À noite, Pietro, Bruna, Giovani e Miguel se arrumaram para ir à casa de Délia. Ao chegarem lá, foram recepcionados pelo casal. Vitor era um homem, a princípio, que parecia gostar da ordem e disciplina, já que se via todo o cuidado com a roupa bem alinhada e o bigode aparado perfeitamente. Pietro também percebeu a calvície e os cabelos penteados para o lado. De início, ele demonstrava seriedade, mas logo suas feições transformaram-se nas mais amigáveis possíveis. Délia e ele formavam um bonito casal.
Mas havia outro homem ao lado deles que despertou a atenção de Pietro - mais do que ele desejava que despertasse. Era um bonito rapaz, talvez fosse o filho dos dois, mas pelo que Giovani dera a entender mais cedo, ele deveria ser mais novo do que este que estava ao seu lado.
"Que bom que vocês vieram." Délia abraçou um convidado por vez.
"Nós meio que fomos intimados" Pietro respondeu no exato momento em que ela o abraçava. Assim, Délia lhe deu uma suave beliscada nas costas que fez Pietro rir.
"Pietro, esse é meu marido, Vitor. Ele tem essa cara de bravo, mas é gente boa. Ele é policial. E esse é um amigo da família, Rodrigo. Rodrigo, estes são Pietro, Giovani, Bruna e Miguel."
Devidamente apresentados, o grupo entrou para o jantar. Miguel sentou à mesa, inquieto, com Bruna ao seu lado e, logo após, Pietro, Rodrigo e Giovani. Délia e Vitor escolheram os lugares das pontas. Era um encontro íntimo, e a receptividade do casal ajudava a quebrar o gelo. Suas personalidades se mostravam receptivas e calorosas. O filho deles, Vinícius, apareceu brevemente e de pijamas, pois já havia jantado mais cedo e se encontrava pronto para dormir. Vinícius era uma cópia do pai e trazia consigo a mesma formalidade e seriedade. O menino ainda detinha um detalhe peculiar: uma pequena pinta preta perto dos lábios. Houve um estranho momento no qual ele não se sentiu à vontade para cumprimentar Pietro com as mãos, o que gerou seguidas admoestações por parte de Délia, mas que Pietro pediu para deixá-lo quieto, porque crianças eram assim mesmo.
"Esse garoto!" Délia pedia desculpas pelos modos do filho.
"Não tem problema, Délia. Nem eu gosto muito do meu irmão" Respondeu Giovani. Todos gargalharam. Miguel se ofereceu para ir pegar as bebidas. Bruna ao seu lado, fez um gesto de repreensão. Tem certeza?, ela dizia com os olhos, mas o rapaz fez questão de ser solícito.
Délia acompanhou-o até a cozinha para organizar tudo. Enquanto isso, Pietro sentia a figura de Rodrigo ao seu lado, sentindo suas terminações nervosas estourarem apenas pela presença ao seu lado. Sem dúvida, era lindíssimo, havia elegância em seus modos e uma espontaneidade invejável. Pietro se recusava a acreditar que aqueles sentimentos estavam voltando para ele... Pensava que poderia escondê-los por algum tempo.
"Délia me falou que você vai trabalhar na livraria." Ele tentou criar assunto.
"Sim. Eu sou mecânico, mas quero um emprego para logo."
"Vai ficar por muito tempo?"
"Talvez sim, talvez não... Tudo depende de..."
O diálogo foi interrompido pela silhueta de Miguel, que veio trazendo os drinks e se encontrava ao lado de Pietro para dar sua taça. Ele foi entregando os copos com as bebidas de lugar em lugar até que, enfim, se sentou na sua cadeira correspondente. Délia lhe passou uma jarra cheia com água, ao qual ele derramou no seu copo até a metade.
"Rodrigo fez os drinks. Só ele é capaz de fazer um desses sem ficar muito doce."
"Não fiquem com vergonha de me dizer se ficou ruim." Ele pediu, rindo.
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Mais que o tempo
RomansaPietro, um amargurado mecânico, retorna ao Vale do Café contra a sua vontade, após a vida em São Paulo ter tomado rumos que ele não havia planejado. Hospedando-se na casa do pai, com quem tem uma difícil relação, Pietro descobre uma porta que divide...
