11

179 21 6
                                        

Nada estava bem.

Joguei quinze anos de amizade fora por cinco segundos de seja lá o que tenha sido aquilo. Dormir no sofá foi uma merda, a falta de jeito entre nós foi uma merda, o caminho até o trabalho foi uma... Já deu pra entender.

Não tivemos mensagens durante o dia, nem ligações como costumava ser. Praticamente me arrastei, concluí apenas metade das tarefas que geralmente faço e, apesar disso, nem uma pausa eu fiz. Fiquei na minha sala olhando nossas fotos, elaborando pedidos de desculpas, pesquisando — como um maldito adolescente — formas de reatar amizades, e nada parecia bom o suficiente. Em todos esses anos com a Júlia, nunca me vi nessa situação. Na verdade, acho que nunca me vi assim com ninguém.

Quando o fim do expediente finalmente chegou, fui até a sala do Oliver antes de ir pra casa.

— Ei! — ele levantou o olhar assim que chamei.

— Nick? O que foi?

— Vou ser direto. A Júlia precisa de um emprego e pensei que talvez você conheça alguém que esteja procurando uma assistente. Se puder ajudar, eu agradeço. — Não sou de pedir favores a ele. Pode até ser um amigo, mas ainda é meu chefe, e em menos de duas semanas, esse já é o segundo pedido.

— É claro que eu ajudo. Assim que souber de uma vaga, te aviso. — ele sorri simpático. — Você tá bem? Não parece.

— Vou ficar. Boa noite, cara. — Saí do prédio a passos lentos e escolhi o caminho mais longo até em casa.

Já fazia dez minutos que eu havia estacionado e ainda estava dentro do carro. Que porra de situação me coloquei, com vergonha de entrar na própria casa. Quando finalmente tomei coragem, ainda me demorei antes de girar a maçaneta. Deixei a bolsa e o paletó no hall e segui para a sala. Ela estava no sofá, com as pernas cruzadas e um livro nas mãos.

— Você demorou hoje. — ela se pôs de pé.

— Muito trânsito. — Tirando os sentimentos que sempre escondi dela, essa era a primeira vez que eu mentia. — Vou tomar um banho. Quando terminar, venho preparar algo pro jantar.

Passo por ela como um raio. Nem olho pra trás — na verdade, nem consegui encará-la direito —, pego um dos shorts de moletom e a primeira camisa que minha mão alcança, e sigo para o banheiro. Os jatos d'água não eram fortes o suficiente para aliviar a tensão no meu corpo, e não estavam frios o bastante para conter o calor da ansiedade que vinha do meu peito. Me permiti ficar ali debaixo até os dedos ficarem enrugados. Em contrapartida, me sequei até eles voltarem ao normal. Nunca passei tanto tempo dentro daquele banheiro.

A primeira coisa que percebo ao abrir a porta é uma lufada do seu cheiro. Agora o quarto era tomado por esse aroma delicioso de jasmim — uma lembrança constante da sua presença. Quando volto à sala, ela se põe de pé de novo.

— Já estava ficando preocupada. Achei que fosse passar a noite lá dentro. — seu tom beirava o zombeteiro, mas as feições estavam neutras. Em outro momento, eu responderia com alguma provocação. Agora, me limitei a simular um “foi mal” enquanto seguia para a cozinha. — Já deixei os ingredientes pra um risoto, se você quiser.

Na bancada estavam os itens básicos para um dos meus pratos preferidos. As habilidades da Júlia na cozinha eram limitadas, mas eu até que tinha pegado gosto pela culinária depois que passei a morar sozinho.

— Eu quero ajudar. — já com a faca em mãos, ela pegou uma cebola para descascar.

Eu sinceramente preferia que ela continuasse a leitura no sofá, longe o suficiente de mim. Enquanto ela terminava de limpar a cebola, eu descascava alguns dentes de alho.

Tentava me concentrar na minha tarefa quando percebi que ela havia parado. Agora, só me olhava — séria e pensativa.

— O quê? — perguntei, encarando de volta.

— Preciso tirar minhas próprias conclusões. — disse num sussurro.

Meu cérebro mal teve tempo de processar quando seus lábios tocaram os meus. Nada parecido com o meu rompante da noite anterior — agora era eu quem estava surpreso. Dessa vez, ela se manteve firme em sua decisão, sem intenção de se afastar. Nossos lábios estavam apenas se tocando, mas ao perceber sua determinação, eu os movi.

Esqueçam o que eu disse sobre aquele selinho nervoso ser a melhor coisa do mundo. Isso... isso aqui é.

Assim que movi os lábios, ela me acompanhou. Uma das minhas mãos, de repente, estava em sua nuca, aproximando ainda mais nós dois. E quando minha língua pediu passagem, fui presenteado com a dela fazendo o mesmo. E puta merda... isso é demais. Já estive com tantas outras mulheres, mas nenhuma trouxe algo sequer semelhante a isso. Mas como poderiam, se nunca houve em meu coração outra além dela? Meu corpo reagia muito bem aos desejos do meu coração.

Quando senti sua delicada mão em meu antebraço, um arrepio correu pela espinha. E quando ela subiu até meu pescoço, um raio me atingiu. Eu a beijava com ainda mais avidez, enterrando os dedos em seus cabelos, conduzindo-a para onde eu queria. Era, sem dúvida, a coisa mais sensual que já fiz. De repente, eu estava sem controle. Agarrei sua cintura e colei nossos corpos antes tão distantes. Um gemido escapou de mim quando ela me abraçou e sua outra mão segurou minha camisa com força — o bastante para que eu sentisse suas unhas raspando na pele. Imagens dela me arranhando brotaram na mente.

Não queria abandonar aqueles lábios, mas, com calma, ela nos afastou.

— O que foi isso? — não consegui conter o sorriso.

— Precisava das minhas próprias conclusões. — seu peito subia e descia com rapidez, como o de um corredor.

— E qual foi o veredito? — como ela se manteve séria, também me contive.

— Inconclusivo.

— Huum... então só tem um jeito de resolver isso. — nos olhamos, ambos sérios. — Testar novamente.

Sempre Fui SeuOnde histórias criam vida. Descubra agora