Rotina torturante

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Aviso de gatilho: abuso infantil, sangue e menção a pedofilia.

Conseguir estar fora do quarto já era um avanço, no entanto as saídas estavam mais bem guardadas considerando o que aconteceu há uma semana. Andava pelos corredores, desconcertada com as manchas carmesim espalhadas na estrutura branca, temendo encontrar cadáveres pelo caminho. Tentou a entrada principal, cercada com capangas a encarando com seus elevares de lábios maldosos e mãos grossas prontas para agarrar os fios brancos da cabeleira da pequena.

Fugiu, tentando os fundos, igualmente lotado de membros daquela organização doentia. Como última opção passou a abrir as portas do primeiro andar, deveria haver alguma janela ali que ela pudesse utilizar para escapar, não? A cada estrutura de madeira retirada do caminho a esperança se perdia mais, assim como cada cômodo parecia cada vez menor até que se encontrasse de cara com uma parede naquele corredor infinito, no qual escutava seu nome ser chamado pela voz arrastada de Chisaki, ressonando em um eco maldito.

Kurono surgiu aos poucos no horizonte, obrigando seu corpo a paralisar, era o efeito que sua presença tinha nas pessoas. Incapacitada de se mover pelo pavor, não ofereceu resistência quando foi pega pelos braços cobertos com as mangas longas usuais. Chorar foi a única coisa da qual fora capaz, fungando desesperadamente enquanto se sentia esmagada por ser encarada por diversos indivíduos que aparentavam surgir do nada, alguns segurando mechas de seus cabelos ou passando os dedos por suas bochechas.

Acordou com o líquido salgado espalhado por quase toda a sua face, agarrando as cobertas creme trocadas em uma rotina meticulosa, exigência do misofóbico dono da residência. Limpou a face, a reação natural só a traria mais problemas se visto por seja lá quem fosse seu cuidador da vez. Acendeu a pequena lanterna do brinquedo com formato da cabeça de um gato, as orbes brilhando em amarelo vivo. O interruptor ficava do lado de fora, por isso gostava do felino falso que lhe fornecia alento e a salvava da escuridão próxima à total.

Puxou seu coelho pelas orelhas, mexendo-as com o animalzinho de mentira sentado em seu colo, a maneira como se curvavam e a fofura da face o faziam o maior conforto da menina. O arrepio chegou quando a luz foi ligada, o barulho da chave girando na tranca causando calafrios. Um homem loiro adentrou o espaço, fechando a passagem atrás de si enquanto coçava a barbicha:

- Ainda tá de pijama? Troca logo que eu vou te levar num parquinho hoje. - sentou na cadeira no canto, analisado pelas íris vermelhas - Tá olhando o quê? Acelera.

Deslizou para fora do colchão a contragosto, não que fosse ruim se divertir com outras crianças, todavia era incômodo ter que ver o traficante colocando e retirando aqueles saquinhos esquisitos de dentro de seu querido Usagi. Escolheu um vestidinho amarelo no guarda-roupa, não tinha muita coisa, o mero suficiente. Reparou que não estava sendo observada pelo cuidador, menos mal, o anterior sempre tinha uma expressão esquisita quando ela tirava a blusa.

Mudou as vestes, acrescentando um short bege por baixo e correndo para resgatar sua pelúcia do criminoso, sem sucesso pois este simplesmente a manteve longe com os pés, terminando o serviço antes de atirar o objeto de volta:

- Se aquiete, aí está sua droga de coelho. - levantou, estendendo a mão - Segura logo que se não eu te largo aqui no escuro.

Relutante, tomou o apoio, tristemente andando até a moto do sujeito, como uma condenada cumprindo pena. Se fosse esta a explicação, era a sentença mais longa de sua vida, sem previsão de término e sem justificativa para ser aprisionada. Admirou os arredores, já estando acostumada com as praças de bairros nobres, tão diferentes da favela na qual passava a maior parte do tempo, chegava a invejar aquelas crianças que tinham quadras, piscinas e outros luxos ao seu dispor:

- Pode ir, mas quando eu chamar você aparece na hora, viu? - demonstrou um pedaço da pistola, recebendo acenos positivos de cabeça vigorosos em resposta - Ótimo, vai pro balanço ou sei lá.

Seguiu a direção, instalando o bichinho falso no brinquedo ao lado, mantido sentado pela corrente que unia a placa de madeira ao suporte. Se balançou sozinha até uma garotinha negra levemente mais nova que si vir sorrindo à procura de mais alguém para jogar esconde-esconde com o grupo que liderava. O penteado para ela era incomum para a convidada, diversas tranças desciam na altura do ombro, as quais achou muito belas.

Começou contando, encontrando cinco dos seis participantes, o último que conseguiu bater na parede salvou apenas a si, entregando a vez para um ruivo. Passou mais duas rodadas ininterruptas, na terceira escutou a voz do loiro chamando seu nome, saindo de onde estava com um "dois altos" levantado. Encaminhou-se para o banco em que estava instalado, recebendo mais orientações:

- Fica quieta aqui até eu voltar. - tomou a pelúcia sem cerimônia, indo para trás de um banheiro existente.

Nunca foi obediente quando tinha uma oportunidade de sumir, contou o que era proibido para a amiga de antes, quando esta veio perguntar o motivo de estar parada:

- Esse moço é do mal, ele não gosta de mim e levou o Usagi.

- Moço? Ele não é seu pai? - inclinou a cabeça para a direita em confusão.

- Não, eu não tenho mais pai. Esse moço bota coisas estranhas no Usagi e me trata mal, conheci ele hoje, me ajuda a fugir dele por favor.

- Vamos falar com as minhas mães, elas devem saber o que fazer.

Acabou que a filha do casal foi quem repetiu o que Eri denunciou a ela, causando uma surpresa que foi quebrada quando o rapaz retornou dizendo que encontrou o coelho, dando a desculpa que ela tinha perdido-o e que tudo que falava era mero fruto da imaginação fértil da "irmãzinha", abrindo o boneco para mostrar o enchimento comum. Voltaram para a morada de Kai depois do ocorrido, o jovem apertando o pulso pequeno com força excessiva e jogando-a no chão do quarto:

- Bem que me falaram que você é levada, não dá pra largar um minuto só. - fez força em separar parte da cabeça aveludada do bichinho do corpo, obrigando a costura a ceder e criar um buraco - Dá próxima vez vou decapitar essa merda de lebre.

Atirou-o contra a superfície gelada, trancando a porta e apagando a luz. A pequena tateou até encontrar o que queria, prosseguindo assim para a lanterna e iluminando o mínimo que pode para não ser descoberta e ter o gatinho levado ou quebrado. Odiava aquela rotina torturante, odiava aquela casa, odiava o moço loiro, odiava os adultos que não acreditavam em si e, principalmente, odiava Overhaul.

Boku no morroOnde histórias criam vida. Descubra agora