegado até vossa majestade, mas as pessoas que reagiram, na frente de seu pai, estão agora nas masmorras.
─ Eu não quero pensar que isso realmente seja coisa do meu pai, ─ Andou pelo quarto observando outros que tiveram um fim violento, ─ Tem vários homens nossos aqui também, conheço estes dois, me ensinavam como manusear a espada antes de eu deixar Solaire. E estes pobres coitados de Tarot, pelos ferimentos ao menos parecem ter lutado bravamente para defender sua rainha.
─ Guerra não é beleza. Não pense no que foi feito, isso nunca irá mudar.
─ Talvez mude. Eu sei que a guerra é brutal, mas isto não é somente violência, Valentin, isso é crueldade. Transformar as terras em território Cristão por meio da maldade... Não é certo! Vou falar com meu pai.
─ Não! Isso acabou, não se envolva nesses assuntos. Seu pai... ele não gosta de ser contrariado. Vossa alteza sabe disso. Vamos continuar com o que viemos fazer. Quem sabe um dia, quando você for rei, consiga mudar alguma coisa, ─ Quando Valentin terminou, sua voz soava calma. Segurou os dois ombros do rapaz e sorriu com pesar. Apesar desse tipo de intromissão não ser algo que ele geralmente faria, o príncipe questionar o pai por atos de guerra certamente não seria bom para Eirian.
─ Você lutou muito por ele, não lutou? ─ perguntou Eirian, estudando as cicatrizes no peito de Valentin.
─ Por ele e por toda sua família.
─ Peço desculpas.
─ Desculpas? Por quê?
─ Por isso tudo. Pelo mal que te aconteceu. Desculpas reais, por favor, as aceite.
─ Pare com isso. Essa é a minha vida, não se desculpe.., ─ Valentin se desconcentrou ao ver fumaça pela janela, ─ Vamos, há algo estranho ali.
Os dois se aproximaram da janela. A fumaça, que ganhava forma e densidade, saia da chaminé de uma taberna que, estranhamente, estava intacta.
─ Valentin, vocês não tinham acabado com tudo aqui? Parece que a taberna foi esquecida...
─ Não foi. Isto é estranho. Eu mesmo lutei ali, estava tudo acabado... Ao menos, é o que me lembro.
─ Alguémdeve ter reconstruído. Venha comigo. Vou pedir para que Vicar termine deexaminar o castelo e nós vamos até lá.
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Malakoi Desviado - *DEGUSTAÇÃO
Historical FictionSaiba mais, me segue no ig: @referliberico OBRA PARA DEGUSTAÇÃO, OBRIGADO A TODOS :) "Como a culpa se materializa? É subliminar. Onipresente, nos finca em um ciclo de violência que nos obriga a nos reinventar. - Você tem certeza mesmo que abusaram d...