Pietro acordou sobressaltado. Demorou a perceber a luz do dia entrando pela janela, transpassada pelas cortinas brancas. A casa se encontrava quieta, exceto por pequenos rumores de panelas na cozinha. Devia ser Caetano preparando o café para ir trabalhar. Na verdade, Pietro se sentia num torpor. Seu corpo se encontrava alerta, mas paralisado, a cabeça voltada para o teto. O que fora tudo aquilo que aconteceu na noite anterior? Bruna ao seu lado. É, devia ter sido apenas um sonho. Já se cansara do tanto de vezes em que tinha sonhos daquele tipo, frutos da sua sexualidade reprimida. Não seria estranho se os tivesse novamente. Mas aquele foi detalhado... Pareceu... Real...
Pietro saltou da cama de uma vez só. Eis sua surpresa ao sentir um pequeno objeto frio ao redor do seu pescoço. O colar! Cujo pingente era um anel! Mas... Mas ele havia recebido-o das mãos de... De Luccino! No sonho! Como era possível? Espantado, decidiu arrumar-se o mais rápido possível para contar o que lhe aconteceu para Délia. A única que poderia acreditar naquela sandice. Ora, era capaz de Bruna ter colocado o colar durante a noite! Aproveitando que ela acordou com os barulhos de Caetano na cozinha, Pietro indagou a respeito:
"Bruna? Foi você que colocou esse colar em mim?"
"Quê?" Disse, atrapalhada de sono "Que colar, Pê?"
"Esse" Mostrou
"Não, não fui eu, não. Onde conseguiu isso?"
"Tem certeza? Você não é sonâmbula ou algo assim?"
"Se em anos de casamento você não percebeu que não sou, então você é mesmo um péssimo marido" E voltou à sua posição de dormir, amuada pela noite anterior.
"Não vai nem me dizer se o Miguel passou a noite bem?"
Bruna virou o corpo, desperta.
"Sim, ele passou a noite bem"
Por um instante, passou pela cabeça de Pietro a dúvida de como ela sabia disso. Mas achou melhor perguntar direto para o seu amigo. Foi até o quarto de Miguel, deu dois toques leves na porta e ouviu sua voz dizendo para que entrasse.
"Licença. Vim saber como você está. É que ontem..." Pietro começou, desconfortável.
"Tudo bem, Pê. A Bruna..." Ele corou ao falar em seu nome "A Bruna me falou do vexame que fiz ontem".
Pietro sacudiu a cabeça em negativa, sentindo-se à vontade para se aproximar.
"Não é vexame nenhum. Recaídas acontecem. Mas vamos cuidar pra que aconteçam com menos frequência até desaparecerem. É como um band aid, certo?"
Miguel ajeitou o corpo na cama, esfregando as têmporas.
"Band aid. Continue."
"Não sou muito bom com essas coisas de emoção, Miguel. Como você vê, às vezes sou aleatório. Mas... Se nós passarmos muito tempo protegendo a ferida, não perceberemos que ela já secou. E pra isso acontecer, temos de ter coragem de tirar o band aid com tudo."
"Mesmo que arranque uns pelinhos"
"É"
Os dois riram. Porém, logo Miguel voltou à expressão soturna.
"Mas... De verdade. Queria me desculpar por ontem. Eu estava sendo forte, mas... Mas me sinto tão frustrado boa parte do tempo!"
"Eu acho que você tá sendo forte agora. Quase consigo entender seus sentimentos. Quase. Mas as nossas frustrações são diferentes."
Miguel mostrou os olhos brilhantes.
"Você acha? Eu acho que são parecidas. A questão é que eu coloco isso em algum lugar. Foi daí que me tornei o bêbado. Você não. Desculpa Pietro, mas você também é frustrado como eu. Só que você guarda. Nessa vida onde a gente é incentivado a ter a emoção de uma pedra, ninguém te julga. Podem até romantizar isso. Achar você atraente porque é o homem misterioso... Ficam doidos tentando dar uma razão a tudo. Só que as pessoas enlouquecem e são diferentes até na loucura, já percebeu? Eu não saberia guardar nada, mas como também não quero lidar, preciso jogar o fardo em algum canto."
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Mais que o tempo
RomantikPietro, um amargurado mecânico, retorna ao Vale do Café contra a sua vontade, após a vida em São Paulo ter tomado rumos que ele não havia planejado. Hospedando-se na casa do pai, com quem tem uma difícil relação, Pietro descobre uma porta que divide...
