Já viveu um amor não correspondido?
Eu vivi. Passei minha infância e adolescência ao lado dela... sem coragem de dizer o que sentia.
Já teve um amor de infância? Daqueles inocentes que, com o tempo, deixam de ser?
Meu Deus, como eu amava aquela garo...
Quando eu imaginava beijar seus lábios, era sempre um momento muito bonito e repleto de emoção. Nele, eu declarava meu amor por ela e então era correspondido. Imaginava-me aproximando vagarosamente do seu rosto, acariciando-o com as pontas dos dedos, e então ela deitaria a cabeça em minha mão. Tocaria seus lábios levemente com os meus, em uma provocação delirante, e por fim tomaria o tão esperado beijo. Juntaríamos nossos corpos o máximo possível, o resto do mundo desapareceria, e eu a teria em meus braços com toda a paixão e desejo que sinto por ela. E entre os beijos, ouviria, num sussurro: “Eu te amo”.
Mas aqui estou eu, tendo um surto de coragem — ou de loucura — eu não sei dizer. Com uma mão em cada lado do seu rosto, os olhos fechados com força como se temessem serem abertos. Sentia o sabor salgado das lágrimas, mas não me importava. O calor dos seus lábios era delicioso, a maciez indescritível. E, apesar do momento infeliz, eu jamais poderia imaginar algo melhor. Nenhum sonho ou devaneio teria comparação com a realidade. Foram apenas alguns segundos, que para mim se tornaram horas. E mesmo nesse curto momento, consegui guardar cada sensação... até que ela me empurrou para longe.
— Nick? O que foi isso? — Seus olhos ainda vermelhos demonstravam espanto.
— Me desculpa. — Tentei me aproximar, mas ela se afastou.
— Por que me beijou? — Silêncio. — Nicolas, por que me beijou?! — Ela elevou o tom de voz.
— F... foi um... impulso. — Casei cada palavra como se fosse algo difícil de dizer.
— Está mentindo! Pelo amor de Deus, por que você está mentindo?! — Ela se alterava mais ao perceber minha tentativa de disfarçar a situação. — Que merda foi essa? Por que fez isso? Me diz!
— Porque eu não aguentei te ver assim! Não pude suportar ver a mulher que eu amo sofrendo por algo que não deveria. — Disparei, num só fôlego, enquanto as lágrimas já rolavam. — Não consegui ficar só escutando você se pôr pra baixo, dando razão a um... um cretino, um agressor. Tudo isso tá errado. — Limpei o rosto com o dorso da mão e me virei, indo em direção à cama.
— Nicolas, você sempre foi meu melhor amigo. — Essas palavras me deram esperança de que ela tivesse me compreendido. Mas, ao encará-la novamente, com os braços cruzados, os pés batendo freneticamente no chão e o semblante fechado, percebi que era o oposto. — Eu tinha em você alguém de total confiança. Nunca tive pudores contigo por te considerar um irmão. E agora isso. Desde quando você tem esse tipo de intenção comigo, Nicolas? — Silêncio. — Responda!
— Se eu disser “há dez anos” ou “há uma semana”, não vai fazer diferença.
— Eu me sinto usada. Você tirava proveito da nossa intimidade!
— Isso jamais! — Rebati. — Alguma vez te toquei sem permissão? Alguma vez fui além do que era natural entre nós? Alguma vez fui desrespeitoso com você?
— ...
— Eu te amo há tanto tempo que nem saberia dizer há quanto. Sim, eu te desejo... — Respirei fundo. — Mas sempre aceitei que não era recíproco. Se eu gostava da nossa intimidade? Claro. Mas nunca fui além de admirar você.
A essa altura, já me encontrava de pé novamente. E admito, decepcionado. Esperava tudo, menos ser acusado dessa forma. Sim, eu sempre gostei de poder olhar para ela — quem não gostaria? — mas nunca me atrevi a ir além disso.
Caminhei até o banheiro e parei ao abrir a porta.
— Jamais me atreveria a fazer algo porque o meu amor por você é maior que o desejo pelo seu corpo. E, além disso, eu nunca faria nada com alguém que nem se atrai por mim.
Tudo que eu queria depois daquela conversa era um banho quente, algo longo, que me permitisse pensar em paz. Não sei quanto tempo fiquei lá, mas foi o suficiente para meus dedos ficarem enrugados.
Quando olhei o celular, me lembrei de que havia saído para almoçar e que deveria ter voltado ao trabalho. Mas já era tarde demais para isso.
Saí do banheiro com a mesma roupa de antes — apenas dispensei o paletó e deixei a camisa aberta. Sentei à beira da cama com uma toalha nos ombros, tentando secar o cabelo, que já estava um pouco grande demais. Algumas gotas teimavam em cair pelo meu peito, fazendo pequenos rastros úmidos na camisa de botões. Eu não olhava diretamente para ela, mas mesmo assim sabia exatamente qual era a expressão em seu rosto. Podia até dizer que via os milhões de pensamentos que ocupavam sua mente naquele instante.
Em toda a minha vida, tudo que eu menos quis foi isso: esse clima, esse distanciamento. E, claro, fui eu quem causou isso. Eu me coloquei nessa situação, e agora precisava sair dela — como sempre, por puro egoísmo, eu admito.
Um longo e pesado suspiro veio da sala, me fazendo olhar em sua direção. Instintivamente, fui até lá. Sentei ao seu lado, mas apenas o suficiente para conversarmos. Não a toquei, não tentei nada do tipo.
— Júlia, vamos esquecer tudo isso, por favor? — Ela permaneceu na mesma posição por um tempo, antes de me olhar e responder:
— Tudo bem.
Suspirei aliviado e abri os braços num pedido silencioso de abraço. Ela então se aproximou, e eu a apertei pelos ombros. Eu jamais me perdoaria se deixássemos de nos falar. E se amizade é tudo o que posso ter, eu aceito. Me contento com isso.
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Mais um capítulo para vocês meus amores. Gostaram? E mais uma perguntinha: Alguém quer que o próximo capítulo seja da Júlia? Comentem ai. Bjss..