Hoje não foi um dia tão bom assim. Foi um dia nublado, cinza, vazio, turbulento e insuportável. Foi o estilo de dia que nada está ao seu favor e você apenas quer apagar e fingir que o dia nunca aconteceu. São 10 da manhã e estou caminhando solitariamente nas ruas de meu bairro. A mesma rua de todos os dias. O vento frio vindo sobre minha direção, razoavelmente forte, quase congela minha face. Tiro a mão do bolso e a levo até meu rosto. Me sinto uma cadáver de tão gelada. Meus pés já estão andando automaticamente, pois minhas forças já me abandonaram a tempo; a mais ou menos uns 5 minutos atrás. Hoje tive que sair mais cedo da escola pelo incrível motivo que eu cai dentro da piscina olímpica. Isso também explica parte do grande drama sobre o frio. Depois de sufocantes 40 minutos andando nas ruas congelantes da região serrana do Rio de Janeiro, eu finalmente chego em casa. Subo direto para meu quarto para evitar um possível sermão. Tudo que eu faço é jogar minha mochila na cama e ir direto para o banheiro para um banho quente, mas não faço isso. Depois de entrar no banheiro e trancar a porta eu me viro para o espelho e encaro meu reflexo. Nada ali é como eu queria. Nada é do meu agrado. Eu não estou falando somente do meu reflexo, estou falando de mim. Tudo que sei sentir é um vazio inexplicável e um frio gigantesco e olha que nem é sobre eu ter vindo molhada na friagem, é um frio interno, um frio de sentimentos, uma grande geada. Um turbilhão de pensamentos, culpa e julgamentos relacionados a mim mesma. As lágrimas já começam a descer na mesma velocidade que eu vejo tudo ficando tão confuso e agonizante e tudo que eu consigo fazer é me afastar do espelho, encostar as costas na parede e ir lentamente até o chão. O chão está frio e é uma enorme semelhança comigo, com meu estado. Parece que nada fora desse banheiro existe mais, tudo está desmoronando, tudo está se reduzindo a pó. Tudo aqui dentro e tudo la fora. As coisas já pararam de fazer sentido. Tudo que ouço em minha mente é... alguém batendo na porta?
- Bruna, desça já para almoçar! - minha mãe grita do lado de fora e ainda vejo a sombra dela pelo vão da porta esperando uma resposta.
Preciso de alguns segundos para me recompor e conseguir responde-lá sem que perceba qualquer problema. Respiro fundo com os olhos fechados e a cabeça virada para o teto e engulo todo sentimento vivo.
- Eu já estou indo mãe - respondo e solto todo ar que prendi e junto com ele as lágrimas também se libertam de meu corpo.
Lentamente abri meus olhos e tentei encarar de frente a realidade. A realidade cruel é que a vida não para e nunca vai parar. Ela não vai simplesmente pausar e esperar eu me recompor e nada disso, mas ainda assim era tudo que eu precisava. Então fiz um banho bem quente com sais na banheira para eu ter pelo menos alguns minutos de pausa na vida. Eu só preciso de alguns minutos. Antes de tudo coloco uma música no celular, que fica em cima da pia. Passo minha mão pela água para me certificar que está tudo perfeito e em um impulso automático de rotina meus pés estão entrando em contato direto com a água relaxante da banheira. Recosto o máximo possível e só fecho meus olhos e levo toda minha atenção para a sensação que a água causa em meu corpo e a música em minha mente. Até que começa uma música do Avicii por minha playlist estar no modo aleatório. O susto me fez acordar para vida e levanto antes que minha mãe me grite novamente. Escolho uma roupa bem confortável e vou andando lentamente até as escadas. Chegando no meio da escada eu ouço vozes familiares... minha família. Não acredito que minha mãe chamou a família para cá. Paro por uns segundos e respiro o mais fundo possível e com um sorriso falso no rosto encaro tudo e todos de frente.
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Cartas a Marte || Completo
RomanceUm romance adolescente que vai quebrar tabus de sentimentos. Um ponto de vista de quem amou, ama e espera.
