Ao chegar à livraria, Pietro abordou Délia com a mesma afobação.
"Aconteceu de novo! Fui até o passado através da porta!"
Délia, assustada, mandou que ele se sentasse atrás do balcão em seu lugar.
"E o que aconteceu dessa vez?"
"Você não vai acreditar! O Miguel. Quero dizer, o Randolfo! Não! O Randolfo era amigo do Otávio. Randolfo é o Miguel. E sabe do quê mais? O pai do Luccino veio me ameaçar no quartel. Sabe quem é ele? O meu pai!"
A bibliotecária tapou a boca com as mãos.
"Uau, Pietro! Você simplesmente abriu a porta e estava lá? No quartel? Quer dizer que a porta dá pra outros lugares além da casa? Por que o pai do Luccino veio te ameaçar?"
"Sim, ela deu direto pro quartel. Ele disse que já tinha me ameaçado uma vez. O irmão do Luccino, Virgílio, deu um tiro no próprio pai não sei por qual razão. Só que o Gaetano, o pai, melhorou e veio me ameaçar de novo. Ou eu abandono Luccino ou ele conta pro coronel toda a verdade. E não faço ideia da decisão que o Otávio tomou."
Délia demorou um tempo para responder.
"Pietro, você acredita em vidas passadas?"
"Tipo viver várias vidas? Aquela coisa de espiritismo?"
"É. A ideia de que este corpo abriga um espírito imortal que atravessa o tempo... E várias vidas... Buscando a evolução. Querendo se redimir de erros às vezes milenares. Sabe? A ideia de que a vida não cessa com a morte."
"Eu sei, tenho alguma ideia sobre. Mas então você acha que..."
"Que você é a reencarnação do Otávio, assim como o Caetano é a reencarnação do Gaetano, o italiano ranzinza do século XIX. Algo aconteceu neste passado que vocês precisaram retornar. Um resgate. Um arrependimento. Algo que ficou pendente. O que acha disso?"
"Eu não sou tão cético, mas... É, no mínimo, estranho. Por que eu tive a oportunidade de ver quem eu fui em outra vida?"
"Isso é impossível de dizer. Mas não quer dizer que você não deva aproveitar essa chance, não é? Pra isso você vai ter que continuar indo até lá."
"Mas isso quer dizer que todas as pessoas que conheço estão ligadas a essa história também?"
"Acho que nem sempre. Mas confesso que estou curiosa pra saber se participei dessa história... Não deixe de me contar se me ver por lá."
Pietro riu.
"Às vezes nem acredito que você embarcou nessa história comigo."
"A loucura da realidade não é nada confortável. Eu prefiro a loucura da fantasia."
Dito isso, Délia piscou, atrevida. Seu telefone começou a tocar e ela correu a um canto reservado para atender. Nesse tempo, Rodrigo chegou à livraria acompanhado de uma mulher bonita de olhos graúdos e boca bem marcante. Logo Pietro começou a engolir em seco, em pleno nervosismo.
"Oh, Rodrigo. Veio pedir outra indicação?"
"Sim, mas dessa vez trouxe a pessoa comigo. Essa é minha namorada, Ágata".
Foi como se Pietro tivesse recebido um soco no rosto. Então o Rodrigo é hétero! E tinha uma namorada! Pietro ficou vermelho de vergonha. E estava se permitindo ficar interessado pelo rapaz! Queria se enterrar num buraco, mas teria de lidar com sua vergonha após atender a moça - lindíssima, por sinal. Antes de levá-la para os corredores com livros, Pietro observou Rodrigo distraído. Aproveitou a deixa para revirar os olhos. Como eu me iludo!
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Mais que o tempo
CintaPietro, um amargurado mecânico, retorna ao Vale do Café contra a sua vontade, após a vida em São Paulo ter tomado rumos que ele não havia planejado. Hospedando-se na casa do pai, com quem tem uma difícil relação, Pietro descobre uma porta que divide...
