Capítulo 3

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Eu estou jogada no chão gelado e me recuso a abrir os olhos. Meu corpo inteiro está arrepiado e eu estou tremendo enquanto choro. Tudo que ouço é os passos dele chegando cada vez mais perto de mim e cada passo é um arrepio a mais. Cada passo é uma lágrima a mais. Cada passo o medo aumenta. Cada passo o desespero aumenta. Cada passo a dúvida sobre o que vai acontecer quando eles acabarem e ele chegar até mim. Cada passo é um pesadelo. Ouço ele cuspir no chão como o porco nojento que ele aparenta ser e ouço também ele abrir o cinto da calça. Logo depois disso eu me encolho inteira no chão. Eu estou em desespero. Estou com dor. Estou sendo tocada. Sinto a mão bruta e suja dele sobre minha perna. Se eu o chutar ele vai me espancar aqui, não posso fazer isso. Ele vai subindo a mão e quanto mais ele sobe, mais eu sinto o calor do corpo dele chegando cada vez mais perto de mim. Em questão de segundos o corpo dele está sobre o meu e ele começa a passar a mão na minha cintura indo para a barra da calça. Quando ele está prestes a abrir eu sinto o corpo dele sendo puxado de cima de mim. Tudo que consigo ouvir é uma grande confusão. Tento abrir meus olhos e vejo que ele está brigando com alguém. Me arrasto para o canto da parede, do lado de um latão enorme de lixo. Eu estou em choque, estou machucada, não tenho estruturas para levantar e nem nada do tipo. Só fico sentada no chão chorando. Meu corpo está fraco. Já não sinto ar algum. Estou suando e morrendo de frio. Minha cabeça está girando. Sinto alguém tocar meu rosto e meu choro aumenta instantaneamente e me encolho ainda mais.

- Ei calma, ele já foi embora - Ouço de uma voz masculina indiferente da do Carlos. Abro meus olhos e era o menino que esbarrei a pouco tempo. Saía sangue de sua testa e sua boca estava machucada também. Ele estava todo sujo.

- Obrigada – digo ainda chorando e sem forças.

- Eu vim atrás de você que você acabou não pegando sua identidade do chão - ele disse sem jeito tirando a identidade do bolso. - Você quer que eu te leve até a delegacia ou para algum hospital?

- Você pode me levar até em casa? Minha mãe é enfermeira e tem um kit em casa, é tudo que eu preciso.

- Tem certeza que não quer denuncia-lo?

Eu não consigo responder. Só de parar para pensar no que aconteceu eu caio em prantos como uma criança. E por impulso eu o abraço e me desmonto. Ele levanta por uns segundos e encosta na parede atrás de mim e me puxa para seu peito.

- Não, desculpa – Falo levantando e limpando o rosto.

- Tudo bem, pode ficar o quanto precisar – ele segura meu braço enquanto olha em meus olhos.

Então deito em seu peito e me permito desatar. Tudo que ele faz é acariciar meu cabelo e tentar me acalmar. Então ali foram os longos minutos que eu precisava dessa vez. Nos braços de um completo desconhecido que me salvou. E de repente estou na minha cama com o pé enfaixado. Levanto rápido e vou até o andar de baixo e vejo o menino no sofá com minha mãe.

- Desculpa, eu tive que pegar seu celular e ligar para sua mãe - ele diz levantando do sofá - Bom eu já vou indo... Obrigado pelo curativo – ele diz se direcionando para minha mãe.

- Eu te acompanho até a porta – digo descendo as escadas e indo com ele até a varanda fechando a porta da entrada – Contou para minha mãe o que aconteceu?

- Para ela você só se machucou e caiu no sono depois de uma longa conversa nossa. Não tenho o direito de contar para ela o que aconteceu, você que tem que contar e só se estiver confortável. Ela acha que somos amigos e pediu pra eu buscar e trazer você da escola sempre.

- Não precisa, muito obrigada por tudo.

- Eu estudo na mesma escola que você - ele diz olhando para o emblema da escola em minha blusa – Fui transferido ontem.

- Tudo bem então. Desculpa por tudo, eu nem sei seu nome – digo com um semblante cansado, confuso e culpado.

- Hugo – ele diz sorrindo, e uau. Que sorriso meus amigos... Que sorriso.

- Sou a Bruna – digo sorrindo sem mostrar os dentes. - Desculpa por tudo que aconteceu, de verdade.

- Não fui eu que sofri um abuso – ele diz baixo para minha mãe não ouvir, com um olhar de culpa, como se ele pudesse ter evitado aquilo.

- Mas foi agredido – digo tocando no band-aid da Marvel que provavelmente minha mãe o colocou.

- Tudo bem, valeu a pena. Eu só imaginei minha irmã no lugar. Eu não me perdoaria se passasse direto sem fazer nada.

- Bom, mas ainda assim sou totalmente grata por tudo.

- Sou totalmente grato por você estar bem, então estamos igualados. Te vejo amanhã de manhã então? Fiz uma promessa para sua mãe - Ele perguntando pegando minhas mãos e chegando perto.

- Nos vemos amanhã - eu respondo totalmente encantada.

- Então até amanhã - ele diz e me puxa para um abraço e se vai.

Eu estou em choque. Não, não seria a palavra ideal. Eu estou encantada, maravilhada, deslumbrada, fascinada. Mas isso não pode durar muito. Todos sabem que contos de fadas são apenas histórias para criança dormir.  

Cartas a Marte || CompletoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora