Mancha de café

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Isabella

A claridade que entra pela janela faz com que meus olhos se abrem.

Demoro alguns segundos para raciocinar de fato onde estou.

-O plantão de ontem acabou comigo.

Resmungo, ignorando o alarme do celular que grita feito um louco na minha cabeça.

-Céus como eu gostaria de dormir mais um pouquinho.

Suspiro desligando o bendito alarme.

-Ah porcaria!

Pulo da cama ao conferir o horário.

Corro pro banheiro onde tomo um banho rápido e faço minha higiene com a velocidade da luz.

Justo hoje deixei o celular pra despertar em cima do horário e o pior que fui adiando ele para ter mais uns minutinhos na cama.

Resultado ATRASADA!

Não posso nem me dar ao luxo de tomar um café da manhã. Minha salvação é a padaria da Nona que faz o melhor café de São Paulo.

Trabalhar e estudar suga todas as minhas energias.

Sem contar os plantões extras que estou fazendo essa semana para que a Júlia possa enfim tirar os dias de folga antes do casamento.

Ela sempre me ajudou então dessa vez me ofereci para ajudá-la também da forma que posso.

Pensar que daqui alguns dias ela subirá ao altar com o homem que ama faz tudo valer a pena.

Me arrependo de não ter dormido de uma vez lá no hospital, pelo menos não teria tanto trabalho agora de manhã.

Assim que chego na padaria dona Cecília me recebe com seu caloroso sorriso.

-Oi menina vai querer o misto quente hoje?

Pergunta carinhosa.

-Hoje somente o café Nona infelizmente meu dia já começou agitado e não terei tempo de comer.

Ela me olha brava e coloca as mãos na cintura.

Sei que levarei um belo sermão.

A funcionária do balcão também sabe, por isso começa a encher o copo de café para viagem o mais rápido que consegue.

Agradeço ela com o olhar. Enquanto a Nona continua me repreendendo por não me alimentar corretamente. Sei que muitas vezes sou negligente com minhas refeições porém me falta tempo as vezes até para me alimentar.

Escuto ela falar como se fosse mamãe e sinto uma saudade enorme dela. Por fim dona Cecília me entrega o copo de café e uma embalagem de broa de fubá.

Agradeço minha pequena de cabelos grisalhos, com um forte abraço e saio apressada para o meu destino.

Do meu apartamento até o hospital gasto em torno de vinte minutos a pé.

Esse é um dos motivos que nos fez aluga-lo na época que nos mudamos para cá.

Nem todas as pessoas que moram em São Paulo podem se dar ao luxo de morar próximo ao emprego.

Embora nosso apartamento seja minúsculo eu e Lara somos muito felizes nele principalmente pela localização que nos permite muitas vezes dispensar meios de transporte.

Verifico o horário no celular estou mega atrasada.

-Droga!

Preguejo baixinho bebendo um gole do café fumegante.

Fecho os olhos por um milésimo de segundo para contemplar a maravilha que acabo de degustar.

Céus café com certeza é a melhor bebida do mundo todo.

Ainda estou nesse êxtase quando sinto algo parar derrepente na minha frente.

Tudo é tão rápido que não tenho tempo de segurar o copo de café.

Em câmera lenta assisto o líquido quente derramar sobre um paletó cinza, que fica instantaneamente marcado com uma mancha marrom.

Minha roupa branca e o jaleco pendurado em meu braço tiveram o mesmo destino do paletó.

Por um instante me esqueço da bagunça que está em minha frente devido a ardência que sinto no meu peito.

-Porcaria isso dói!

Falo assoprando meu colo na tentativa de aliviar a queimadura.

Tenho vontade de chorar quando vejo o estrago que a mancha marrom causou na minha roupa.

Não! Por favor não...

Imploro em pensamento analisando roupa branca ganhando tonalidade marrom.

Dou um passo para trás e me desequilibro mas antes que eu caía no chão sinto alguém me puxar pela cintura.

O toque é tão forte que envia ondas de eletricidade por todo o meu corpo me arrepiando por inteira.

Olho para a mão que segura minha cintura.

Exatamente como eu imaginava que seria: Grande e forte. Meu olhar sobe para o rosto e perco o ar por um momento.

Nunca vi olhos tão intensos nesses meus 21 anos de idade.

Fico perdida na imensidão de um olhar frio, curioso e selvagem.

Desço meus olhos pelo rosto contemplando o nariz perfeito, a boca carnuda, que eu poderia arriscar uma aposta que sabe fazer loucuras. A barba alinhada de uma forma que meus dedos coçam para tocá-la.

E esse pescoço?

O pouco que consigo ver já arranca borboletas do meu estômago. Até o pescoço dessa criatura é perfeito.

Céus isso é muito injusto!Um homem desse deveria ser proibido de existir.

Nem vou falar do cheiro e masculinidade viril que ele exala porque já estou mole em seus braços.

-Em seus braços?

Digo em voz alta enquanto meu cérebro volta a funcionar. So então percebo que minhas mãos estão agarradas ao paletó do desconhecido.

Arregalo os olhos morrendo de vergonha da minha atitude.

Saio daquela situação tão rápido quanto entrei me desfazendo de seus braços.

O desconhecido me encara tão profundamente que me sinto mais envergonhada do que já estava.

O calor que eu estava sentindo em seus braços, dá lugar a uma frieza que me causa arrepios.

Meu coração está acelerado, minha garganta seca e puta merda...

...Meu corpo reage de um jeito estranho com os olhos deles grudados em mim.

-O que esta pensando Isabella? -Ficou doida?

Minha consciência reclama.

-Deve ser o sono!

Digo para mim mesma em silêncio, mas o desconhecido parece compreender meu pensamento.

Minha confusão aumenta quando ele range os dentes me encarando novamente.

Seus olhos estão diferentes dessa vez.

Parece bravo, quer dizer furioso. Sim com toda a certeza desse planeta ele está espumando pela boca.

Penso em correr porem não sou covarde.

-Afinal foi ele quem parou na frente do nada.

Penso em dizer algo, mas minha voz se perde na garganta quando quem fala é ele.

Alexander CooperOnde histórias criam vida. Descubra agora