A manhã do dia seguinte chegou com Keigo sendo despertado pelos passos dos Todorokis, principalmente as botas negras batendo na madeira das escadas, calçadas pelo indivíduo que parecia só ter vestes em tonalidades escuras. Abriu os olhos, o movimento realizado para sentar o recordou do tiro de raspão que recebera, dando uma fisgada ao encontrar o encosto do sofá sobre a gaze. Havia despertado no meio da noite duas vezes para realizar o procedimento do açúcar, alarmes foram desnecessários já que seu relógio biológico sempre foi perfeito.
Levantou-se, empurrando o lençol embolado para o lado e deixando a almofada encostada no braço do móvel para que finalmente ficasse de pé. Espreguiçou-se, erguendo os braços com cuidado para não forçar a pele fragilizada, escovou os dentes no banheiro rapidamente, seguindo rumo ao encontro dos dois residentes:
- Bom dia! - a leveza costumeira era presente na voz.
- Bom dia. - Shoto respondeu, com o semblante neutro enquanto pegava um pão de sal.
Do segundo sequer recebeu resposta, permanecia impassível enquanto colocava uma chaleira em uma das bocas do fogão. Hawks abriu a geladeira sem cerimônia, encontrando um pote plástico com metade de um frango dentro, escolhendo uma coxa para esquentar no microondas por alguns segundos. O bicolor montou seu sanduíche com calma, a qual se esvaiu com o apito do objeto de metal no fogo, fazendo o seu melhor para relaxar mesmo que suas mãos insistissem em agitar.
O que realmente o deixou em alerta foi quando Toya ergueu o recipiente, perguntando se o heterocromático queria chá. Não foi sequer um movimento brusco, contudo suficiente para causar um pulo para trás, chamando atenção dos presentes:
- Foi mal. - afastou a chaleira do outro, pondo em uma caneca para si.
- Tá tudo bem. - as pálpebras retornaram de completamente abertas para um estado normal enquanto a tremedeira persistia - Eu quero.
Pôs mais uma, colocando um saquinho de ervas, só havia um sabor na casa mesmo, depois, na sua, fez café instantâneo puro. Takami fez a associação facilmente, o diálogo e reação entregavam como conseguiu a queimadura, assim como revelavam que foi causada por alguém próximo, considerando as circunstâncias. Foi retirado de seus pensamentos pelo barulho do eletrodoméstico que utilizava, sinalizando o fim da contagem, segurou o osso com um guardanapo e mordeu a carne:
- Pretende ir quando? - questionou, sem transparecer interesse.
- Credo, já quer me botar pra fora, Dabi? - engoliu mais um pedaço antes de continuar - Vem cá, essa cara de cu é de família?
- Quer falar de família? Vamos falar da sua.
Atingiu certeiro onde sabia que o incomodaria, ambos vinham de lares quebrados, no entanto o loiro nunca teve com quem contar, por ser filho único. O sorriso brincalhão vacilou, percebendo, ao invés de transparecer a tristeza da fala, escolheu fazer bico:
- Eu só queria dizer que da pra perceber a semelhança entre vocês dois, é o primeiro irmão seu que conheço.
- Com sorte, o único. - ingeriu um gole da bebida enquanto se direcionava à mesa.
- Tem algum motivo específico para vocês dois serem tão quietos?
- O que você quer? - sentou-se e encarou-o, analítico.
- Só tô falando, não pode ser só por causa da LDQ que você não larga uma frase a mais sem querer, os outros são mais fáceis.
- É isso? Informação extra? Me pergunte outra coisa então. - era uma vitória por cansaço, mesmo assim válida.
- Por que não faz invasões? Você parece o tipo de pessoa que gosta da adrenalina.
Refletiu por um segundo, observando a porta para o quintal que era visível de onde estava, notando Shoto abaixado, entregando um pedaço de salame a um gato preto de rua que adentrara a propriedade de alguma forma. Acabou virando para a direção de Keigo, quem persistia em pé, e levantando barra da calça direita até a metade da anteperna, revelando uma cicatriz até que centralizada:
- Quando eu participava, acertei Magne com um tiro de Glock na perna sem querer. Spinner se revoltou, mesmo quando eu pedi desculpa, por obrigação. Shigaraki apoiou eles, claro, e mandou eu me afastar enquanto puxava a pistola. Ele disparou no mesmo lugar, falando que se eu não conseguia atirar sem ferir companheiros, que não atirasse, e me proibiu de fazer parte de invasões.
Desceu o tecido para onde deveria cobrir, sumindo com as queimaduras ali também, e prosseguiu:
- Então agora eu tenho que aturar suas gracinhas pra recolher informações.
- Agradeço à sua má mira, quanta diversão eu iria perder! - arremessou perfeitamente no lixo os restos do café da manhã e se aproximou recostando na mesa - Bem, quem avisou a SH da invasão que vocês iam fazer mês passado foi a mina que tava dando em cima do Twice.
- Não vai fazer falta, dessa aí eu mesmo tomo conta. - antes que o informante pronunciasse mais qualquer palavra, adiantou-se - Se for cobrar pode tirar essa gaze do braço, pássaro miserável.
- Aff, nem ia falar de dinheiro.
Ergueu-se e fitou o parente sentado na grama de costas, o felino aleatório aceitando o carinho que lhe era oferecido, ambos alheios ao resto da casa. Aproveitando a ausência de preocupação, Hawks roubou um beijo, correspondido pelo mais alto. O gosto amargo do café e o frango salgado não era exatamente a melhor mistura, porém pouco importava quando em questão a falta de contato humano de ambos na maior parte do tempo.
Garçons e cozinheiros empregados em seu negócio não eram exatamente amigos de Takami, assim como a liga não era exatamente formada por amigos de Dabi, no final, nem mesmo eram exatamente amigos um do outro. Contrário a toda a lógica de uma dinâmica de negócios como era ideal, por vezes se davam o luxo de toques mais expressivos, os quais foram privados de ter na maior parte de sua vida, fator que levantava incerteza em se deviam fazer o que faziam.
Extremamente cuidadosos, as barreiras impostas ali eram tantas que, se algum dia decidissem confiar-se um ao outro, seria uma batalha diária e exaustiva ultrapassa-las. Se afastaram, recuando um passo cada um enquanto as mãos habilidosas do loiro deixavam o ombro do traficante, coberto por uma jaqueta azul, e as mãos de dorso marcado por queimaduras deixavam as bochechas desprotegidas do informante.
Oi, leitores! Estas notas finais são apenas para avisar sobre o esquema de postagem já que estivemos um tanto sumidas recentemente. Não temos uma rotina ainda, estamos organizando a progressão da fic e criando uma distância segura entre os capítulos completados e publicados, quando conseguirmos criar uma, anunciaremos. No meio tempo, por favor se lembrem de votar, nos motiva muito!
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Boku no morro
FanficO morro tem sua organização: de um lado a SH, de outro a LDQ e, no meio, não podemos esquecer da polícia militar. As coisas na favela nunca eram calmas, como se não fosse suficiente, a Shie Hassaikai lançava uma nova droga no mercado ilegal enquanto...
