O Sol. O céu. A publicitária tratou de colocar os óculos escuros, não se lembrava da última vez que havia sentido o calor na pele, ou visto um azul tão brilhante abençoando o seu dia, não estava acostumada. Nos poucos dias em que Sol concedia o privilégio de ser observado em sua cidade já era tarde demais para Carol contemplá-lo. Não raro saía da agência por volta das oito da noite. Nesta altura o Astro Rei já tinha se despedido de seus súditos para voltar quem sabe dali 15 dias, se as constantes nuvens pesadas assim o permitisse.
Encontrou o seu motorista precisamente às 08:00am em frente ao hotel, conforme indicado pela concierge.
– Angalia, muito prazer, deixe-me ajudar com as malas – ele estendeu a mão para cumprimentá-la com inglês de sotaque fortíssimo. Ela reparou em suas mãos. A pele grossa e enrugada, as unhas levemente amareladas. Não era muito velho embora pudesse perceber o sacrifício da vida nas linhas de expressão em seu rosto. Angalia se mostrou de pronto bastante simpático e prestativo e Carol, que em geral era bastante arredia com estranhos, simpatizou com o motorista e retribuiu o sorriso.
Ela fez questão de sentar-se no banco da frente do carro. Não via sentido algum em permanecer no banco de traz como uma burguesa arrogante e ignorante. Angalia estranhou num primeiro momento. Carol percebeu o seu desconforto e tratou de amenizar o clima – Teremos 350 km de estrada pela frente, Angalia ! – comentou.
- Madame, 350 km não são problema nenhum ! Se precisar podemos ir até a Lua com este possante! – disse referindo-se ao carro e ao mesmo tempo acariciando-o.
Ela achou graça e disse que daquele momento em diante a sorte estava lançada.
Windhoek a surpreendeu positivamente. Embora se considerasse bastante despida de preconceitos, tinha em mente que a África como um todo era um continente paupérrimo, com miséria por todos os lados, guerras civis entre todos os povos, crianças-soldado, armas e tudo o mais que acompanha o pacote. De fato, muitos países ou áreas do continente infelizmente vivenciavam tal tragédia. Mas até aonde havia percebido este não era o caso na Namíbia e mais especificamente em Windhoek. Ruas limpas, edifícios modernos, sensação de segurança. É claro que a Namíbia não escaparia das consequências inevitáveis de toda uma estrutura econômica aonde os mais desfavorecidos sofrem mais. Mas para ela não pareceu que o país estava mergulhado em um mar de lama sem volta. Por um momento sentiu-se aliviada e esperançosa por estar em um país em desenvolvimento que não estava tão evidentemente inserido no contexto de miséria mostrado frequentemente nos noticiários e nas propagandas de ONG's.
Quanto à Windhoek admirou os seus belos jardins espalhados pela cidade. . Descobriu mais tarde que o país teve influência alemã e daí tantos nomes de cidades derivados do alemão.
Angalia perguntou à sua passageira se ela iria de férias para Swakopmund. Ela deu uma gargalhada e o esnobou dizendo com escárnio que se ela tirasse férias teria pelo menos uns dez lugares mais bacanas para ir – Assim que percebeu a feição triste em eu motorista se desculpou e disse que havia dito aquilo sem pensar. Aproveitou para avisar que aquela era uma de suas características: falar o que viesse na cabeça. E que era para ele ir se acostumando pois ela não mediria as palavras para falar com ele.
- Nada pessoal - completou.
Angalia não se sentiu ofendido. Apenas lamentou a sua ignorância.Explicou que era um destino turístico popular no país e que as pessoas visitavam a Namíbia por dois motivos : as dunas de Sosussvlei e Swakopmund.
Ela replicou dizendo que não era obrigada a saber os destinos turísticos de todos os países. E percebeu que havia sido rude novamente, sem querer. Deu uma pausa de silêncio e tentou desta vez ser mais gentil. Explicou muito superficialmente que estava ali a trabalho e não deu muitos detalhes de que se tratava. A estrada tinha um asfalto razoável, sem muitos buracos. Era plana com uma pista de ida e uma pista de volta. Dos lados, uma vastidão sem fim, com cercas limitando as estradas das propriedades privadas. Eram quilômetros e quilômetros de vegetação rasteira amarelada que quando contrastada com o Sol, refletiam uma luz dourada brilhante. A cada meia hora ou quarenta minutos um carro ou ônibus passava e os veículos buzinavam uns para os outros como que se cumprimentassem. Carol fez esta anotação em seu caderninho. A sua formação era Jornalismo e embora não atuasse na área, gostava de registrar passagens curiosas e marcantes de sua vida em um caderno pequeno, discreto, de capa preta. Havia começado aos 18 anos quando ganhou uma viagem ao Japão e a partir dali nunca mais parou. Quando se sentia nostálgica ou entediada, visitava suas anotações ao longo da vida e as memórias vinham à tona como se vivenciasse tudo novamente. Era um "ótimo exercício de liberação de dopamina" – como gostava de dizer.
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O Lago dos Elefantes
General FictionCarol é deliciosamente impetuosa e tem uma carreira profissional brilhante na metrópole. Após uma epifania decide repentinamente viajar à Namíbia no intuito de investigar uma das fábricas de seu cliente, a Sassy Cosméticos, para desenvolver uma nova...
