Haviam se passados vinte e quatro horas desde que Levi havia deixado a casa dos tios depois da confusão do dia anterior, o carro de seus pais não se encontrava mais ali e por isso ele teve coragem o suficiente para entrar na casa.
- Levi! - Sua tia deixou a travessa de vidro cair contra o chão. Aparentemente eles haviam tido um almoço em família.
- Eu só vim ver se eles ainda deixaram alguma coisa - O garoto respondeu de cabeça baixa, não queria olhar para a tia que tinha lágrimas de alegria em seus olhos por ver o sobrinho, que para ela, era como um filho.
- Você não vai ficar? - Ela perguntou triste e andou até o sobrinho, ela observou com certa atenção pela primeira vez as tatuagens do sobrinho, e viu que todas tinham um certo significado para o mesmo.
- Não.... Eles vão voltar atrás de mim - Ele disse e ela segurou as mãos dele e o puxou para um abraço apertando, o surpreendendo de forma imensa.
- Entendo... - A voz dela era triste, quebrou o abraço e segurou o rosto do sobrinho entre as mãos e o observou, era como se ela quisesse decorar cada traço de seu belo rosto - Vai vir nos visitar, não vai?
- Como eu não viria? - Ele se decidiu. Iria ceder um pouco a sua tia, afinal, ela havia o criado - Eu não conheço outra mãe - A mulher abriu um enorme sorriso mostrando suas rugas por culpa da idade e abraçou o sobrinho mais uma vez.
- Você é um filho para mim Levi - Ela disse e segundos depois quebrou o abraço - Pegue o que sobrou, eu vou ver se tenho um dinheiro guardado para dar a você.
- Não precisa.... - Ela deu um leve tapa em seu braço e sorriu.
- Preciso sim - Ela afirmou já começando a ir em direção a seu quarto. Levi deu de ombros e foi para o seu quarto.
Como pensou, não havia sobrado muitas coisas, mas por sorte seu dinheiro estava intocável. Colocou tudo o que tinha sobrado dentro de uma mochila e o dinheiro dentro de duas carteiras, cada uma com um pouco mais de dois mil dólares e enfiou dentro da mochila. Foi para a entrada e sua tia já estava a sua espera com algumas notas de cem dólares em mãos. Levi parou a alguns metros dela, e a observou, o vestido rosa pálido e um pano de prato dentro de um dos bolsos da frente do mesmo, os cabelos negros com alguns poucos fios brancos presos em um rabo de cavalo baixo, o olhar preocupado que se estendia além da vista da janela. Ele se aproximou com cuidado dela.
- Tia... - A voz baixa e triste de Levi a tirou de seu transe, ela o olhou com lágrimas em seus olhos.
- Seu tio e Mikasa logo vão estar de volta, é melhor você ir - Ela lhe entregou quatro notas de cem dólares, não era muito comparado ao que Levi ganhava em um único trabalho, mas o significado daqueles quatrocentos dólares era de um valor infinito - Sei que, não é muito.... Mas deve ajudar.
- E vai... Vai ajudar muito - Ele pegou as notas com certo receio já que ela poderia precisar das mesmas. Mais uma vez, ela o abraçou - Tia vai me sufocar.
- D-Desculpa... - Ela sorriu tristemente enquanto observava, pela provável, última vez seu sobrinho que mais considerava como um filho - Volta para uma visita, é um aviso.
- Como eu poderia não voltar? - Ele sorriu de canto, já que aquilo era o máximo que iria conseguir - Até logo, tia...
- Até logo querido - Ela observa Levi abrir a porta e em seguida jogar a bolsa dentro de seu carro e entrar no mesmo, o motor do carro e ligado e logo o mesmo se afasta.
A mulher continuo olhando o veículo se afastar por mais algum tempo, e só sai de perto da janela quando o mustang já não pode mais ser visto.
Levi não fazia a menor ideia de onde iria ficar até conseguir o resto da grana que precisava para sair da Flórida, mas sabia que teria que esconder seu carro já que o mesmo chamava atenção demais. Virou em uma esquina e sua mente se lembrou do terreno atrás do teatro, era um bom lugar e ninguém iria mexer em seu carro já que qualquer um que poderia fazer isso, o conhecia.
Era definitivamente oficial, ele estava completamente ferrado.
Vinte e quatro horas. Mil quatrocentos e quarenta minutos. Oitenta e seis mil e quatrocentos segundos. Esse foi o tempo que Eren ficou sem saber absolutamente nada de Levi, passou o domingo em casa com seu pai - Pela primeira vez em meses - mas obviamente não saiu de perto do celular caso Levi o enviasse uma mensagem ou coisa do tipo.
O jovem estava completamente distraído durante a aula de filosofia, na sua opinião filosofia jamais seria uma matéria importante para alguém que quer trabalhar com.... Nem ele mesmo sabia, mas sabia que sua última opção era um hospital.
- .... E por isso os filósofos em sua maioria não acreditam no destino - Por alguns segundos prestou atenção no que o professor dizia.
Destino. Existia mesmo essa coisa de destino? Se existia, por que era sempre imprevisível? Eren odiava pensar sobre algo que possivelmente nunca haveria uma resposta concreta, mas podia admitir que o destino era algo valioso demais para se saber muito sobre ele, esse tal destino trabalhava de forma majestosa, especialmente quando o uniu ao rapaz que está se tornando o centro de seu universo de forma nada sutil e rápida.
- Eren? - O professor o chamou e ele acordou de seus pensamentos e olhou o velho homem - O que acha do destino?
- Um completo babaca - Respondeu e a sala caiu em gargalhadas, mas o garoto continuou sério quanto sua resposta.
- Por que? - O professor perguntou novamente quando a sala finalmente se calou, os olhares se voltaram para Eren.
- Por que... Ele sempre acaba fazendo coisas babacas - Respondeu de forma óbvia, afinal, não queria continuar respondendo aquelas respostas.
- Entendo que não esteja confortável em responder - O professor disse coçando sua barba esbranquiçada e Eren deu de ombros - Mas seja sério em suas respostas.
- Destino só serve pra ferrar a gente - Um garoto ao fundo da sala respondeu e Eren agradeceu mentalmente por não ter que responder a mesma coisa.
- E é por isso que a maioria dos filósofos não acredita em destino - A voz de Mikasa surgiu em meio ao pequeno silêncio que surgiu na sala.
Logo o som do sinal inundou os ouvidos de todos, e mais uma vez, Eren havia sido salvo de responder qualquer pergunta. Seu dia estava realmente uma merda.
- Eren você dormiu bem? - Armin perguntou quando se sentou ao lado do amigo que possuía alguns círculos escuros debaixo de seus olhos esverdeados.
- Sim.... - Mentiu. Isso estava se tornando tão comum.
- Não parece - O loiro disse e observou o amigo por mais alguns segundos - Não vai comer nada?
- Não estou com fome - Se debruçou sobre a mesa cinza e verde, verde por conta do acinzentado que descascava cada vez mais.
- Ele parece mal - Historia se sentou a mesa, acompanhada por Ymir e logo em seguida Mikasa.
- Com certeza - Ymir disse olhando o jovem garoto.
- O que ele tem? - Connie havia pegado parte da conversa, e se sentou ao lado do amigo.
- Decepção - Mikasa disse, com a agora, tão comum voz gélida e face séria.
- Por? - Armin pergunta e logo entende o por que - Coração quebrado.
- Que fofo - Historia soltou em um pequeno resmungo, torcendo para que ninguém ouvisse, mas acabaram ouvindo mesmo assim.
- Deveriamos ir em algum lugar hoje - Sugeriu Connie - Não é bom ele ficar nessa.
- Concordo, quem sabe o problema vai embora? - Ymir sugeriu.
- Ele volta! - Eren se pronunciou em meio a conversa dos amigos, que agiam como se ele não estivesse ali - Ele volta... - Se levantou da mesa deixando os amigos sem qualquer palavra.
Ele caminhou até o outro lado do patiu e comprou uma latinha de Coca-Cola, e em seguida subiu as escadas. Queria ficar sozinho, longe de seus amigos que com certeza, iriam continuar dando suas opiniões sobre algo que não sabiam.
Sentou em um dos últimos degraus da escada e abriu sua latinha, dando um longo gole na mesma, mexeu em seu bolso e pegou seu celular, desbloqueou o mesmo de forma rápida e ligou para Levi. Nada. Tentou mais uma vez. Nada. Mais uma. Nada. E mais uma.
- Alô? - Finalmente ele havia atendido o telefone, por alguns segundo o coração de Eren se acalmou.
- Babaca - A voz falha foi tudo o que o jovem conseguiu soltar naquele momento, estava tão feliz em saber que Levi estava, pelo menos, vivo.
- Olha bem como fala comigo pirralho - O mais velho reclamou, mas claramente parecia feliz em ouvir a voz de seu garoto - Não está na escola?
- Estou... Intervalo - Fez uma breve pausa para recuperar o fôlego - Onde você está?
- Teatro - Respondeu de forma sonolenta - Tive que vir pra cá, eu me alto expulsei da casa dos meus tios.
- Mikasa não falou nada sobre isso - Mesmo que o outro não pudesse ver, Eren deu de ombros.
- Ela está desconfiada - Falou de forma simples, mal ele sabia o que aquilo causaria no garoto - Quer que eu vá te buscar?
- Quero... Quero muito - Por alguns segundos, o garoto afastou o telefone para poder tentar respirar com mais clareza, voltou a colocar o telefone no lugar.
- Tudo bem.... O que aconteceu? Você está meio.... Sei lá.
- Só estava preocupado com você, Levi você não me deu notícias a vinte e quatro horas!
- Eu não vou morrer sem avisar você primeiro pirralho - Aquilo era de deixar Eren P da vida, como Levi poderia dizer isso de uma forma tão natural?
- Não ouse morrer - Alertou o jovem e pode ouvir uma risada do outro lado da linha, o que o deixou ainda mais calmo.
- Não vou morrer - Fez uma breve pausa e Eren pode ouvir o som de garrafas rolando e em seguida se quebrando - Ops... Tenho que ir.
- Até daqui a pouco - Foi tudo o que o jovem conseguiu dizer antes que a ligação fosse encerrada.
Eren olhou para seu celular por alguns longos segundos e voltou a guarda-lo em seu bolso, logo em seguida voltou a tomar sua Coca.
As garrafas com certeza fizeram um barulho enorme, o que poderia acordar os fantasmas adormecidos. Não que Levi tivesse medo deles.
- Reiner - Levi disse se sentando em uma das poltronas, já havia percebido a presença do ex amigos a algum tempo, mas quanto ouviu as garrafas rolarem, teve que desligar a ligação o mais rápido que pode, não podia colocar o garoto em perigo.
- Meu chefe tem um trabalho pra você - Disse Reiner enquanto se sentava ao lado de Levi, que nem mesmo olhou para o rapaz.
- Diga logo e vá embora, sabe que vou aceitar - Respondeu de forma ríspida, queria se ver livre daquilo logo.
- Grisha Jaeguer - O nome não lhe era estranho, e pelo sobrenome, sabia que tinha algo haver com Eren - Dono do hospital Central, está envolvido com tráfico de órgãos.
- Não me interesso sobre essas coisas, mas só quero saber por que pegar ele? - Era uma pergunta arriscada para um transportador fazer, mas era alguém envolvido com seu garoto e ele queria saber o por que transportar aquele homem.
- Só tem que leva-lo ao aeroporto amanhã a tarde, iremos assumir de lá - Disse apenas e se levantou - Levi tome cuidado, esse médico pode ser muito persuasivo.
- Não se preocupe, se ele estiver pelo menos sedado, não vai haver problema algum - Girou o celular entre as mãos.
- Ele não vai estar sedado - Reiner se virou para o ex-amigo.
- O que? Sabe que só transporto pessoas se elas estiverem sedadas! - Se levantou e foi até o amigo.
- Mas ele sabe de tudo, ele é parte de uma boa grana que a gente ganha - Explicou Reiner.
- Estou pouco me fodendo! Arrumem outro! - Disse de forma grossa, era claramente um alerta para Reiner ir embora, e foi o que o mesmo fez. Havia recebido sua resposta e agora poderia voltar para o Sul, mas algumas coisas ainda não estavam resolvidas para ele. Especialmente com um certo amigo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Born To Die
Fiksyen PeminatSua alma rebelde fez com que Levi fosse abandonado pelos pais com os tios que haviam tido uma filha a pouco tempo. Seus tios criaram ele e sua prima da melhor forma possível, mas isso não foi capaz de mudar o jeito que Levi via as coisas no mundo, m...
