É Uma Cilada

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A neve ainda caía na manhã seguinte. Mais uma vez, como se já não fosse diferente dos outros dias, o céu estava cinzento. Valentin se arrumou e seguiu para a porta do quarto do príncipe, assumindo seu posto e esperando que ele levantasse.

─ Dormiu aí fora? ─ perguntou Eirian ao abrir a porta.

─ Não, vossa alteza. Cheguei a pouco.

─ Vamos andando, tenho muitos assuntos a tratar na cidade, preciso conhecer nosso povo, me estreitar com o comércio, conhecer quem paga e quem não paga os impostos, sabe como é... Essas coisas que nos edificam, ─ Valentin percebeu o tom de ironia, mesmo sem entender exatamente o motivo, ─ E meu grande guarda irá me guiar, ─ tocou no ombro de Valentin.

─ Claro, meu senhor, ─ disse Valentin, olhando de esgueiro, tentando enxergar a concubina que ainda dormia no aposento, ─ Por onde quer começar?

Eirian montou em Secoya, um cavalo branco pela qual sentia grande afinidade desde que voltara a Solaire. Valentin optou por Brutus, um alazão marrom que o acompanhou em várias guerras. Juntos seguiram para a cidade.

O príncipe gostava da pompa. Mantinha-se sempre com roupas exuberantes e adereços que trouxera dos países que visitou. Gostava do seu gibão, que delineava os músculos do seu tronco; acreditava que um príncipe jovem como ele devia estar sempre com a melhor aparência, e isso incluía os músculos bem cuidados e, é claro, roupas que os definissem. Homens e mulheres se impressionaram com sua beleza enquanto ele desfilava sobre o cavalo branco pelas ruas tortuosas de Solaire.

Valentin tentava não pensar nas palavras e no tom que príncipe usou para falar com ele na noite anterior, mas aquilo não deixava sua mente em paz. Ali, do seu lado, sentia que seus sentidos perdiam o controle. Seu coração palpitava fora de ritmo e isso o preocupava. Achava que estava começando a ter um apreço demasiado pelo príncipe, e esse sentimento parecia desleal com a corte.

Eirian puxou as rédeas de Secoya, desceu com elegância e, como se uma luz pairasse em torno dele, sorriu para os pobres e mendigos que, com olhos tristes, se prostravam um do lado do outro ao longo das paredes de pedra. Com atenção, era possível ouvir o ronco que vinha do estômago daqueles pobres. Tirou do cinto uma pequena bolsa de couro vermelha, e com um ar de ternura presenteou cada um daqueles miseráveis com moedas de prata. Estes, por sua vez, agradeceram a piedade com os poucos dentes que restam na boca a mostra. Atrás dele, crianças sujas e animadas se enroscam na capa do salvador de Solaire, que saudava todas com um olhar afetuoso, sem se preocupar com a sujeira que levaria para casa.

Valentin observava cada detalhe dos movimentos do rapaz como se estudasse um ser de outro mundo com muita atenção. "Ele é tão diferente dos outros daqui. Parece se importar... Ou será que está fingindo? Mas ele deu moedas para os pobres, não se importa em estar com as crianças catarrentas..."

Eirian abriu um sorriso largo e sincero para Valentin, como se quisesse dizer que as crianças tinham gostado dele e que estava feliz por isso. O guarda assentiu com a cabeça, mas continuou com seus questionamentos. "Não, isto não está acontecendo".

Além daquela situação ser estranha, as questões que surgiam em sua mente eram mais complexas. Ele parecia sentir coisas diferentes por Eirian. Talvez fosse o fato de não presenciar tais atos dentro do reino com frequência, ou talvez o príncipe fosse somente diferente. "Mas e se..." Tentava se policiar. Tudo bem que já tivera experimentado estar com outro igual a si no passado, mas isso era quando estava no campo de batalha, não havia mulheres e quase todo mundo fazia, mas ninguém comentava. "Aqui isso nunca será aceito".

O coito entre soldados no campo de batalha, apesar de ocorre com frequência, não era bem visto, principalmente para aquele que era subjugado. "Um homem nunca deve se portar como uma mulher," ─ era o que o batalhão de Solaire pensava. O asco de uns pelas relações com seus colegas e o repúdio de outros, misturados à guerra, transformavam homens em animais. A busca por sexo ocorria nas vilas que eram devastadas, onde as mulheres e as crianças eram vítimas inocentes de estupros coletivos. Se não havia mulheres, que viessem os colegas que aceitavam a prática ou até os cadáveres. Valentin poucas vezes recorreu às tais atos. Quando o desejo vinha, ele procurava ir para a floresta e se privar de atitudes que o levassem ao autojulgamento, coisa que fazia muito.

Apesar da sua aparência bruta, seu interior passava por mudanças. O ato carnal não era mais prioridade; o que buscava era vencer a solidão que ia enfrentar quando voltasse para casa. Talvez aquela fosse a guerra que Valentin mais temia, e sexo não iria compensar a tristeza que assolava o peito ao encontrar o lar vazio.

Três meses se passaram. O príncipe e Valentin tinham se tornado uma ótima dupla à serviço do reino. Revezavam suas tarefas, visitando os comerciantes e os pobres. Algumas vezes, Valentin precisava esperar Eirian sair do bordel, com uma cara de satisfação, entre uma visita e outra. Valentin ajudava o príncipe a refinar suas habilidades com a espada enquanto Eirian tentava alfabetizar o brutamonte e ficava feliz quando ele conseguia ler uma palavra sozinho.

O guarda apresentou o carvalho onde passava horas se distanciando do mundo à Eirian e, com o tempo, o príncipe entendeu porque Valentin gostava dali. A tranquilidade e a paz que sentia parecia ter o poder de silenciar a mente e acalmar o peito. Passou a acompanhar Valentin com frequência. Cada um com um livro, passavam horas sentindo a brisa fresca do lago no rosto enquanto o ar limpo invadia seus pulmões. De fato, a leitura estava se tornando um momento tão agradável para eles que às vezes se entocavam na biblioteca abandonada do castelo. Prateleiras, livros e pergaminhos dos mais variados tipos acumulavam poeira naquele lugar enorme. Era evidência de que, num passado distante, valorizava-se livros conquistados em expedições antigas, tradição forte até o avô de Eirian que caiu em desuso com seu pai. Era certamente um lugar que o príncipe gostaria de ver cheio de vida novamente.

─ So... Somen... te, ─ num dia desses Valentin se esforçava com um exemplar empoeirado.

─ O que achou? ─ perguntou o príncipe, levantando a capa pesada de couro e inspecionando o exemplar, ─ Parece um livro importante.

─ Parece velho, pesado, e cheira a mofo.

─ Deixe-me ver, ─ quando leu o "M" que simbolizava a inicial do nome do autor, seu coração dispara de curiosidade ao se lembrar da história de um sacerdote que escrevia com sangue negro sobre as páginas de linho cru, este sumiu de Solaire sem deixar rastros, diziam que ele era o homem mais sábio que viveu naquelas terras e seu avô o tinha como primeiro conselheiro real.

Sussurrou para si:

1 ─ Somente a pureza daquele que não foi contaminado será capaz de restabelecer a ordem.

2 ─ O sangue real será a honra e a destruição de seus pais.

O príncipe, emudecido, manteve os olhos fixos na página.

─ Falta alguma coisa, foi rasgado. Veja, ─ Valentin apontou para o óbvio.

Eirian folheou as páginas anteriores e descobriu que estavam com um antigo livro de profecias do reino. Ouviu histórias que seu pai, depois que foi educado acerca de certos escritos pelos sacerdotes, ordenou que todos parassem de ler e escrever. Ele se recusava a acreditar que era verdade. Se estivessem corretos, aqueles escritos poderiam prejudicar a realeza.

"Deve ser por isso que este lugar está tão abandonado. Com certeza tem algum bom motivo para meu pai proteger tudo isso. Onde será que está o resto dessas páginas?"

─ E aí? ─ Valentin interrompeu a reflexão de Eirian.

─ Como?

─ Você está a um tempo olhando para essas folhas velhas. O que elas dizem? Acertei o "somente" da primeira frase? ─ sorriu.

─ Sim, você acertou. Mas não tem nada que preste aqui, vamos achar algo melhor para você ler.

As coisas estavam indo bem entre os dois. Aos poucos, a confiança ia aumentando, mas a relação cordial e formal entre eles se mantinha firme. A intimidade típica entre amigos ainda não fazia parte da relação da dupla, e Valentin ainda sentia calafrios quando se atentava ao som da voz de Eirian. Toda vez que era surpreendido por essas sensações, ele as boicotava rapidamente, mantendo sempre a postura serviçal de prontidão.

Eirian,por sua vez, mantinha as ideias visionárias para o reino, sempre buscandotrazer algo novo para Solaire, melhorando o que podia e dando esperança ao povoque o via cada vez mais como o novo líder daquela terra. Tal inspiraçãorefletia diretamente sobre seus guardas, e especialmente em Valentin, quesuspirava de orgulho em cada atitude positiva do príncipe.

Malakoi Desviado - *DEGUSTAÇÃOOnde histórias criam vida. Descubra agora