A oficina se encontrava na penumbra. Luccino e Otávio estavam abraçados no carro, cansados da noite anterior. Haviam passado a noite juntos, num êxtase de felicidade e desejo. Luccino adorava o silêncio daquele lugar, pois, junto a Otávio, podia escutar sua respiração, a princípio cansada, tornar-se lentamente normal pelo conforto da sua presença.
"Luccino?"
"Hum?"
"Não me leve a mal. Mas eu tenho um carinho muito grande por essa oficina. Aqui aconteceram os melhores momentos das nossas vidas. Eu sinto que esse lugar é quase vivo. Que ele tem uma história, sabe?"
"A nossa história?" Luccino completou-o docemente, beijando suas bochechas.
"A nossa história. A noite de ontem foi..."
"Apaixonante?"
"É. Você é a minha casa, Luccino. A minha família." Otávio começou a chorar. Pietro conseguia entender a sua dor.
"Ei, ei, ei. O que foi?"
"É que... Eu tenho tanto medo, Luccino..."
"Medo?"
"É... Eu não tenho ninguém. Eu não posso te perder."
"Ei, você não vai me perder. Nunca. Ninguém solta a mão de ninguém, lembra?"
"Mas e se... E se eles... E se o mundo não gostar da gente? Se eles nos odiarem?"
"Eles já nos odeiam, Otávio. Não importa o que a gente faça. Então, você acha que temos de nos importar com isso?"
"Se isso envolve perder você, sim."
"Meu amor" Luccino segurou suas mãos. "Nós não vamos nos perder, tá? Eu sempre vou encontrar você."
Otávio sorriu e beijou-o. Preferia perder o fôlego com um beijo do amado do que com uma preocupação tola. Isso pensava o major. Mas Pietro ainda não tinha certeza do futuro dos dois. Não sabia o restante da história.
"Não mereço você. Eu menti pra você e você me devolve com amor. Às vezes só queria que você me devolvesse com um golpe de florete."
Luccino riu, cínico.
"Podemos fazer isso, amor."
"Bobo!"
Ele riu.
"Olha, Otávio. Eu só não quero que você pense que não posso lidar com as coisas. Eu sou forte. Você não precisa enfrentar tudo sozinho. Devia ter me contado que meu pai foi ameaçá-lo antes do tiro. Ele não voltou a procurá-lo, voltou?"
Pietro resolveu intervir no pensamento de Otávio.
"Não. Não voltou." Mentiu ele.
Luccino chegou perto de seu rosto e encostou seu nariz no de Otávio.
"Virgílio não aparece em casa desde o tiro. Queria entender por que ele prefere obedecer ao Xavier do que fazer as pazes com a família. Tudo bem, o Ernesto não é o irmão mais sensato do mundo. Mas ele não deixava de ter razão quando enfrentou o Xavier pra defender o pai e a mãe desse tirano."
"Xavier é horrendo, não é?"
"Se é! Tenho medo dele não deixar barato com Ernesto."
"Não se preocupe. Ele já fez o bastante com seu pai."
Luccino concordou.
"Obrigado por me acalmar."
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Mais que o tempo
RomancePietro, um amargurado mecânico, retorna ao Vale do Café contra a sua vontade, após a vida em São Paulo ter tomado rumos que ele não havia planejado. Hospedando-se na casa do pai, com quem tem uma difícil relação, Pietro descobre uma porta que divide...
