Bar do Falcão

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O ruivo adentrou o estabelecimento com passos ponderados, se sentando à uma das mesas de plástico e sendo atendido por um jovem negro no início de seus vinte anos que possuía cabelo preto, assim como utilizava um colar vermelho estilo choker:

- Boa tarde, o que vai querer?

- Eu quero falar com Hawks.

- Um momento. - o funcionário se afastou e adentrou uma área restrita.

Por mais que odiasse a atividade ilegal acontecendo em uma mesa de canto onde um membro da Shie Hassaikai se encontrava, era obrigado a ignorar, o propósito de sua visita não era como policial, deveria se comportar de maneira civil. Takami surgiu e puxou uma cadeira para se acomodar, opostamente ao servidor público:

- Olha quem apareceu, cheguei a achar que tinha morrido.

- Você seria um dos primeiros a saber se esse fosse o caso.

- Realmente. Não vai beber nada? - acenou para uma garçonete que parou de levar a louça suja na bandeja para escutá-lo - É por conta da casa.

- Não tenho interesse, tenho coisas a fazer depois daqui.

- Ah, claro, grande Endeavor, sempre atarefado até num domingo. - virou-se para a mulher sorrindo como sempre - Traga uma cerveja sem álcool para mim então, por favor. - com isto, ela desapareceu em meio aos clientes.

- Alguns de nós não ganham dinheiro escutando conversa de bêbado.

- Bem, alguém tem que fazer o trabalho sujo e eu não me importo de ser esse alguém. Inclusive veio atrás de meus serviços mais uma vez.

- Eu apenas quero saber sobre Toya e Shoto.

- Nunca te vi perguntar de mais nada que acontece nesse morro ultimamente. - recebeu a lata que pediu da trabalhadora que retornara - Obrigado.

- Não me interessa, não sou militar.

- Faz sentido. - abriu o recipiente, o qual fabricou um leve barulho com o deslocamento do metal - Conheci o caçula outro dia, tá morando com o irmão mesmo... Vem cá, a sua família é piromaníaca ou alguma coisa assim?

A interrogação, mesmo que feita com uma face brincalhona, não passou batido pelo mais velho, fechando mais o semblante antes já sério:

- É muita ousadia sua fazer piada com a minha família.

- Relaxa cara, só queria descontrair. - tomou um gole da bebida, observando a linguagem corporal alheia percebendo a postura fechada.

- E ele tá trabalhando no mesmo ramo?

- Nem sei, mas acho que não. Na real nem tive muita oportunidade de conversar com ele, não sei se tava desconfiado ou só tímido. Né meio engraçado que por mais que você sempre tenha me deixado longe da sua família, eu acabo envolvida com ela cada vez mais?

- O que quer saber? - ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços - Desde quando tenho algo útil para que você tente me pressionar?

- Eu diria que é mais um capricho meu do que útil, não é algo que eu vá vender, quem, em sã consciência, iria comprar fofoca do que acontece na sua casa?

- Essa é nova, sempre esteve completamente bem em estar longe do meu drama familiar.

- Bem, não tô mais tão longe assim, tô? - ingeriu mais do produto em mãos, interessado na hesitação do ruivo.

- Não preciso integrar meus outros dois filhos nisso, te responderei se não for sobre eles.

- Como vai a Rei? Uma vez você me disse que ela tava no hospital mas não quis conversar mais.

- Continua no hospital, eu passei a visitar ela mais.

Ouvir qual enfermidade a atingia seria desnecessário, ligava os pontos rápido e a força destrutiva que conhecia dentro de Enji revelava que não era nenhuma doença física que conservava o local no qual a esposa se encontrava. Era impossível ele ter causado mal ao lado de Shoto mais semelhante ao seu, a mãe, no entanto, se encaixava na análise de probabilidade. Quanto mais cavava dentro do passado dos Todoroki, mais a primeira impressão que Dabi era apenas um rebelde sumia de sua mente:

- É mesmo? Melhoras a ela, posso ter conversado pouco mas sempre me pareceu uma mulher tão gentil. Vocês ainda doam coisas para o orfanato?

- Na verdade, desde que ela não pôde mais organizar isso, tudo tem se acumulado em casa. Acho que vou pedir ajuda à minha filha para fazer isso.

- É bom, alguma criança vai ficar feliz com as coisas.

Tinha um ponto fraco pelos pequenos daquela instituição em específico, nunca adotaria um por não estar interessado no cuidado e esforço que a posição de figura paterna possui. O ensino da nova geração pouco lhe importava, todavia volta e meia aparecia no local, trazendo objetos que ajudassem no dia a dia e conversando com os cuidadores.

Por vezes, até Fumikage o acompanhava, o mais novo também tinha apreço e queria fazer a vida dos pequenos ali um pouco menos difícil que a sua quando morava lá. Endeavor fitou o pulso esquerdo, no qual estava um relógio prateado brilhante, levantando um comentário de Keigo:

- É melhor tar com o carro por perto com um relógio desses, não pode dar sopa na rua aqui não.

- Sei me portar. - respondeu checando o smartphone, não era tão novo mas não antigo o suficiente para ser desinteressante a um eventual ladrão - Vou repetir a pergunta de sempre: conseguiu descobrir onde é que Toya mora?

- Nem, agora que o irmão tá lá a resistência é maior até. - misturou verdade e ficção para favorecer a credulidade, a maestria em controlar suas expressões faciais também era de crucial utilidade.

Foi suficiente, o mais alto suspirou e se ergueu, ajustando as vestes e dando um último aviso antes de sair:

- Se tiver novidades me alerte, tenho que ir.

O loiro somente ergueu o polegar direito enquanto o outro deixava o bar em seu próprio ritmo. Ponderou um pouco sobre a informação confirmada e especulações formadas, sendo retirado de seus pensamentos por um rapaz de cabeleira escura segurando uma bandeja cinza contra o peitoral:

- Queria saber um negócio: é pra chamar você logo da próxima vez que ele aparecer ou continuar agindo como cliente normal?

- Pode me chamar logo, só tenha certeza de me contar em que humor ele parece estar.

- Tudo bem, esse é o Endeavor, não?

- Sim. - terminou o conteúdo da lata, segurando para jogar fora quando retornasse para a área restrita aos funcionários.

- Ele sabe de seu... - abaixou o tom de voz - sua relação com o filho dele?

- É por isso que eu preciso saber se ele chegar puto aqui no bar. - riu da situação, brincando com os fios amarelados em sua nuca.

Boku no morroOnde histórias criam vida. Descubra agora