CopyCat (Imitador):
Que ou aquele que faz imitações (diz-se de artista).
PENNELOPE NÃO AGUENTAVA MAIS ver tanta papelada.
Enquanto seus pulsos doíam pelos movimentos repetitivos que fazia ao assiná-los, sua coluna se mantinha curvada sobre a mesa que as vezes parecia grande demais para si. As postura nunca fora seu forte, muito menos a elegância que a maioria das pessoas com cargos semelhantes ao seu tinham. Suas unhas batucavam a mesa, e ela bufou alto. Porque havia aceitado a promoção? Ela sequer se recordava, mas agora tinha certeza que nunca a aceitaria se tivesse a chance. Trabalho de campo era sempre tão mais interessante.
Ela se levantou, arrumando a jardineira dois números maiores que usava em seu pequeno corpo, e que ficava tão folgada que caberia outra de si ali dentro, assim como a camiseta listrada de mangas compridas que usava por baixo. Em seus pés, seus velhos all star pretos surrados, e em suas mãos suas luvas de couro sem dedo preferidas. Se espreguiçou, entediada demais para pensar em voltar para os milhões de documentos sobre a sua mesa. Ela ainda tinha tanta energia.
Seu escritório era enorme. Não só pelo seu pequeno tamanho, mas também porque ele realmente era gigantesco. Tudo ali parecia ser grande demais para ela, e ela nem mesmo alcançava as pratilheiras mais altas da estante de livros a sua esquerda. Pegou o pequeno pote laranja de comprimidos que estava em cima da grande mesa, o abrindo e pegando um dos comprimidos de cor azul que havia ali dentro. Logo em seguida, o colocou na boca, o engolindo a seco.
Estralou seus dedos enquanto esticava as pernas, limpando sua garganta logo em seguida. Ah, como ela queria conversar com alguém! Faziam horas que não abria a boca para nada além de bocejar, o que vinha fazendo com muita frequência nos últimos anos, e ela simplesmente estava faminta. Então, não pensou duas vezes antes de seguir em direção a porta do lugar, saindo em um extenso corredor.
Estava vazio, assim como sempre costumava estar, então ela não se importou em andar calmamente, saindo em disparada para seu fim. Havia um elevador ali, que sempre se parecia velho demais e perigoso demais para Pennelope. Era um modelo dos anos 50, e mesmo que passasse por manutenção frequentemente, ela nunca andava na máquina sem se segurar em algum lugar.
Quando entrou, seu destino se tornou o primeiro andar. Lá era onde as coisas pareciam acontecer de verdade, e talvez fosse por isso que adorasse passar o tempo lá. Em tempos passados, a pequena garota sequer sabia da existência daquele grande edifício.
O primeiro andar era enorme, aberto, e repleto de pessoas. Todas elas sempre com a expressão fechada, bem vestidas e andando as pressas quase como se fossem chegar atrasadas se não se apressarem. Ela riu com o próprio pensamento fútil. "Como se o tempo passasse nesse lugar, não é?"
Logo ao lado da entrada, havia uma pequena recepção repleta de valhas malas pretas. A mulher que estava ali, em seu expediente, se mantinha concentrada em uma ligação enquanto anotava algo. Quando Pennelope a viu, abriu um sorriso. Enquanto desviava das pessoas, seu pequeno e esguio corpo andava rápido em direção a recepção, hora ou outra se esbarrando em alguém, mas não tinha educação o suficiente para pedir desculpas.
Quando a mulher ao telefone a avistou, revirou os olhos.
— Ora ora, se não é minha velha amiga Lydia?! —Bem, Pennelope não sabia se seu nome era realmente Lydia, mas a mulher nunca parecia se importar de ser chamada assim. 'Lydia' bufou, finalizando a ligação. — Recepcionando muitos agentes?
— A Senhora não deveria estar preenchendo os formulários que te enviaram? — Ela ignorou a pergunta, indo direto ao ponto. Pennelope odiava ser chamada de Senhora, mas mesmo que quisesse, ninguém era chamado pelo próprio nome dentro daquele lugar.
— Ah, vamos minha comparsa! Você sabe o quanto eu não suporto aquele trabalho! — Pennelope se apoiou no lado de fora do balcão da recepção, enquanto 'Lydia' se mantinha no lado de dentro.
— Então porque o aceitou? — Ela não parecia muito interessada na resposta, mas sabia que era regra tratar bem ao superiores. "Superiores? Ela tem 14 anos!"
— Me disseram que eu ainda teria trabalho de campo. — Bufou, enquanto 'Lydia' deu um sorrisinho evitando debochar da garota. — Só não disseram que seria uma vez a cada século!
— Não é uma vez a cada século. — Corrigiu 'Lydia'. — Você interfere quando alguma missão é impossível de ser completada pelos agentes de campo, e pode trazer grandes consequências. — Agora a mulher olhava para Pennelope com um olhar superior. A garota riu.
— Ah claro, como eu me esqueci disso? — A mulher travou a mandíbula, irritada com o deboche da garota. — Eu só não esperava que os agentes simplesmente NUNCA fossem incapazes de terminar uma missão! Eu também era boa assim?! — 'Lydia' não falou nada. Ela era, pensou. Afinal, ela faz parte do alto escalão agora, não é? Os grandes maiorais. — Eu acho que vou sair pra tomar um chá, quer ir comigo?
Esse era um fato. Pennelope havia sido uma incrível agente, e agora fazia parte dos grandes supervisores daquilo tudo. Mas, porque ela ainda se dava o trabalho de falar consigo então? 'Lydia' suspirou, finalmente se dando por vencida, e sorriu para pequena garotinha a sua frente. Ela podia ser irritante, mas ainda era a pessoa mais doce daquele lugar inteiro.
— Obrigada, mas você sabe que eu não posso, Senhora. — A garota assentiu, fechando a cara. — Talvez outro dia, que tal?
'Lydia' tinha certeza de que a garota seria a unica pessoa do alto escalão que veria em toda a sua vida, e saber disso as vezes a deixava irritada. No fundo, sentia inveja da jovem, porque nunca seria como ela, e saber que ela não estava satisfeita com isso era como jogar na cara que ela podia não gostar daquilo. 'Lydia' nunca iria sentir ao menos o gosto.
— Ok, Lydia. — A garota sorriu levemente, arrumando sua postura. — Vou deixar você trabalhar.
Todos ali sabiam a fatídica história de The CopyCat, e sequer imaginavam o que era estar presa a tudo aquilo desde os 14 anos de idade. Mas não havia ninguém no mundo que compreendesse a profundidade de Pennelope, uma garota cuja infância fora tomada de si antes que tivesse a chance de sequer conhecê-la, e que tinha 14 anos a tanto tempo que seu maior medo era envelhecer. Pennelope dava pena a muitos, mas não mais do que a ela mesma.
Quantos anos ela teria agora, se tivesse crescido?
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Mission Of The CopyCat ※ Number Five
AdventureApós ser promovida a supervisora e passar anos sem receber missões de campo, Pennelope, The Copycat, recebe a difícil e estranha tarefa de executar um ex-agente. Ela só não esperava que essa se tornasse a única missão que talvez não fosse capaz de c...