Pintado de Preto
Nunca vi o tempo passar tão rápido como passou depois disso, é como se os dias não tivessem existido, nada aconteceu, nem mesmo vi Ante, mal falei com mamãe ou Beth. Eu sabia que não devia contar a ninguém, mas a preocupação e a ansiedade preencheram meu corpo, esperando e imaginando tudo de ruim acontecendo. Certa noite coloquei a cabeça dentro da água e não ouvi um sequer canto, um silêncio absoluto. Fiquei repassando as mesmas memórias, prigritia tendo pequenos filhotes, Soror sendo levada e Codrim vendo sua irmã julgada em frente a todos. A comida nesses dias seguintes eram cada vez mais escassas e ruins, secas demais ou sem sabor, feitas às pressas talvez. Beth me observava, sentada olhando meu reflexo no lago, acho que no fundo ela sabia que algo estava acontecendo.
******
E então... Começou.
Acordei muito confusa, estava escuro ainda, Ante me acordara. Ele estava ofegante, mas se controlando para não fazer barulho com a respiração. Ele sussurrou:
- Venha comigo!
Levantei ainda sem entender, mamãe e Beth estavam dormindo, tudo silencioso, até mesmo o lago. Ante segurou minha mão e me levou até um canto longe do corredor com as outras famílias dormindo.
- Asi, preciso que me escute, já está bem acordada? – Falou baixinho, mal dava pra ouvir.
- Sim, o que foi? – O sono começou a se transformar em arrepio.
- Quero que você faça uma coisa, nós vamos sair daqui.
- O que? – Perguntei afoita.
- Preciso que vá encontrar sua prigritia, você sabe chegar até lá?
Resmunguei um "Ah" confusa.
- Acho que sim, ela está bem?
- Provavelmente, eu vou encontrar Soror enquanto isso e nós vamos sair daqui, tudo bem?
- Como assim? O que tá acontecendo? – Perguntei ainda mais assustada.
- Preciso que confie em mim, tá bem? As coisas estão piorando, mas a domum está segura ainda, você não vai ter problemas de ir lá.
- Tá, tá bem. Mas e mamãe e a Beth, ela vão com a gente né?
Ele desviou o olhar.
- As pessoas serão evacuadas daqui a pouco, para mais fundo na caverna, se formos pra lá, não vamos mais conseguir fugir.
Minha garganta começou a coçar. Ele me disse onde me encontrar com ele e começou a se virar pra ir.
- Espera. Pode achar um outro garoto também?
- O que? Olha Asi... – Não deixei que ele terminasse.
- O nome dele é Codrim, por favor, traga ele também.
Ele ficou em silêncio, confirmou com a cabeça.
- Agora precisamos ir. – Disse ele, segurando minha mão novamente.
Comecei a tremer, eu tinha noção que tudo estava ruim e que talvez não visse mais as pessoas que estavam ali, mas segurei o choro, não havia nada que eu pudesse fazer. Ante me levou até uma saída da caverna que ninguém estava vigiando, disse para eu dar a volta pelo palácio do Papa e seguir até a minha casa. Estava muito escuro, desci pela saída escorregando pelas pedras, mas consegui. O palácio do papa é gigante, levei muito tempo para dar a volta, ainda andando. Quando cheguei ao centro, assustei-me, era muito estranho ver tudo vazio e bagunçado, as pessoas saíram às pressas e deixaram coisas pelo chão, janelas abertas, comidas já apodrecidas, muita coisa. É assustador ficar na domum sozinha e a noite, comecei a correr, quase tropeçando e pulando pelos degraus da calçada, vi alguns animais pequenos se escondendo quando eu passava. A água das praças estavam secas e verdes, pareciam sujas. Corria até começar a dor do lado esquerdo da barriga, então ia devagar respirando fundo e voltava a correr. Finalmente vi minha casa, nós deixamos a porta aberta, comecei a olhar em volta para achar a prigrita, mas ela não estava no campo. Nossa casa é quase no final da domum, onde já tem as plantações e pequenos lagos, o lugar perfeito pra morar, ficando todo esse tempo fora, fiquei emocionada ao voltar, mesmo nessa situação.
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ASINUS PRIMA
РазноеAsinus Prima é uma aventura em um mundo fantástico e mistico, na visão de uma garota que se vê imponente perante aos costumes e tradições da sociedade em que vive. Ela acaba perdida em uma jornada tendo que proteger duas crianças, enquanto desvenda...