Capítulo 8

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Estou deitada em minha cama abobalhada de ter visto o pôr do sol ao lado dele. Mas muita coisa eu não sei ainda. Vai que os pais dele são assassinos. Ou ele vende órgãos e está me seduzindo para me vender. Caio no sono com meus pensamentos totalmente fora de órbita.

Acordo meio zonza. Só de calcinha e uma blusa de manga. Eu necessito de uma dipirona. Desço as escadas direto para à cozinha.

- Bom dia, Bruna! - ouço assim que viro em direção a cozinha. Era a voz do Hugo! Eu gelei e minha face estava corada. Virei devagar e ele estava olhando para minha bunda e logo subiu o olhar. Estava com uma xícara na mão e o cheiro de chá exalava pela sala. Fiz uma careta e coloquei o indicador na boca para que ele não contasse para minha mãe que havia me visto.

Subi correndo e só coloquei um jeans e minhas meias. Troquei a blusa, colocando a do uniforme. Coloquei a mochila nas costas e levei o tênis na mão até a sala. Peguei um achocolatado em caixa e convenci o Hugo a irmos.

O clima estava frio e úmido. Minhas bochechas vermelhas e geladas. Hugo estava com sua face amassada de sono e seu cabelo estava mais bagunçado que o normal. Percebi seus olhos um pouco avermelhados e ele não tinha puxado assunto algum durante o caminho.

- Hugo – quebrei o silêncio que se instalava, apesar de toda barulheira do centro a essa hora.

- Oi, meu anjo – respondeu sem olhar para mim e parecia cansado.

- Qual sua história? - perguntei apenas para puxar assunto.

- Por onde começar... - pensou olhando para baixo e logo que levantou estava com lágrimas nos olhos – Minha mãe morreu um pouco antes de eu te conhecer. No dia que te salvei, eu estava andando pelas ruas para pensar na vida, ou em qualquer solução para tirar ela. Eu não tinha muito contato com ela, mas eu a amava, sabe? Geralmente escondia as coisas dela e tinha brigas e ela se foi sem que eu pudesse ter a oportunidade de dizer tudo que eu sentia de verdade. Eu fui um adolescente teimoso e totalmente sem sentimentos. Na realidade sentimentos até demais, mas nunca demonstrei. Me arrependo tanto de tudo. - A cada palavra dita o choro dele aumentava.

- Tenho certeza que ela te amava tanto quanto, ou até mais. Só faça ela ter orgulho de você - disse tentando o acalmar e peguei sua mão acariciando-a.

-Eu tento.

- Você consegue – disse apertando mais sua mão. - Mas e seu pai?

- Meus pais se separaram quando eu tinha 2 anos. Minha irmã ainda era uma bebê. Ele nunca ajudou em nada e nem fazia questão de procurar. Ele foi obrigado a aparecer já que o conselho tutelar bateu na porta dele. Mas agradeço aos céus que mal vejo ele. Mas você? - ele perguntou olhando para mim já que não chorava mais, só estava com uma expressão nula.

- Os meus se separaram eu tinha 4 anos. Ele é presente, sabe? Aparece sempre. Dá dinheiro. Ajuda sempre que pode. Mas eu não tenho um amor de filha por ele e nunca tive.

A essa altura da conversa em algum momento nossas mãos já tinham se separado e acabamos mudando o rumo da conversa tirando totalmente o clima estranho que estava.

Chegamos um pouco atrasados e toda a turma nos olhava entrar. Sentei perto do Thiago e ele beijou minha mão me fazendo sorrir. Coloquei minhas coisas na mesa e o Thiago me mandou um papel pedindo que eu olhasse para trás e logo fiz.

- Então, como anda as coisas com o mauricinho? - perguntou olhando para o Hugo.

- Somos amigos – disse convencida disso. Talvez eu precisasse dizer em voz alta para colocar meus pés no chão.

- Mas você não quer só isso – ele disse com malícia na voz e eu gelei. Realmente eu não queria só aquilo.

- Ele está passando por um momento difícil. Não posso – disse e queria poder dizer outra coisa. Queria poder dizer que o quero e quero agora. O quero de todas as formas e jeitos. Mas por algum motivo eu não posso.

- Bruna Martins vire para frente e copie a matéria. Já não acha que chegou atrasada demais para bater papo não? - a professora gritou e fez todos olharem para nós dois.

- Ela tem que colocar o papo em dia com o namorado né - escutei alguém falar e toda a sala riu. Olhei para o Hugo e ele encarava-nos com uma expressão séria. Engoli em seco e fui copiar a matéria.   

Cartas a Marte || CompletoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora